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Teorias em Sociologia
Eliane Colchete
O estado oposto ao de sociedade foi o constatado nas Américas
“vermelhas” e África “negra” pelo europeu que a esses continentes aportou, sem
nunca outro pensamento além de estar adentrando os novos territórios de sua
posse. O elemento humano que longamente o povoava foi assim desde o início
separado da concepção da terra na qualidade de seu legítimo ocupante, mas por
outro lado fortemente associado a essa terra como nada mais que um produto dela
– assim como se devia recensear aqueles, em metais, fauna, flora e
potencialidades agrícolas, que com ela se tornavam apropriados.
O elemento humano como fator recenseado, tinha pois que entrar na conta do
planejamento da administração colonial. Entre genocídio, escravização, ou
aldeamento para lavagem cerebral compulsória por meio de inculcação da
auto-atribuição de inferioridade racial, anulação da cultura própria e total
submissão ao agente “educador”- catequético, as soluções variaram e coexistiram
lado a lado na imensidão dos territórios.
A descolonização não trouxe nada além de um outro tipo de lavagem cerebral por
meios da assim chamada “pedagogia” ou “educação”, como imposição de assimilar o discurso paralógico da superioridade da cultura ocidental, cuja disciplina oriunda do cristianismo medieval misturando
ascetismo, hierarquia social violenta, machismo e redução do homem a “saber”
escolar, estava agora "cientificizada". Assim enquanto os verdadeiros pensadores questionavam os paradigmas desenvolvimentas, os curriculuns institucionalizavam-se como novo veículo da catequese irracional.
Na pós-modernidade atual, quando os conteúdos das ciências já não podem definir estados de incultura, vemos resistências de professores que se insurgem violentamente contra o que são resultados de pesquisa comprovados, porque já não sancionam preconceitos colonizadores. Mas aqueles profissionais que acatam os novos programas apenas por serem ordens instituídas, reagem com propostas de redução dos curriculuns a mera propaganda de mídia, também reduzida a nível idiota, conforme o "argumento" de que os colonizados não tem nível para compreender materiais de cultura letrada. Especialmente a internet tem sido o alvo das campanhas desses "pedagogos" de modo a dificultar a expansão de textos realmente informativos, assim como o exercício da profissão por pessoas que não tem preconceito colonizador nem fanatismo de "raças" ou condições superiores de qualquer tipo.
A propaganda colonizadora da raça superior também se faz invertendo o parâmetro, de modo que a saudável ação contra a segregação de grupos por questões de cor ou de gênero foi capitalizada pela propaganda como discursos de poder desses grupos, que visam praticar o mesmo despotismo que os colonizadores.
Na pós-modernidade atual, quando os conteúdos das ciências já não podem definir estados de incultura, vemos resistências de professores que se insurgem violentamente contra o que são resultados de pesquisa comprovados, porque já não sancionam preconceitos colonizadores. Mas aqueles profissionais que acatam os novos programas apenas por serem ordens instituídas, reagem com propostas de redução dos curriculuns a mera propaganda de mídia, também reduzida a nível idiota, conforme o "argumento" de que os colonizados não tem nível para compreender materiais de cultura letrada. Especialmente a internet tem sido o alvo das campanhas desses "pedagogos" de modo a dificultar a expansão de textos realmente informativos, assim como o exercício da profissão por pessoas que não tem preconceito colonizador nem fanatismo de "raças" ou condições superiores de qualquer tipo.
A propaganda colonizadora da raça superior também se faz invertendo o parâmetro, de modo que a saudável ação contra a segregação de grupos por questões de cor ou de gênero foi capitalizada pela propaganda como discursos de poder desses grupos, que visam praticar o mesmo despotismo que os colonizadores.
Ou seja, a educação perseverou localmente como o mesmo ônus de total
anulação da cultura própria na qualificação de inferior da catequese, se bem
que não mais apenas suposta paralogicamente cultura pré-científica nenhuma. Em todo caso, a
propriedade no sentido de poder de administrar o território não tornou a
pertencer a povos não colonizadores ou seu representante local, o colonizado
que não obstante não atua o interesse senão do colonizador.
Recentemente publicado, um estudo sobre o Estado – de autores franceses –
chegou a registrar como seria inaceitável, “inimaginável”, que na África
independente desde a segunda metade do século passado se tomasse a decisão de
voltar ao status tribal. O comentário era, como obviedade, que as potências
ocidentais não o permitiriam.
Não foi nunca considerado o elemento humano aborígine em Américas e África,
nação ou sociedade. Esse estado de ausência de sociedade repetiu-se como
atribuição nos séculos XVI e XX, que foram respectivamente os cenários de
penetração europeia na América e na África na qualidade de ocupante local em
status de administrador proprietário. Mas com diferenças.
A primeira atribuição da ausência de sociedade foi definida como ausência de
concepção de relações intersubjetivas, assim como de cultura. O aborígine teria
somente auto-concepção instintiva, não intelectual. Seria adaptado individualmente
ao meio como o animal, com exceção feita ao fato de usar instrumentos de
trabalho e utensílios de ornamento. Suas relações de sexualidade para
procriação ou de auxílio mútuo contra intempéries definiria seu estado primário
de agregação por estrita necessidade, jamais por imaginação de laços simbólicos.
Além disso, ele podia estabelecer com outros relações violentas, por
vontade de domínio, o que configurava além do seu “estado de natureza”, um
“estado de guerra”, com ausência de instâncias de negociação possível como a
existência de nações que interviessem ou direito internacional, no caso de
serem bandos contra bandos, ou de juízes com direitos constituídos no caso de
ser uma luta entre indivíduos. Não havia nada além da violência física que
asseguraria o domínio do vencedor, com eliminação para apropriação dos
pertences ou escravização do oponente.
Portanto, esse primeiro conceito de ausência de sociedade traduziu-se por
ausência de lei. O segundo conceito, de inícios do século XX, não foi
oriundo de descrições de viajantes cujo interesse de registro não era metódico.
Ao contrário, ocorreu já na ambiência da cientificização plena do que até o
século XIX havia sido tratado sob a rubrica de “humanidades”.
A ausência de sociedade não podia agora ser refletida pela noção de ausência de
lei, não só pelo que era observado in loco pelo cientista social unicamente
comissionado para isso e conforme grade de pesquisas controlada, e que era
contraditório com aquela concepção inicial. Mas porque no limiar do século XIX
todo o parâmetro da alteridade continental do europeu já havia mudado para uma
universalização da cultura, de modo que se impossibilitava a atribuição a um ser humano como puro estado de natureza.
A instituição da fronteira do primitivo e civilizado vinha então, como
fator da propulsão dessa mudança crucial, na qualidade do que realmente havia
estruturado todo posicionamento desde o início, e do qual veio primeiro aquela
noção de “estado de natureza”.
Essa premissa que permeia todas as teorias na metade inicial do século XX
ergueu-se contra o interregno "positivista" do século XIX,
onde as ciências humanas, nascidas com o Romantismo nos inícios do século,
foram reduzidas à objetividade da ciência natural. Porém foi com o
"positivismo" de Comte e Marx em diante que a evolução
social - entre formas de sociedade primitiva e civilizada - tornou-se
um dogma, ao invés de uma transição do indivíduo à sociedade.
Assim o "funcionalismo" do primeiro quartel do século XX
restaurou a independência metodológica das ciências humanas, a partir da noção
de seu objeto próprio como cultura, mas por outro lado, anulou a noção de uma
sociedade primitiva.
A condição do primitivo tornou-se a de uma "comunidade" de
cultura, enquanto o termo “sociedade” se tornou exclusivo do entorno
moderno-ocidental, designando além de uma cultura própria com matizes
irredutíveis às dos povos primitivos, a presença da ciência e Estado
constituídos ("civilização"). Aqui não visaremos o que ocorre ao
longo do oitocentos em termos de pensamento social pioneiro, caracterizado pela
oposição do “positivismo” de meios de século ao Romantismo dos inícios, até
a altura dos anos oitenta, em que os sinais da consolidação funcionalista
tornam-se presentes. Mas sim, entre o século XX até agora, a multiplicidade
teórica que abrange e sucede o “funcionalismo”.
A emergência do parâmetro funcional
Constatei utilizada por Lowi (Romantismo e messianismo") a expressão
“círculo de Weber” para designar a sociologia alemã de inícios do século
passado, cenário privilegiado da emergência do que desde aí se desdobrou nos
termos do funcionalismo. Os sociólogos que pioneiramente manejaram a oposição
de “comunidade” e “sociedade” a exemplo de Tönnies teriam sido agrupados de um
modo mais ou menos íntimo em torno da figura já assim carismática de Weber.
Um texto autobiográfico de Norbert Elias lançado algo recentemente confirma a
utilidade dessa expressão, mas relativiza um tanto a centralidade da Alemanha
para a história da sociologia, e ilumina bastante o que também a meu ver é algo
que não deve ser negligenciado como se faz ordinariamente, a saber, o cenário
inglês dessa época.
A importância aqui é fazer ver que esse cenário não deve ser tratado como numa
antecedência de direito, ao modo de simples prolongamento, do empirismo já
agora sinônimo de positivismo ou ciência social ultrapassada. A preservação do
conceito de ciência social em torno da observação empírica não implica por si
só a redução “objetivista” que fazia o positivismo, de pesquisa e teoria, muito
menos a conexão dessa limitação epistemológica à psicologia “associacionista”
igualmente ultrapassada que a amparava.
Nessa intenção seria importante contudo sublinhar o fenômeno histórico da
sociologia nascente na sua forma atual evoluindo em três e não apenas dois
cenários decisivos. À Alemanha como berço do funcionalismo, e à Inglaterra como
núcleo de um redimensionamento básico da pesquisa empírica, é necessário
acrescentar os Estados Unidos como origem da “ecologia urbana”.
Não só é a “sociologia de Chicago”, cuja figura
proeminente é Robert Park, mas cuja pesquisa famosa na história da sociologia
é a de Floran Znanieck sobre o imigrante polonês, a origem da sociologia
da “cidade”. Mas igualmente da conexão entre “cidade” e fenômenos de
discriminação sistemática, como o racismo ou o preconceito de classe, e de
formação de subculturas marginais, que implicam reconfigurar o conceito amplo
demais de “conflito social”. A ponto de se poder falar de um conceito
sociológico de “cidade” não conexo ao que havia antes mas muito familiar ao que
pensamos ainda hoje.
Isso pode parecer por um lado, espúrio ao nosso tema presente ligado apenas à
origem do funcionalismo, e por outro lado nada incomum numa época como o início
do século passado, em que afinal de contas o acontecimento principal foi a
ascensão da mais terrível forma de discriminação sistemática jamais conhecido
ou praticado em nível de Estado, o nazismo. Além do mais é histórico o fato de
que nos Eua realmente o funcionalismo penetrou como uma segunda onda em relação
à “sociologia” empírica (mas não positivista) de Chicago.
Mas o que precisamos destacar é justamente, primeiro,
a irredutibilidade de cenários como o inglês e norte-americano em que o
problema social não estava dominado pela pressão da “grande teoria”,
isto é, a tarefa de fornecer as poucas definições básicas e axiomáticas fora
das quais não poderia haver ciência, investimento teórico ou forma de pesquisa
qualquer.
A sociologia aí não era sinônimo dessa pressão,
mas se podemos demonstrar que não é por outro lado simples defasagem ao que
sustentou essa pressão como necessidade já demonstrada, então podemos
aproximá-la a formas bem mais recentes de interesse sociológico, pois em nossa
época o que está ocorrendo é a ultrapassagem tanto do funcionalismo como dos
estruturalismos e pós-estruturalismos, a partir da impossibilidade de manter
grandes teorias de fundo teleológico. A sociologia se beneficiou muito internacionalmente com o pós-modernismo, já que a cultura num sentido bem ampliado relativamente ao ocidentalismo do século XX vem agora ao estatuto "multicultural", como veremos oportunamente.
Além disso, também se poderia destacar como algo relevante o fato de que a
carreira de Elias começa num momento em que o círculo de Weber já se aglutinava
em torno apenas da memória do grande pioneiro, cujos cuidados para fins de
influência institucional ficara a cargo da esposa ou de Alfred
Weber, que também foi destacado sociólogo mas sempre fiel à teoria do irmão.
Assim de qualquer modo a proeminência do
“círculo weberiano” estava rapidamente cedendo à transformação oriunda da
mudança do regime e acontecimentos da segunda guerra, do que emergiu um cenário
alemão de meios de século passado afim ao que Helmut Schelski reclamou em
termos de uma “situação da sociologia alemã” negligente com o funcionalismo e
muito mais voltada à pesquisa empírica. Eu não creio que isso tenha diretamente
contribuído para a ultrapassagem do funcionalismo, o que ocorreu sim mas pela
tomada da cena pelo estruturalismo. A pesquisa empírica ficou sempre num
segundo plano até começar-se a falar em “pós-modernismo”, na transição ao
presente século. Bem inversamente a Schelsky, considero a generalização da
pesquisa empírica algo extremamente favorável à sociologia assim como a todo
pensamento, pois do contrário lidamos apenas com quimeras porém bastante
características do preconceito dicotômico que totaliza a condição
"primitiva".
Não obstante ao que se poderia apontar, é significativo que
o próprio regime nazista tenha emergido num contexto europeu não estranho ao
que o funcionalismo impulsiona de seu, como a circunscrição de totalidades de cultura
inteiramente independentes umas das outras, ainda que todas sobrepostas
pela oposição geral de culturas restritas à “comunidade” ou pelo contrário, que
evoluíram à “sociedade”.
Manifestamente a sociedade foi na época
conceituado como desenvolvimento da “cultura indo-europeia”, em torno de
que não só se aglutinaram várias formas de pesquisa setorizadas em história da
arte e demais manifestações culturais, como também a coalescência da concepção
do “mito ariano”. Uma totalidade de cultura em sentido funcionalista seria
portanto, desde a “comunidade”, uma organização de valores em torno de um mito
arcaico. Evoluindo na circunscrição exclusiva da totalidade indo-ariana,
ocorreu que as estruturas básicas da mentalidade mítica cederam a uma transformação
da qual decorreram as formas supostas superiores de cultivo, como a filosofia,
a organização política estatal e as ciências.
O mais importante para o “funcionalismo” original do círculo de Weber, que se
pode generalizar como um “tradicionalismo” até mesmo a figuras tão importantes
como Arendt e Benjamin, não diretamente subsumidos a ele, foi mostrar que
quanto a estas formas "superiores", não são explicáveis em si senão
como modificações das estruturas elementares de todo mito – que seriam
originárias da mente humana arcaica, isto é, primitiva.
Assim entendemos que o funcionalismo emergiu no
entanto como um cenário de oposição política, como uma
“esquerda”, ao que em primeira instância resultou daquela passagem “simbolista”
em trânsito à época de Nietzche, do positivismo a uma concepção
mítico-axiológica da cultura.
Ou seja, primeiro aconteceu a superação da posição positivista
onde toda cultura estava reduzida a “ideologia” como avesso da ciência. Mas
nesse momento inicial, não necessariamente para efeitos de crítica da cultura
como nova base da crítica do capitalismo. Como um momento histórico o
apreendemos bem pela ojeriza documentada de Nietzsche ao modo como isso serviu,
pelo contrário, para embasar o Reich e toda concepção
imperial-neocolonialista-industrial-tecnicista.
O positivismo exalta o progresso, após tê-lo conceituado dogmaticamente em
termos de história universal, o funcionalismo critica a civilização em nome da
cultura, mas não desloca a noção de que se trata de progresso (evolução social)
e assim não é uma crítica sem ser um acerto de contas, de modo algum uma
ruptura real.
Um cenário socialmente marcado pelo positivismo tem sua cronologia pensada como
uma marcha à frente, o funcionalista, inversamente, porfia por manter uma ordem
tradicional do passado, mas sem crer que isso impedirá a evolução, apenas
almejando, bastante contraditoriamente, conciliar as duas coisas. A
"angústia" existencialista é algo talvez diagnosticável como a
consciência dessa contradição.
Mas quando já estamos na ambiência do século XX e da sociologia alemã em torno
de Weber, é que se consolida a oposição de “comunidade” e “sociedade”. Aqui é
importante notar que se poderia realmente objetar que Weber podia não estar
muito enfronhado nas transformações pelas quais passava concomitantemente a
psicologia, na época em que estava sendo refutado o
"associacionismo", e que o “ego” não é ainda nessa transição ao
início de século, preponderante na sociologia. Mas a isso pode-se responder que relacionado ao “ego”, trata-se para Weber sim de uma mentalidade exclusiva à
sociedade, que ele tratou em termos de “racionalidade” ou mais precisamente
“ação racional”.
Não é muito difícil entender como isso pode resultar numa crítica do
capitalismo ou da sociedade, o que é o mesmo nessa concepção. Porém crítica tão ambígua que até hoje os comentadores de Weber não concordam quanto ao que pode significar. Pois, o contrário
da ação racional são ações rituais ou de fundo emotivo, que ou podem significar que no entanto teriam
permitido à humanidade construir elaborados sistemas coletivos e sofisticados
recursos econômicos, sem porém reduzir as relações dos homens a exploração pura
e simples. Assim teria havido sempre formas de conciliar valores e metas,
por onde fortunas particulares teriam sempre sido coibidas. Isso é claro, porém
já não num estado puramente primitivo, mas propriamente pré-capitalista. Ou pode-se pensar que o tradicionalismo foi sempre apenas obstáculo a uma liberdade que só o Ocidente moderno pode propiciar, se bem que para contornar os conflitos oriundos do capitalismo fosse necessário mais investimentos em valores.
Mas em todo caso agora a “sociedade” plenamente desenvolvida ou
capitalista seria uma evolução – ou degradação, senão preservasse valores
humanos – tal que só as metas persistiram, separadas dos valores e sempre
que necessário alienantes destes.
Bem inversamente, no positivismo a cognição é o lote comum dos seres humanos,
epifenômeno das técnicas adaptativas, porém os primitivos a tinham muito
defasada em relação ao civilizado.
No entanto a crítica funcionalista coexiste lado a lado com a
consciência de que a evolução tem uma base adjetiva, isto é, trata-se também de
evolução em nível de capacidades intelectuais humanas. A racionalidade da
empresa capitalística em Weber é real, não apenas uma ironia. Para Weber, é o
que estrutura a economia capitalista ocidental como ajuste objetivo de meios a
fins, somente que ao lado desse fator evolutivo real, estende-se o efeito
colateral da dominação máxima das instituições assim já sociais. Ou seja, paralelamente ao capitalismo, instituições racionais do ponto de vista do regime político como a democracia.
O que embasa agora a noção da ausência de “sociedade”, é portanto o contrário
do que embasava a noção quando ela tinha por correlato apenas o estado de
natureza. Neste primeiro caso, o estado de natureza é o de todos nós, mesmo já
em sociedade, apenas que se em sociedade, além de indivíduos naturais somos
também responsáveis por um sistema de obrigações contratuais. Na “sociedade”
como contrário de “comunidade”, não subsiste da origem senão o fator
processual. Nós somos seres diferentes do primitivo, e mesmo do
“pré-capitalista” que só poderia aceitar a circulação da riqueza, a fortuna pessoal,
identificada por papeis sociais representativos dos valores tradicionais –
os quais se personificam, na forma da autoridade responsável pelo sistema dos valores, pelo rei ou figura correspondente a quem tudo
pertence, e de quem toda concessão para circular provem. Esse sistema seria "patrimonial", conforme Weber, enquanto o civilizado seria "burocrático-racional-legal". O sistema patrimonial já admite formas de Estado, mas não de todo civilizado, sendo uma modulação do primitivo sem confundir-se com ele.
Além disso, quando se tratava do oposto do estado de natureza, como estado de guerra, a noção de
sociedade servia para legitimar um estado de coisas que se pretendia invalidar
a nobreza como estamento privilegiado da tradição, assim tendo sido entre Locke e Rousseau. O privilégio tanto quanto a
ditadura não eram nem estado de natureza nem de sociedade, era estado de guerra
ou sinônimo de dominação, em Locke e Rousseau. Agora, pelo contrário, o pós-positivismo desde o
simbolismo expressava a consciência de um recorte social que os manuais
escolares de história raramente reconstituem, persistindo numa imagem falsa do
capitalismo como domínio definitivo da classe burguesa que teria emergido da
Revolução iluminista.
Neste recorte efetivo, pelo contrário, a classe dominante é a alta burguesia
radicalmente oposta à pequena burguesia tanto quanto ao proletariado, mas
integra a classe dominante junto com a alta burguesia, a nobreza dos impérios
neocoloniais como Prússia ou Inglaterra. O Estado aqui é o máximo agente do capitalismo, mas ele é todo o
oposto do ideal democrático especialmente na Prússia, é o ideal imperial ou tradicionalista onde a
hierarquia social não é sinônimo de exploração como Marx posicionara bem não obstante o limite da perspectiva progressista-positivista, mas de “identidade” de um povo,
posto que a estratificação seria oriunda da sua própria história – a nobreza
como agente de aglutinação dos bárbaros no medievo, a classe dominante atual
como agente da prosperidade nacional.
O que estava criticada na transição ao século XX, era assim, conforme o recorte neoaristocrático do capitalismo, a possibilidade “liberal” que tivera suas raízes na Revolução Francesa, de uma classe capitalista
sem raízes numa tradição que integra por sua vez a articulação conservantista do
Estado imperial anti-revolucionário. O liberalismo só retorna após as guerras mundiais.
O Estado europeu da época funcionalista, quando as duas guerras acontecem, desde o que se conhece como “biedermeyer”,
um cenário cultural que praticou um Romantismo deturpado, é francamente repressivo a todo ativismo revolucionário, isto é, democrático ou
socialista, enquanto por outro lado investe em artes e cultura pseudo-“nacionalista”
(pró-imperial) e de outro modo ainda, promove a tecnização total dos currículos
acadêmicos. Todo mundo é culto desde que a cultura desce ao nível do todo
mundo, via jornalismo e espetáculos subvencionados pela propaganda do regime, eivado de discriminação social como o anti-semitismo –
assim Nietzsche tratou considerável parte do que designou o “caso Wagner”, o gênio que havia sido contudo inteiramente cooptado para propaganda do regime imperialista prussiano. Não obstante o próprio Nietzsche na Genealogia da Moral culpava os judeus como origem da mentalidade liberal.
Por sua vez o “capitalismo” era agora sinônimo de grandes conglomerados que por
esse recurso da cartelização inviabilizavam a economia de livre concorrência –
princípio que havia levado a extremos de “unfair competition” e não deu cabo do
sistema apenas porque se reverteu a tendência pela dominação de grandes grupos
transformando a concorrência em união de interesses sob a égide do mais
forte.
É interessante citar aqui a página da 'História da Literatura Ocidental" (Rio de Janeiro, Alhambra, 1978, volume 7, p. 1800, 1801), de Carpeaux a propósito do simbolismo. Onde ele arrola em torno de dez inaugurações de monopólios entre 1882 e 1900, citando também a Siemens e General Eletric. Mas Carpeaux enfatiza ser esse o reflexo no capital privado da política dos governos, que deixaram o laissez faire e adotaram o protecionismo mais ferrenho para consolidar sua industrialização. Assim a lista dos monopólios mais importantes se precede pela lista das leis protecionistas como de Mac Kinley, Bismark e Chamberlain, também ocorrendo na França.
Essas referências da história econômica são feitas por Carpeaux para "demonstrar a universalidade do fenômeno" de ajuste progressivo dos literatos e poetas simbolistas, desde a atitude do decadentismo ou naturalismo até "uma atitude afirmativa em face do mundo". A seu ver o que ocorre aí é que "a literatura pré-simbolista baseava-se em duas classes: a burguesia liberal" do romanticismo epigonal, e "os pequenos-burgueses" radicalizados, "fazendo a propaganda do naturalismo". Agora porém, na época do simbolismo pleno, a burguesia torna-se reacionária, contra o liberalismo, " e o lugar do radicalismo será ocupado pelo proletariado organizado". A pequeno burguesia referencial dos artistas criadores ficara sem função política, pois na época "a situação é de guerra entre o capital monopolista e o proletariado organizado".
Por que o "capitalismo transformando-se de capitalismo industrial em capitalismo financeiro abandonou a doutrina do livre-câmbio, da liberdade dos mercados internacionais, abraçando o protecionismo, ocorreu uma era de prosperidade e de "conspicuous consumption" à Weblen, pelo que a burguesia comprou a arte "inútil", o l'art pour l'art simbolista, que era o oposto da arte politizada do proletariado. Carpeaux fornece também uma lista das conquistas eleitorais
e organizações proletárias que emergem nessa
mesma época, como a segunda internacional em
1889, a pioneira celebração do feriado do
trabalho em 1890, entre outros marcos
importantes. Porém não notou Carpeaux que uma
lista havia também por acrescentar, da escalada
do avanço neocolonialista afro-asiático, de modo
que na conferência de Berlim de 1885 oficializou-
se o mapa dos domínios europeus sobre todo o
continente africano, e em 1914 já se configurado
o mesmo domínio na Ásia, porém também aí
participando os Estados Unidos e Japão. Na
América Latina o imperialismo inglês já
acontecia porém há bem mais tempo, porém nessa
época ampliava-se para vários outros influxos do
capital.
É interessante citar aqui a página da 'História da Literatura Ocidental" (Rio de Janeiro, Alhambra, 1978, volume 7, p. 1800, 1801), de Carpeaux a propósito do simbolismo. Onde ele arrola em torno de dez inaugurações de monopólios entre 1882 e 1900, citando também a Siemens e General Eletric. Mas Carpeaux enfatiza ser esse o reflexo no capital privado da política dos governos, que deixaram o laissez faire e adotaram o protecionismo mais ferrenho para consolidar sua industrialização. Assim a lista dos monopólios mais importantes se precede pela lista das leis protecionistas como de Mac Kinley, Bismark e Chamberlain, também ocorrendo na França.
Essas referências da história econômica são feitas por Carpeaux para "demonstrar a universalidade do fenômeno" de ajuste progressivo dos literatos e poetas simbolistas, desde a atitude do decadentismo ou naturalismo até "uma atitude afirmativa em face do mundo". A seu ver o que ocorre aí é que "a literatura pré-simbolista baseava-se em duas classes: a burguesia liberal" do romanticismo epigonal, e "os pequenos-burgueses" radicalizados, "fazendo a propaganda do naturalismo". Agora porém, na época do simbolismo pleno, a burguesia torna-se reacionária, contra o liberalismo, " e o lugar do radicalismo será ocupado pelo proletariado organizado". A pequeno burguesia referencial dos artistas criadores ficara sem função política, pois na época "a situação é de guerra entre o capital monopolista e o proletariado organizado".
Por que o "capitalismo transformando-se de capitalismo industrial em capitalismo financeiro abandonou a doutrina do livre-câmbio, da liberdade dos mercados internacionais, abraçando o protecionismo, ocorreu uma era de prosperidade e de "conspicuous consumption" à Weblen, pelo que a burguesia comprou a arte "inútil", o l'art pour l'art simbolista, que era o oposto da arte politizada do proletariado. Carpeaux fornece também uma lista das conquistas eleitorais
e organizações proletárias que emergem nessa
mesma época, como a segunda internacional em
1889, a pioneira celebração do feriado do
trabalho em 1890, entre outros marcos
importantes. Porém não notou Carpeaux que uma
lista havia também por acrescentar, da escalada
do avanço neocolonialista afro-asiático, de modo
que na conferência de Berlim de 1885 oficializou-
se o mapa dos domínios europeus sobre todo o
continente africano, e em 1914 já se configurado
o mesmo domínio na Ásia, porém também aí
participando os Estados Unidos e Japão. Na
América Latina o imperialismo inglês já
acontecia porém há bem mais tempo, porém nessa
época ampliava-se para vários outros influxos do
capital.
Como podemos constatar, com efeito o aristocratismo burguês de Estado que assim emergiu teve a consequência de por
um lado, acirrar uma esquerda que não mais acreditava no Estado constitucional
de direitos, mas só numa estratificação hierarquizante que substituiria aos
privilegiados no topo, os operários genuinamente humanos, quase-primitivos mas
na rota agora da evolução certa, a indústria racional sem o prejuízo do Estado.
E por outro lado, o anti-semitismo, na medida que o judeu apátrida seria o
capitalista desenraizado típico, independente daqueles que se tornaram comunistas.
Assim vemos que quando emerge na feição funcionalista, a "sociedade "é um locus crítico, mas ao mesmo
tempo situante do evolucionismo pós-positivista.
Em termos sociológicos estritos, como vimos, a sociedade é a racionalidade das
instituições. Isso vemos em teorias como a de Tönnies, em que a oposição é
crucial. Aqui a comunidade não está fora do ocidente, mas lá fora é um limite
do não-ocidental ou circunscrição do primitivo. Dentro do ocidente, é a base
das relações interpessoais, onde essas relações não implicam “contrato”
, isto é, não implicam formas racionais de integração, mas inversamente são
automáticas, funcionais, decorrem do nosso próprio modo de ser naquilo em que
se torna relacionável a um grupo.
Assim a família ou um grupo de amigos é uma “comunidade”, não uma “sociedade”.
Um clube em que temos de nos associar mediante preenchimento de requisitos, um
partido político, uma empresa, pelo contrário, são “sociedade” ou formas de
relação “societárias”. Nelas o fator fundamental é que as ações possíveis
decorrem de escolhas conscientes possíveis. Nós não votamos em quem deve ser
nossos pais, não predeterminamos quem poderá integrar nossa turma na escola, nem geralmente estabelecemos regras explícitas de comportamento para que pessoas possam ser consideras como amigos. Mas votamos em quem deve ser o presidente e comissionados da associação do bairro, por
exemplo, supondo que a associação foi estabelecida por contrato conforme conveniência dos moradores. Além disso, votamos em cargos constitucionalmente estabelecidos da representação civil, nacional. Por outro lado, "clique" em sociologia significa não uma comunidade, nem uma sociedade, mas um número de pessoas que se unem, no interior de um grupo comunitário ou social , contra os demais integrantes, portanto sendo a clique um caso de "anomia" ou "conflito social".
O funcionalismo não se tornou uma esquerda, portanto, como “primitivismo”, mas
como “comunitarismo” restrito a essa concepção da comunidade dentro do
ocidente, porém sempre preservando o horizonte progressista. Essa “esquerda” como estamos constatando é então profundamente
ambígua. Ela também pode ser designada “humanista” na medida em que as
instituições comunitárias seriam propriamente humanas, enquanto as societárias
seriam impessoais, maquinais, técnicas, servindo a interesses de exploração de
classe ou pelo menos de coisificação dos valores. Mas assim muita coisa fica de
fora do “humano” e não vemos bem porque, se o que fica de fora não é outra
coisa que práticas protagonizadas por pessoas.
Essa designação de “humanismo” interessa muito à história do marxismo, como já
ressaltamos, uma vez que se trata da reformulação funcionalista da doutrina de Marx, mas aqui ela é interessante para ilustrar o fato de que o
culturalismo, como o poderíamos também designar, faz par com a definição do
adulto tanto como ocidental quanto como psique estruturada pelo “ego”.
Essa é a informação que colocamos inicialmente, como espero ter ficado bem ressaltado, e não
devemos portanto supor que a esquerda “comunitarista” foi uma crítica do “ego”
ou, onde se tratou de primitivismo, algo em ruptura com a psicologia do século XX. Como um neomarxismo, os
humanistas puderam nisso porém se apoiar inteiramente no próprio Marx, depurando-o dos traços positivistas.
Não é
porque houve um comunismo primitivo ao ver de Marx, que o comunismo como programa de
superação do “individualismo” burguês o deveria estabelecer como um modelo.
O comunismo primitivo em Marx apenas serve à explicação do capitalismo como
algo que depende de uma mutação evolutiva essencial, o advento da propriedade
privada, assim do ego auto-consciene. Portanto serve para demarcar que
não são primitivos
a propriedade privada e a lei anti-incesto tanto quanto as relações monogâmicas de gênero ou a auto-consciência desvinculada do que Marx designou na Ideologia Alemã "a consciência de carneiro, tribal".
não são primitivos
a propriedade privada e a lei anti-incesto tanto quanto as relações monogâmicas de gênero ou a auto-consciência desvinculada do que Marx designou na Ideologia Alemã "a consciência de carneiro, tribal".
Não se poderia mais aceitar, na altura
do pós-positivismo, a junção causal que Marx e os positivistas supunham haver
entre todos esses fatores do progresso, e a suposição de alguma sociedade sem lei primitiva, pois já havendo pesquisa in loco, constatou-se que todas tem sistemas regrados, isto é, leis, de parentesco, mas continuou a existir essa estruturação pela qual
a consciência dos valores dotada de racionalidade como de consciência egóica, difere da consciência dos
valores primitiva por se limitar esta a uma afetividade tal que não tem
consciência de si, confunde-se com o papel social.
Os homens são portanto, basicamente impulsionados pela afetividade, pelo
atrativo da força, pelos instintos, pelo mito que os aglutina, mas não assim
devem permanecer, muito menos quando se trata de organizar politicamente um
patamar que impeça a distopia da exploração do homem pelo homem como efeito
colateral da evolução. O que está sendo conjurado assim é a concepção da
Revolução contra o antigo regime nos termos do advento do indivíduo tal que
pudesse o configurar o positivismo, apenas entidade psico-física com
capacidades intelectivas.
Ou seja, conjurava-se o que agora se considerava a distopia de uma burguesia do
tipo judeu de clã conforme Weber, o oposto do capitalista protestante egóico – não necessariamente a organização social “racional” por si só, ou melhor, essa organização como decorrente da egoidade. O
ego é propriamente o sujeito dos valores e portanto sujeito em
sociedade – este o axioma do tradicionalismo ou funcionalismo
“humanista”. Da comunidade à sociedade, está portanto uma aposta de liquidação
do mal social com vistas a uma sociedade boa cuja base seria conscientemente a
comunidade, porém não necessariamente com vistas a um primitivismo.
O “primitivismo” foi um movimento artístico, dentre os que se designaram
“modernistas” apos o simbolismo, em aparente convergência com o funcionalismo e psicologia
nova mas de fato muito irredutível a eles na medida em que realmente foi uma
recusa do “ocidente” no sentido de situá-lo nos termos de alguma “evolução”.
Convergiu porém nisso pelo que “ocidente” persistiu em ser tratado como
“racionalidade”. Assim o primitivismo só foi uma valorização não ambígua da
arte africana ou aborígine sul-americana ou ainda asiática, na medida que foi
um violento irracionalismo.
A emergência do pós-modernismo, como mencionamos, implica uma ruptura
real pressuposta ter acontecido com relação ao recorte fundamental na ciência
humana, a dicotomia do primitivo e civilizado da qual resultara com o funcionalismo um novo conceito de ausência de sociedade.
Ligeiramente tangenciamos uma motivação crucial ao pós-modernismo ao notar a
existência de tratamento conceitual de fenômenos culturais onde se põe em
cheque a universalidade do parâmetro ocidentalista de racionalidade – sem
contudo ter por correlato um primitivismo como seu contrário, no caso da
literatura americano-latina recente. Mas antes de examinar essa ruptura,
precisamos nos deter nessa temática do funcionalismo a partir agora da sua
aplicação como política além do continente europeu.
O que vimos nos permite notar que a tese de Lowe sobre o círculo de Weber como
uma espécie de neoromantismo, na verdade não é exata. Pois o “ego” da
psicologia nova, não sendo originário mas formado e historicamente condicionado
pela evolução social, difere profundamente da concepção romântica do “eu”
originário e universal. Além disso, esse “ego” não é como Hegel pensava,
exemplificando talvez a concepção geral da época, a forma “para si” da
civilidade.
Com essa concepção, Hegel expressou contudo o trânsito ao Estado contemporâneo
de direitos civis, que não é um Contrato social da maioria, cujos valores seriam sempre racionalidade universal, mas uma Constituição Nacional. Seria igualmente
errado supor então que do funcionalismo em diante revertemos ao contratualismo
“iluminista”. A sociedade é em que contratos na forma jurídica, isto é,
“impessoal” como se diria agora, podem ser celebrados, mas é mais do que isso.
De fato, para haver um contrato é preciso já existirem ambas as partes
contratantes, mas para que a sociedade fosse um Contrato da maioria, haveria
como signatários por um lado uma maioria já existente e por outro lado uma
sociedade que só existiria depois do contrato constituído. Ou seja, a noção
revelou-se absurdo. Assim o contrato é entre particulares, não o que define um
domínio público em termos de sociedade e de Estado, como a Constituição.
Também podemos notar que a noção de cultura nacional do Romantismo é a miscigenação formativa, a "história" nacional. Assim romantismo é um termo que vem de romanço, as misturas de línguas bárbaras nacionais com o latim. Mas na era do funcionalismo, a nacionalidade é um todo de cultura sistemática, um mito ou ação ordenativa única, um arquétipo, não havendo conceito de miscigenação.
Também podemos notar que a noção de cultura nacional do Romantismo é a miscigenação formativa, a "história" nacional. Assim romantismo é um termo que vem de romanço, as misturas de línguas bárbaras nacionais com o latim. Mas na era do funcionalismo, a nacionalidade é um todo de cultura sistemática, um mito ou ação ordenativa única, um arquétipo, não havendo conceito de miscigenação.
Enquanto o funcionalismo se generalizava como teoria dominante da ciência
social, e assim aportava aos USA como segunda onda da sua sociologia em que
tanto se destacam até hoje a contribuição de Robert Merton e Talcott Parsons,
dois fenômenos históricos foram acontecendo, paralelamente ao cenário europeu
das duas guerras e à concreção da realidade soviética.
Os Usa exemplificam a luta que o Ocidente desenvolvido protagonizava agora
contra o capitalismo na forma monopolista dos trustes e carteis. O Estado
sofrera uma mudança devido às guerras, e a soldagem de império nacional e
grande capital já não tinha por amálgama o empreendimento neocolonialista europeu. Na
Europa, todo esforço estatal estava voltado à guerra entre os impérios, e logo
esse conflito estava generalizado pelo fator de pactos e influência política,
ainda que os Usa não tenham participado desde o início.
O Estado, onde não havia ainda o compromisso de guerra, como nas Américas, agia agora com uma
ênfase nos congressos como fóruns de defesa da sociedade contra o capitalismo
reconceituado em termos de sociedades anônimas como trampolim para as “elites
do poder” ou detentores de cargos decisórios de porte internacional devido ao
peso dos conglomerados como dominadores do mercado.
Foi o inicio do keynesianismo, uma interpretação da economia onde a liberdade
total do mercado resultaria apenas como falácia, já que se sabia bem que
significava apenas domínio total do capital cartelizado sobre a sociedade.
Ao Estado cabia não só a defesa da sociedade contra as formas de domínio assim
possibilitadas, os trustes, holdings, cartéis, etc., como também amparar a economia em nível nacional para manter o
bem estar social.
O Estado investia em solicitação de
serviços e concessão de empréstimos para fomento dos negócios, e programas
sociais de amparo aos carentes, para que assim sempre houvesse iniciativa
dos negócios para atender ao estímulo porque havia sempre capacidade de compra.
O importante nessa política econômica não me parece tanto ter sido a economia
em si, mas uma filosofia de inseparabilidade dos fatos econômico e social assim como a responsabilidade do Estado na vida civil.
Esse também parece-me ser o maior fator de ataque aos keynesianos, não só
da direita capitalista, mas de uma esquerda que via nisso uma ingerência do
social pelo econômico, ainda que de fundo estatal, e assim nada mais que uma
forma sofisticada de controle do social. Esses ataques, tendo ou não sido
justos, a meu ver sendo injustos ou refletindo visões anti-sociais como da redução da sociedade ao proletariado - que nem mesmo são os trabalhadores mas apenas os que se identificam com a ideologia reducionista ao trabalho como significação do ser humano - tiveram êxito somente a partir da transição ao terceiro milênio,
e entre os anos trinta e os sixties a luta anti-truste e consecutivamente o
keynesianismo foi o fenômeno conspícuo na transformação do Estado.
Que podem não ter sido lá muito justos vemos pelo fato de que o resultado da
superação recente do keynesianismo não foi nenhum triunfo das esquerdas, inversamente ao que alguns . Mas
pelo contrário, o neoliberalismo econômico que arroga todo poder ao capitalismo
monopolista, com anulação do Estado em termos de defensor dos direitos dos cidadãos. Isso
resultando numa realidade de intenso conflito social e depauperação dos povos, avassalamento total dos direitos da pessoa, ao nível dos piores nazismos,
com inversamente incremento fantástico dos ricos não obstante terem se tornado
menores em número comparativamente as cifras da pobreza, resultado portanto
muito irredutível ao que os paladinos da anulação do Estado prometiam.
Sobretudo não
houve menos controle do social, só que agora está sendo feito sem qualquer
contrapartida de legitimidade, ou seja, sem qualquer possibilidade de regulação civil, porque os protagonistas não são instituições
civis reguláveis por leis, mas a mídia que trabalha a mando dos monopólios e os
integra economicamente, além dos dispositivos informáticos.
O segundo fenômeno foi a industrialização insipiente nos países do terceiro
mundo que estavam podendo aproveitar o interregno da guerra como de suspensão
dos empreendimentos neocolonialistas europeus. É nesse âmbito que podemos
desenvolver o tema que propomos, já que isso significava para a mentalidade
funcional que esses países estavam “em desenvolvimento”, e portanto nem eram
“subdesenvolvidos” no sentido de ausência de sociedade, nem totalmente
desenvolvidos.
As políticas de desenvolvimento total foram intensamente marcadas pela
influência do funcionalismo, e nessa decorrência o que antes foi tão amplamente
designado “comunidade”, agora, na segunda onda funcionalista, vinha tratado pela rubrica de “sociedade
tradicional” oposta à “sociedade desenvolvida”.
O funcionalismo norte-americano teve seu papel nessa mudança, especialmente
Talcott Parsons, em cuja obra espelhou-se exemplarmente a aplicação do
funcionalismo numa chave de fundo durkheimniano, ainda que a ambição de Parsons
fosse produzir uma síntese de orientação weberiana, isto é, centrada na “ação
social”.
O importante aqui é notar que sob a aparente universalização de “sociedade” de
modo que não haveria mais o contrário ou ausência, restava a classificação
antagônica de primitivo e civilizado. Em Parsons especialmente se dissipa
qualquer precaução quanto ao aspecto adjetivo dessas qualificações. Como Guy
Rocher bem notou, ele relançou factualmente o sócio-evolucionismo sem mais
ambiguidade quanto ao aspecto desenvolvimentista da teoria. A partir daqui, nesse trecho, empreenderemos um exame do cenários funcionalista, antecedendo os outros focos teóricos que deveremos tematizar.
A trajetória da "Sociedade"
Ao aportar aos USA, o
funcionalismo assinalou a segunda onda dos estudos sociológicos neste país,
europeizando-os após Park. Mas também se pode afirmar que o funcionalismo norte-americano
ocasionou uma segunda onda do próprio funcionalismo. Merton realizou
explicitamente uma crítica do que desde então ficava na categoria de
predecessor, o funcionalismo “absoluto” de Malinowski e Radcliffe Brown,
estabelecendo um novo parâmetro.
Como
ressaltamos, o resultado desse novo ambiente funcionalista foi um momento em
que se generalizou ao máximo a oposição de “sociedade tradicional” e “sociedade
tecnológica” cujo papel foi de reconceituar a oposição original do
funcionalismo entre ausência e presença de sociedade. Agora estaremos tentando
apreender algo do modo como essa oposição se espraiou à coalescência, na
teoria, de uma noção sociológica de “terceiro mundo”, as nações antes colonizadas e agora supostas tradicionais (subdesenvolvidas), como realidade autônoma.
Isto é,
tangenciando agora um problema real de interpretação histórica na trajetória da Sociologia, posto que ao
contrário do que poderia parecer, não significa necessariamente que a noção de
chegada decorre de uma ruptura em relação à oposição de partida. Até mesmo
podemos afirmar que chegar a discernir onde isso não ocorreu pode não ser muito fácil.
Alguma
flutuação terminológica que seria pertinente notar incide nesse ponto, por
exemplo, quando alguns historiadores da sociologia consideram Merton
funcionalista mas do que chamei a segunda onda, enquanto a designação
“estrutural-funcionalismo” ficaria reservada a um terceiro tipo, ilustrável por
Parsons. Assim procede Guy Rocher. ("L'organisation sociale") Enquanto Francisco Marsal (Enciclopédia Salvat, v. "Sociologia"), utiliza a designação
“estrutural-funcionalismo” de um modo geral para a tendência assim como se
desenvolve desde especialmente Parsons e Merton, nos USA. A tendência que definiria,
a seu ver, o "apogeu" sociológico norte-americano em consonância com
motivações originais do país, não obstante outros observadores como Rorty salientarem a europeização da teoria nessa época.
Nesse contexto
podemos também exemplificar a dificuldade de vocabulário, acima apontada. Em
Rocher, o sociólogo Oscar Lewis é citado como exemplo de uma veemente recusa da
oposição de sociedades tradicional e tecnológica.
Em Marsal, o
norte-americano Oscar Lewis é citado como o teórico da “cultura da pobreza”
cuja referência é contudo sequenciada no texto pela apresentação do uso mais generalizado
da oposição de sociedades tradicional e tecnológica. Portanto induzindo ao
leitor, creio eu, a considerar que a noção de "cultura da pobreza" está
de algum modo amparando a caracterização da sociedade tradicional em sua defasagem perante o
desenvolvimento tecnológico. Pois a teoria de Lewis, na ênfase de Marsal,
implica opor “cultura da pobreza” como uma série de requisitos sociais
próprios, e mero empobrecimento verificável nas situações históricas precisas como guerras ou depressão econômica circunstancial ocorrendo contudo na
sociedade europeia onde a rubrica não seria aplicável.
Entre as
características da "cultura da pobreza" não veríamos portanto
qualquer associação grupal para romper com a pobreza – quando isso acontece,
deixam os sujeitos de pertencerem a essa subcultura e podem ser considerados
participando do “processo social”. Entre outros citados da "cultura da pobreza" temos os itens:
alcoolismo, violência física, vida sexual precoce, machismo, matricentrismo,
autoritarismo, falta de sentido do futuro, falta de privacidade, alienação em
relação aos valores estatais-nacionais.
Este último
item realmente torna independente o tema em relação ao que se segue, é verdade, mas de um
modo geral vindo apresentada a oposição de sociedades tradicional e
tecnológico, é conceituada como uma teoria da “mudança social”, escalonada em
três etapas, cabendo uma característica “de transição” entre as duas
mencionadas como tradicional-rural e industrial-urbana. E também se conceitua
como uma teoria do desenvolvimento econômico.
Seria por
isso especialmente que a teoria aparece imbricada ao problema de interpretar a
realidade do terceiro mundo “subdesenvolvido”.
Marsal não
deixa de notar que houve a princípio hesitação em aplicar diretamente o
conceito de "sociedade tradicional" ao mundo “subdesenvolvido” -
designação obviamente econômica, contrariamente aquela que é cultural. Mas de fato ele estabelece que foi a opção que
predominou, posto que o outro problema, o de explicar a passagem ou transição,
foi dominado na sociologia pela noção de “modernização” - a qual se ajustaria
bastante bem ao desenvolvimento como processo, tanto quanto, poderíamos
inferir, a uma inteligibilidade análoga à passagem da situação de subcultura à
de integração ao “processo social”. Aqui portanto, o que pode se
desenvolver já não é mais a cultura primitiva tal qual era em si, mas os
contextos de nações pós-coloniais já integrados ao capitalismo, no entanto não
como protagonistas da produção e ciência, mas apenas receptores das europeia/ estadunidenses (desenvolvida). O terceiro mundo teria portanto o fenômeno da pobreza conspícua, inversamente ao primeiro em que a expressão "consumação conspícua" foi desenvolvida por Weblen para caracterizar a situação da prosperidade.
O problema que
mencionamos foi, como muito bem esclarece Marsal, o da teoria da mudança do
tradicional para o tecnológico apresentar uma noção de transição que de algum
modo atendesse requisitos muito irredutíveis e plurais, tantos quanto se podem
considerar pelo fato de haver inúmeras situações sociais “tradicionais” como
tribos, sociedades gentílicas, de pastoreio, etc., e por outro lado, não se
poder concordar que a sociedade tecnológica ou desenvolvida não mais sofrerá
mudanças.
Pelo
contrário, já se pensava então que se ela vinha sendo sinônimo de
"sociedade industrial", essa atribuição já se estava ultrapassando
por referenciais propostos em termos de "sociedade de massas", com novas
características, ou também pela noção de "sociedade pós-industrial" - tendo se popularizado "sociedade de consumo", poderíamos ajuntar.
Hoje podemos notar que a aposta na transição do eixo produtivo para os serviços
ao invés da indústria, na proposta do "pós-industrial" , foi precipitada, não capta nada do
fenômeno real que veio a ser a industrialização universalizar-se em bases de
mecanização revolucionária em relação ao que até aí se conhecia. Mas “sociedade de massas” provou-se uma pista hoje aproveitável plenamente.
Assim, o quadro
amplo de diferenças entre os dois tipos de sociedade, tradicional e
tecnológica, disposto por Marsal, fica de algum modo associado ao
subdesenvolvimento e desenvolvimento, e mais à frente do seu texto isso é
confirmado. Pois quando se trata de comentar algo sobre a própria "sociologia do
terceiro mundo", a ciência social que coalesceu nos países assim designáveis,
Marsal afirma que não obstante pretender-se original e crítica da sociologia do
primeiro mundo, integrou cabalmente a filosofia da história do
desenvolvimentismo, que é o modelo da mudança em três etapas, e com uma ênfase
demasiada numa concepção cientificista restritiva de todo outro valor humano.
Ou seja, importou sem tergiversar a dicotomia de tradicional e tecnológico - a meu ver, para instrumentar o que seria o seu processo desenvolvimentista a partir de agência local dirigista, considerada modernizadora, o que inicialmente vimos como processo secular de alienação da heterogeneidade local.
O que Rocher
salientou a propósito do desacordo de Oscar Lewis com esse modelo dicotômico
relaciona-se ao que Marsal especificou em termos dos problemas não resolvidos
imediatamente pela teoria.
Rocher
especifica que a designação dessa oposição de tradicional e tecnológico é a que
se generalizou não obstante o fato de que designações alternativas foram usadas
com o mesmo sentido, e por vezes até por teóricos que se destacaram na
caracterização da dicotomia, como Robert Redfield que utilizou a terminologia
de “folk society” para o contrário de “sociedade urbana”.
Aqui é
importante notar que o termo “folk” é usado em várias acepções além desta, e em
estudos culturais é muito oportuno para designar apenas a produção cultural
local além da “letrada” oficial -
portanto, produção que pode ser muito heterogênea, não significando
necessariamente que o pesquisador esteja orientado pela concepção unificante do
“tradicional”.
Redfield, que utilizou a concepção do tradicional,
baseou-se amplamente em seu estudo sobre a cidade mexicana de Tepoztlan, e a
esta mesma cidade Lewis retornou vinte anos depois com o objetivo de checar os
resultados de Redfield. Lewis realizou a descrição de uma realidade
completamente diferente da que Redfield documentara.
Na impressão
de Redfield, a cidadezinha mexicana era a imagem de solidez imutável e
integração perfeita das instituições – fator típico do “tradicional”, ainda que
por outro lado isso signifique apenas que a rejeição a inovação vem da
precariedade dos recursos disponíveis. Não se conhece outro modo de defesa e
conservação, teme-se aventurar. A isso, Lewis contrapôs
mostrando que havia, no entanto, importantes fontes de conflito e
tensão. Redfield replicou que seu modelo não pretendera ser o único, e que uma
sociedade pode e deve ser estudada sob várias perspectivas, esperando-se assim
resultados igualmente variados.
Mas o cerne
do problema é haver ou não uma realidade social “tradicional” nesse sentido de
uma sociedade pensável sem mudança e conflito interno, fatores não de todo
idílicos se lembrarmos o que os ampara, o atraso anti-desenvolvimentista.
Rocher realiza
de fato uma longa lista de características das duas sociedades, tradicional e
tecnológica, ponto por ponto de acordo com o quadro apresentado por Marsal a propósito da mesma dicotomia. Mas
enquanto este estabelece um quadro comparativo claro, com as características
contrastantes lado a lado assim como a teoria funcionalista definiu, aquele destaca por um lado a facilidade de se listar
os traços da sociedade tradicional, e por outro lado a dificuldade de se fazer
o mesmo com a sociedade tecnológica por ser multifacetada em vários aspectos.
Como vimos,
ambos enfatizam que a dicotomia não é um passe-partout e que temos o direito de
questioná-la. Mas não devemos pensar que Rocher se diferencie de Marsal quanto
ao modo de destacá-la na condição de um referencial crucial da sociologia
contemporânea. Assim de um modo geral o quadro de Marsal pode ser utilizado
como um esquema do que Rocher desenvolve textualmente.
Conforme
esse esquema comum, “tradicionais” são sociedades em que a estratificação é
basicamente o parentesco e a idade, há um sistema único e homogêneo de valores
como uma mentalidade mítica, fechamento territorial com inimizade ao elemento
estranho, resistência a mudanças quaisquer.
Especialmente
é notável a coincidência das duas caracterizações, de Marsal e Rocher, quanto
ao aspecto da economia. Sendo a de sociedades tradicionais muito rudimentar e
de subsistência, por um lado ela não se diferencia do sistema social. Mas também o o “homo economicus” é típico unicamente da sociedade
industrial ou tecnológica em que, inversamente à tradicional, a economia é especializada em relação a tudo
mais. Mesmo que o espírito da empresa e o princípio hedonista de comportamento
imperem, anula toda mentalidade mítica tradicional, e sendo a sociedade tecnológica baseada no eixo
mesmo da produção. Marsal informa que o essencial do quadro fornecido está
referenciado de Germani.
O que
precisamos destacar aqui é primeiro, que essas características nos colocam a
princípio uma mudança importante na teoria social, que o prestígio de autores
consagrados, como Marx e Weber, e por outro lado Pareto, não permitem
geralmente que seja demarcado. O fator em destaque é o papel da economia. Ela
não é mais o que estrutura a própria tarefa sociológica a partir de uma
definição abrangente do fenômeno social humano como progresso ou civilização.
Ela se torna
um dos aspectos da descrição quando se trata da oposição de tradicional e
tecnológico, mas quando se trata da sociologia como um todo na acepção dos
resultados em termos de obras, oriundos de uma frente de orientação conspícua
como o funcionalismo norte-americano por exemplo, vemos que ela não integra
constitutivamente a própria noção de sociedade.
Parsons é um
exemplo nesse sentido, pois os quatro contextos ou sistemas em que ele enquadra
todo fenômeno de interesse em humanities (ciências humanas), sendo o "biológico", o "psíquico", o "social" e o propriamente "humano" (antropológico), não
há uma preminência da economia como poderíamos discernir em grandes teorias
como as de Marx e Weber, nas quais não podemos pensar as humanities sem a diferenciação
fundamental do primitivo e do civilizado na acepção do moderno-ocidental
como industrial: trabalho assalariado ou racionalidade empresarial.
Rocher o
tangencia ao notar que o Marx original não poderia ser aplicado ao contexto de
características da sociedade tradicional, mas ainda assim considera Marx válido
porque por um lado, a economia é o eixo da sociedade moderna ou tecnológica, e
por outro lado entendemos que Marx, dominado pela visão desta, tenha se
precipitado na universalização do que somente a ela pertence, ainda que ao modo dialético da defasagem.
Ora, a mesma limitação teórica de Marx é a de Weber. Sabemos hoje que a Economia (como ciência) primeiro
caracterizou um estado de coisas “liberal” como o que Adam Smith podia
considerar, mas já pela altura dos inícios do século XX, a Economia falava em
“capitalismo financeiro” ou monopolista, e ninguém já acreditava no
liberalismo de Smith ou na “livre empresa”, livre iniciativa, etc.
Mas como Weber só podia pensar o
capitalismo em termos de “racionalidade empresarial”, o que para ele era
sinônimo de livre iniciativa e consequentemente de agente individual do capital
– do mesmo modo que Marx – ele não pode, ainda que estivesse na presença
mesma do fenômeno, ser o reconceituador da economia. Não pode chegar à noção de
capitalismo monopolista. Ficou na ambiguidade de por um lado a racionalidade
burocrática e por outro os entraves tradicionalistas a ela, que pelo aspecto
bom significava reação da sociedade ao avassalamento dos valores, mas pelo mau
significava, como um efeito colateral ou arcaísmo, a oligarquização do capital. Enquanto Marx operou a mesma ambiguidade na base da oposição entre capitalismo (provisório) e comunismo (futuro). Especialmente Rostovtzeff permite criticar Weber pelo fato de ter generalizado o livre curso de transações bancárias impessoais como restrito ao capitalismo industrial, quando na verdade são práticas há muito conhecidas na Antiguidade helenística.
A nossos
propósitos é importante nesse ponto tornar ao problema da imbricação de
psicologia e sociologia com vistas ao que estamos percebendo como o impulso
básico da ciência humana, que é a configuração do próprio Ocidente como um
estado colonialista de fato novo num âmbito tão vasto quanto a inteira humanidade conhecida
até aí, uma vez que integra o que antes se desconhecia como o continente americano.
Assim, é
óbvio que não pretendemos que o adulto da psicologia nova, estritamente o moderno-ocidental, é o correlato do ego
formado a princípio – porque como informa Wallon por exemplo, o ego só está consolidado
aos três anos de idade. Mas sim que essa consolidação demarca a trajetória de
um desenvolvimento psíquico que vai se completar na adolescência – como se pode
verificar também ser o caso em Piaget ou Freud. Mais tarde acrescentou-se uma
psicologia do adolescente em suas formas irredutíveis ainda, à maturidade plena
das capacidades se não psíquicas no sentido do intelecto, de personalidade e
desempenho social desincompatibilizado com certos aspectos de dependência
grupal.
O que temos
de notar portanto é que esse desenvolvimento psíquico é o mais básico fator de
diferenciação antropológica na ciência contemporânea, porque é óbvio que não se aceita em psicologia em geral que o "primitivo" apresente as
capacidades que se esperam de um desenvolvimento psíquico a partir do ego cujo modelo é o adulto científico-industrial-parlamentar do ocidente moderno. Assim quanto mais se descobria com o funcionalismo que as sociedades são culturalmente autônomas, menos isso impedia a classificação de primitivo e civilizado, porque do lado deste ficava apenas o conhecimento científico e a produção industrial. A falácia é hoje evidente, uma vez que formas de conhecimento ou de economia são os componentes da autonomia da sociedade em questão. Assim a ciência se coloca a si mesma como o fator opositivo, supondo também que é a instrumentação da produção industrial, sendo porém ela que enuncia a oposição. Mesmo que pareça muito nítido a relação de produção industrial e cientificidade, o fato é que o regime capitalista é mais que apenas a prosperidade nacional, caso em que ele não seria parâmetro da dicotomia primitivo-civilizado. Ele significa o status de potência, assim não depende da ciência mas do imperialismo.
O próprio Weber ao tratar a racionalidade como vimos em termos do fator básico só do capitalismo ou livre empresa, atrelou a isso uma teoria da ruptura racional a partir do individualismo protestante. Está claro que desde a psicologia nova, o indivíduo não é um “para si” como para Hegel e Weber, mas o referencial de capacidades específicas, de atuações possíveis. Mas a reserva da egoidade ao mesmo tempo como desenvolvimento psíquico e social permaneceu incólume desde o princípio da modernidade e pode assim demarcar o que é básico ao pensamento moderno.
O próprio Weber ao tratar a racionalidade como vimos em termos do fator básico só do capitalismo ou livre empresa, atrelou a isso uma teoria da ruptura racional a partir do individualismo protestante. Está claro que desde a psicologia nova, o indivíduo não é um “para si” como para Hegel e Weber, mas o referencial de capacidades específicas, de atuações possíveis. Mas a reserva da egoidade ao mesmo tempo como desenvolvimento psíquico e social permaneceu incólume desde o princípio da modernidade e pode assim demarcar o que é básico ao pensamento moderno.
Aqui
precisamos então indagar da relação desse referencial quando se trata não mais
de comunidade e sociedade – gemeinschaft e geselshaft, como se generalizaram os
termos – mas sim de sociedades tradicional e tecnológica. Sem qualquer dúvida,
todos os requisitos da gemeinshaft foram transportados para a definir a sociedade
tradicional.
Ora, se não
parece haver um nexo imediatamente apreensível, por um lado podemos notar que
Weber continuou um poderoso impulso no cenário renovado, como por exemplo ele é
na teoria de Parsons. Mas por outro lado, vemos que é justamente quando já se
está em plena problemática do desenvolvimento numa abrangência geopolítica,
implicando a questão do terceiro mundo, que a temática da egoidade retorna
explicitada na configuração mesma da sociedade tecnológica ou desenvolvida como
uma sociedade do adulto.
É o que vemos
em Ives Lacoste, geógrafo que apresentou como uma característica do
subdesenvolvimento o fator de descontrole demográfico a partir da existência de
uma função – ou disfunção – econômica das crianças que ajudam os pais na lavoura. Ou seja, a sociedade
desenvolvida é aquela em que a população economicamente ativa é adulta. Assim o
trabalho é ele mesmo uma função do desenvolvimento social, porque a mão de obra
é especializada, vem de uma formação real das capacidades. Não se é solicitado
geralmente a integrar o mercado antes da formação da mão de obra atingir esse
nível – os filhos são sustentados pelos pais até formarem-se na universidade ou
obterem algo equivalente.
Ao contrário,
a família camponesa tem muitos filhos porque eles são requisitados desde pequenos para atuar na
produção agrícola, são necessários para completar o número de braços requeridos
para a produção familiar.
A sociedade
subdesenvolvida, segundo Lacoste, já não poderia mais ser confundida com o
não-industrializado, porque a industrialização ainda que na base do
“dependentismo” ao capital imperialista. já se verificava por muitos lugares.
Aqui Lacoste já se pronuncia não inteiramente na circunscrição da oposição de
tradicional e tecnológico no sentido de “industrial” . Como veio se
consolidando, a oposição transitou à terminologia de “subdesenvolvido” e
“desenvolvido”. Então esse traço de conter uma população economicamente ativa
não adulta seria mais relevante à contextualização do subdesenvolvimento.
Lacoste mostra
que no terceiro mundo isso é característico no campo – onde, como vimos, a família pobre tem muitos filhos para que
eles ajudem desde muito cedo na lavoura, ao inverso de apenas ser uma família grande em que porém todos são sustentados pelos pais até serem adultos, o que requisita soma alta dos recursos e correlatos fatores culturais, por isso a tendência racional (modernizante) é a redução da natalidade. Segundo Lacoste, a modernização é a satisfação de necessidades para contingente sempre maior da população, ou seja, incremento da longevidade, e isso induziria a explosão demográfica senão houvessem políticas de contenção da natalidade.
A industrialização do terceiro mundo
paradoxalmente não implica anulação da característica do tradicional- “rural”.
E por aí acarretando os demais traços de imobilismo e limite rudimentar dos
recursos, população majoritariamente "jovem", etc., característicos do tradicional.
Podemos
assim inferir, em todo caso, que essa população não tendo acesso a formação qualquer,
não chega a um patamar de performance compatível com o parâmetro do adulto
pertinente ao mundo desenvolvido. A classificação geopolítica do desenvolvimento abrange atualmente o perfil
etário populacional, com a associação entre países jovens e subdesenvolvimento,
e países de população envelhecida e
desenvolvimento.
O conceito de
ciclo etário se estabilizou, de modo que se tornou conceituado o processo do
envelhecimento da população do país como fator do que já constatamos ter sido
acrescentado na teoria social, a noção de transição, de passagem do
subdesenvolvido ao desenvolvido como “modernização”. Lacoste pensava assim que
um recurso da modernização seria coibir o trabalho infantil, especificamente na
lavoura. Os pais pobres reduziriam automaticamente a prole.
O controle de
natalidade seria favorecido, num quadro mundial em que vários problemas
relativos ao desenvolvimento tem na explosão demográfica um agravante, como o problema da disseminação de doenças por incremento da circulação de pessoas devido aos novos meios de transporte (avião, automóvel, navios, etc.).
Mas se
contrastamos a realidade de antes dos anos noventa com a atual, vemos que a
quantidade de pesquisa relacionada a essa noção se tornou confrontada pela
realidade histórica de um novo recorte geopolítico, no qual a concepção de
países em desenvolvimento foi anulado.
O conflito
de Leste e Oeste, URSS e USA, foi superado, emergindo o conflito Norte/Sul,
totalmente articulado como confronto de países subdesenvolvidos ao Sul e
desenvolvidos ao Norte. A invalidação do conceito de passagem ou transição ao
desenvolvimento foi real, e devido a ter emergido a consciência
do limite ecológico da exploração industrial e modo de vida moderno. Assim os
países subdesenvolvidos não podem por razões meramente naturais, aceder ao critério de consumo energético que distingue a sociedade tecnológica ou
desenvolvida.
Além disso,
uma diferenciação do nível etário se torna função do próprio capitalismo, não
do contrário dele. Enquanto nos países "globalizados", isto é, como
agora se designa a penetração das empresas, especialmente de fábricas, multinacionais no terceiro mundo, o
uso do trabalho infantil ou adolescente é requisitado pelas próprias
multinacionais, com fomento de preconceito ao idoso, os países desenvolvidos se tornam sempre mais referenciais da
população longeva.
Isto que
agora é visível como a interdependência dos estados de coisas nos dois quadros
sociais, porém é uma constante histórica, e o que temos verificado é a
estranheza de não ser equacionada na teoria social até agora. Como vimos, o que se fazia era conceituar estados de coisas estanques nas sociedades colonizadas e colonizadoras.
A ingerência
histórica dos países imperialistas sobre a economia do terceiro mundo é causa
de sua não-industrialização independente mais avançada em muitos cenários, mas até hoje não
era tematizável a imbricação de história e sociologia, senão para efeitos de
dominação da história pelos critérios de evolução social sociológica.
Uma vez que
estamos por demais envolvidos com a emergência desse novo estado de coisas, tão
radicalmente contrastante com o rumo da pesquisa e pensamento social que vinha
então se consolidando aos hemisférios Norte e Sul, creio ser muito oportuno tentar
apreender o modo como coalesceu o conceito mesmo de terceiro mundo a partir de
um núcleo inteligível cujo correlato mais básico é a noção de defasagem e de
atraso histórico.
A designação numérica do "terceiro" apenas sobrepõe a realidade do subdesenvolvimento, hoje associada ao Sul. O primeiro mundo sendo o capitalismo desenvolvido, e o segundo o comunista, que atualmente se restringe predominantemente a China e Cuba, mas até os anos noventa abrangia a vasta zona de influência da URSS (Russia comunista).
===
Como notou John Rex, há um
elemento construtor do parâmetro sócio-evolucionista subjacente à dicotomia de
primitivo, simples, tradicional ou rural por um lado, e civilizado, complexo, tecnológico ou
industrial, por outro lado, que ao mesmo tempo é alicerce do funcionalismo.
Trata-se do critério biológico de adaptação.
Na medida que
não pode estar esse elemento inteiramente ausente em qualquer construção do
conceito de modernidade ou desenvolvimento, por ser um conceito de evolução humana,
é o que nós poderíamos notar como mais amplamente determinante da teoria social
enquanto uma tarefa de auto-compreensão do Ocidente na qualidade
inevitavelmente “para si” de agente histórico da “modernidade” psico-social,
humana. O ego ocidental não se resolve senão contraditoriamente entre o
abandono de uma concepção idealista de Si como originário, e a manutenção de uma identidade
única na História.
Ou seja, o
positivismo como o primeiro cenário biologista da teoria social, não foi de
fato ultrapassado apenas porque a biologia tornou-se menos determinista do que
na era de Darwin anterior à genética. Muita coisa mudou na teoria social a partir da recusa do
círculo de Weber em diante, de reduzi-la à ciência da natureza, mas além do
caráter explícito dessa recusa pós-positivista, o funcionalismo dependeu
inteiramente da manutenção do comparativismo, método calcado na adaptação como
o correlato do termo privilegiado da comparação do menos ao mais adaptado, do menos ao mais desenvolvido.
Se o ocidente
é o telos ( em grego, o objetivo final) de uma humanidade unificada
apenas sob essa "teleologia" ( trajetória pré-estabelecida rumo a um
objetivo definido ), foi a noção de adaptação que o estabeleceu nesse status, e
precisou ser demonstrada a condição de adaptado ou melhor adaptado como a do
ocidente industrial.
A ciência ocidental
se tornou um outro aspecto da caracterização do limiar do adulto - aquele que
distingue o sócio-evolucionismo de Piaget, para quem o “primitivo” estaria na
fase das operações concretas em que no ocidente estão as crianças de sete a
oito anos, isto é, não acede o primitivo à capacidade plena das operações
formais que são as que embasam a lógica e as matemáticas, e por meio delas, as
ciências.
É
interessante que em Piaget a biologia já não seja um determinismo adaptativo
tão fundamental quanto ela se conserva no funcionalismo, como se pode constatar
pelos comentários de Rex e Rocher contrastado aos textos piagetianos. E se o funcionalismo tanto quanto o
estruturalismo piagetiano recusariam veementemente serem assimilados a Comte,
que pioneiramente lançou a concepção da evolução humana em estágios (religioso, metafísico e científico) tal que o
científico ocidental seria o final, com Spencer se encarregando de assimilar o
final ao mais adaptado, um e outro conservam contudo os aspectos de articulação
do evolucionismo sociológico comteano.
Vimos já que até
agora esse não foi um caminho abandonado do pensamento social, de todo. Mas
como ele se tornou tão enraizado, a ponto de uma sociologia do terceiro mundo
não ter de modo algum começado pelo questionamento do seu parâmetro? Ou seja, como pode ter se importado a teoria sociológica que abstrai o fato evidente do capitalismo ou sistema industrial ser Colonialismo/ Imperialismo, naquela porção mesma em que não há justificativa do discurso como de pseudo-legitimação do agente, uma vez que se trata da região dominada, reprimida, pelo processo "desenvolvimentista"?
Como pode ter havido uma concepção do desenvolvimento local fazendo-se abstração de que para repetir ao Sul o processo ao Norte, seria necessário haver região de domínio imperialista além do próprio terceiro mundo, para este predar? E hoje, quando o conceito de desenvolvimento não mais admite transição real, o que se opera são formas de dominação imperialista total.
Como pode ter havido uma concepção do desenvolvimento local fazendo-se abstração de que para repetir ao Sul o processo ao Norte, seria necessário haver região de domínio imperialista além do próprio terceiro mundo, para este predar? E hoje, quando o conceito de desenvolvimento não mais admite transição real, o que se opera são formas de dominação imperialista total.
Sobre a
adaptação assim como importante ao funcionalismo, a ampliação do questionamento
não implica uma crítica em nível de discurso. Por exemplo, sobre a sociedade
tradicional, Rocher salientou o traço de que nela a “bisbilhotice” (
“commeráge” ) tem o mesmo papel que na sociedade tecnológica teria a
comunicação de massas (“la presse écrite ou parlée”) – sem notar que não
há uma justificativa para que uma coisa e outra não sejam a mesma ação, quando não se trata da notícia de interesse público, mas da propagação de fatos da vida privada de pessoas famosas.
Como a ação
está inscrita num meio de demais ações, ela automaticamente surge como
irredutível. Assim a “bisbilhotice” primitiva tem seu relevo como quebra da
monotonia do meio conservador tradicional, com a qual a bisbilhotice rompe na
qualidade de um fator de humor e novidade, tanto quanto de imaginação, esse
meio por outro lado sendo descrito como de ignorância da ciência ou, se o
primitivo já foi contatado pela colonização, de ostensivo desprezo ou até ódio pela ciência como
Rocher referencia muitas vezes enfatizado por Levi-Strauss.
Traço
frontalmente oposto ao da sociedade industrial, onde a ciência é extremamente
valorizada em função da racionalidade como liame intrínseco – também
ao contrário do pensamento mítico do primitivo, onde supõe-se que não há explicação mas
somente narração (“la mythologie tient lieu tout à la fois de sciences naturelles,
d'histoire e de science social”).
Assim a
“bisbilhotice” primitiva é diagnosticada como função de controle social. Mas a
caracterização da sociedade industrial não tem um item especificado para a
função da comunicação de massas. Pois na sociedade industrial há uma função
organizada da novidade, nessa sociedade traço intrínseco é estar sempre em
mudança, sempre em progresso, e o valor dos líderes, o cientista, o
administrador ou o político (“l'homme de science, l'administrateur, l'homme politique”)
é atribuído à luz do progresso para o qual eles contribuem em seus domínios de
atividade.
Rocher já
registra, como vimos, a preocupação dos sociólogos à época da produção do seu estudo – o
copyright da edição francesa é de 1968 – em inovar sobre o conceito de mudança
social ao ponto de uma teoria da sociedade atual que já não estaria totalmente
apreensível por aquela produzida antes tendo por visibilidade a sociedade
industrial, cujos albores datam do século XIX. A sociedade industrial estaria evoluindo
perceptivelmente ( “en train d'evoluer
sous nos yeux”), e até por isso o próprio Rocher utiliza a expressão
“sociedade tecnológica” ao invés de “industrial”.
Mas como
precipitadamente aceitou a designação “pós-industrial” para o novo cenário,
para ele o “pós-industrial” como este novo cenário entra como novo sub-tipo,
além do designado “industrial”, ambos para um mesmo universo social, o da
“sociedade tecnológica”.
Atualmente nós
não consideramos pertinente essa concepção, pois sabemos que a transformação
informática e “internacionalização da economia” são os dois aspectos decisivos
tais que não mais podemos considerar a tarefa teórica de apreensão do novo como
uma mera veleidade – tal como alguns na época ainda podiam pensar, taxando de
exagerados os que a ostentavam. Por outro lado, historicamente o processo continua estritamente o mesmo - imperialismo, impedimento da independência econômico-cultural e mesmo tecnológica ao Sul, para disponibilização do mercado em função da produção-civilização do Norte.
Mas uma vez que
compreendemos ter havido uma ruptura histórica na altura dos anos
oitenta-noventa, e se são aqueles dois os aspectos decisivos, é claro que eles
são oriundos da indústria e implicam transformação do fenômeno industrial – não
o deslocamento do eixo da produção ("secundário") para outro setor, o dos serviços
(“terciário”), como já acentuamos (sendo o "primário" o setor agrícola).
A União
Europeia, por exemplo, como um fator histórico de peso, tem sido estudada como
uma transformação industrial – ver sobre isso Wilson Canno ("A nova
des-ordem internacional"). É um novo tipo de “protecionismo”. Os blocos
econômicos são consequência da economia de empresas “multinacionais”, posto que
superam seus ativos aquele de um só país - ou o reflexo dos interesses conjuntos dos monopólios que tem sede nos países dos blocos, como na Europa. A “toyotização” é expansão da própria
fábrica em nível internacional – tal que pedaços diferentes de um mesmo produto
são feitos em lugares diferentes ao redor do mundo, conforme as condições mais
vantajosas. Tudo isso é fenômeno tecno-industrial.
O Brasil é
exemplo: a transformação conspícua recente foi e está sendo o sucateamento das
“estatais” para total industrialização local - somente por “multinacionais” e
grupos oligárquicos associados ao capital “central” (dos países desenvolvidos,
sob regime de “neoliberalismo econômico”). Conforme Canno não se justifica o argumento de que a tecnologia local seria inviável, defendendo ele o programa informático nacional "cobra" como inteiramente proveitoso, tendo sido porém o modelo internacional adotado. Já Aron informava nos anos oitenta que os franceses construíram seu programa nacional assim que ficou patente o avanço da tecnologia pela IBM, etc.
As condições de recepção do capital multinacional são as mais penosas - isenção de impostos, liberação de somas altíssimas em recursos para fomentar as instalações da fábrica; repressão na cultura para que possa haver barateza da mão-de-obra sem consciência dos direitos civis; repressão estatal, com desvirtuamento das funções de segurança, contra a consciência caso coalesça ou se perpetue; submissão aos modelos inferiorizantes da condição local e desfavorecimento da empresa nacional, todo tipo de facilitação como liberação de localidades, inexistência de proteção ecológica, obstáculo a políticas anti-cartel, etc. - conforme se sabe amplamente mas está bem documentado em Radiografia de um modelo, de Werneck Sodré e muitos estudos que já tornaram o imperialismo monopolista um senso-comum. A transição à "globalização" desde os anos dois mil não muda muito esse quadro, exceto pela desnacionalização dos setores básicos, e consequentemente pela maior dominação do imperialismo, especialmente sobre a cultura.
As condições de recepção do capital multinacional são as mais penosas - isenção de impostos, liberação de somas altíssimas em recursos para fomentar as instalações da fábrica; repressão na cultura para que possa haver barateza da mão-de-obra sem consciência dos direitos civis; repressão estatal, com desvirtuamento das funções de segurança, contra a consciência caso coalesça ou se perpetue; submissão aos modelos inferiorizantes da condição local e desfavorecimento da empresa nacional, todo tipo de facilitação como liberação de localidades, inexistência de proteção ecológica, obstáculo a políticas anti-cartel, etc. - conforme se sabe amplamente mas está bem documentado em Radiografia de um modelo, de Werneck Sodré e muitos estudos que já tornaram o imperialismo monopolista um senso-comum. A transição à "globalização" desde os anos dois mil não muda muito esse quadro, exceto pela desnacionalização dos setores básicos, e consequentemente pela maior dominação do imperialismo, especialmente sobre a cultura.
Mas com relação ao cenário de época da
teoria social que estamos estudando, vemos que Rocher por um lado ilustra,
quando se trata de características que teriam a ver com o novo sub-tipo, a
ambiguidade de um momento em que a transformação decisiva ainda não havia se
estabilizado. Assim, mesmo quando ressalta itens importantes não os avalia com
a pertinência que hoje a eles concederíamos. Por outro lado se torna muito mais
relevante ao tematizar certos aspectos então bem estabelecidos quanto à
“sociedade industrial” enquanto exemplares do que embasava o discurso da
própria ciência social da época.
A apreensão
do novo aparece portanto como um limite a esse discurso – tal que quando se
trata ao invés da teoria social, de historiadores que lidavam apenas com a
cobertura do efetivo como Claude Julien, David Halberstam e Maurice Dobb, muito
mais parecidos com o nosso situamento atual se verificam.
A comunicação
de massas entra como um dos itens do que seria o “pós-industrial” em Rocher,
além de, naturalmente, a importância do setor terciário (serviços). Os outros
itens são apenas “civilização do lazer” , “importância da instrução”, “hordas
(foulles) anônimas", e em termos de
estruturas políticas, “movimentos sociais e participação”.
Aqui algo surpreendente é a contradição que
Rocher salienta estar havendo entre estes dois últimos contextos. Pelo primeiro
("movimentos sociais"), as estruturas políticas não portam mais sobre grupos
identitários reconhecíveis como por exemplo classes sociais ou associações
voluntárias, mas sobre massas anônimas integrando apenas grandes organizações e
movimentos, cujas chances de engajamento subjetivo são pois apenas a partir da
posição isolada dos indivíduos.
Mas se pelo
segundo item ("participação") tal tendência é invertida, pela organização de
grupos em torno de causas sociais determinadas como de exploração ou
preconceito de raça e status. Rocher caracteriza tais movimentos de
participação como contrários às regras de jogo da democracia. Seriam causas
que, na medida que protagonizadas por camadas sociais longamente alienadas e
pouco instruídas, facilmente se constatam identificadas a ideologias totalitárias.
O item
“comunicação de massas” está apresentado sem conexão referenciável ao que dos anos
setenta em diante podemos observar como literatura produzida sob a rubrica
“Sociologia da comunicação em massa”, por vezes expressa pela variante
“Sociologia da cultura em massa”, isto é, a mídia composta de imprensa, rádio,
cinema e televisão, atualmente o computador de internet. Posto que o fenômeno que Rocher trata assim está misturado
ao fator de expansão sem precedentes do mercado de informação – como por
exemplo, o editorial (publicação de livros).
O que lhe
permite julgar que a comunicação de massas é na sociedade pós-industrial apenas
o veículo novo da mesma característica da sociedade tecnológica que na
industrial vem tipificado pelo item “braçagem" (“brassage”) de ideias: convivência de valores e referenciais múltiplos, mutantes e controversos.
Inversamente, a rubrica
na sociologia mais recente surge a partir da demarcação de algo específico, não qualquer
material impresso, mas o big business de propaganda, jornal, rádio, revista e televisão, esta que em alguns países é capital particular e em
alguns países começou por ser exclusivamente estatal mas distribuído apenas a grupos oligárquicos.
Assim não é por editarmos um jornalzinho independente, ou por existir o “livro de bolso”, que somos referenciáveis como integrantes da “mídia” nesse sentido de um business, ou que qualquer mercadoria editorial o seja. Além disso, utiliza-se a partícula “em” para denotar que não é algo produzido pelas massas, mas para as massas (em nível de circulação de massas).
Assim não é por editarmos um jornalzinho independente, ou por existir o “livro de bolso”, que somos referenciáveis como integrantes da “mídia” nesse sentido de um business, ou que qualquer mercadoria editorial o seja. Além disso, utiliza-se a partícula “em” para denotar que não é algo produzido pelas massas, mas para as massas (em nível de circulação de massas).
Mesmo essa
rubrica da Sociologia transitou portanto antes da micro-informática, mas hoje o
tratamento conceitual do fenômeno, que teria de abrangê-la, já está conexo aos
novos parâmetros da teoria social, que estamos por examinar desde que já
enfatizamos que houve transformações importantes.
Algo sobre
essas transformações que já podemos notar é o que em Halberstam (“The powers
that be”) e Cl. Julien (“L'empire americaine”) se verifica como o que me parece a
tendência importante – aquela que demarca minhas próprias ocupações de
pesquisa.
Ou seja,
não se separa totalmente o problema “cultural” - conteúdos e discurso do business de mídia
– da questão “industrial” (atuação político-empresarial e imperativos tecnológicos).
Assim a mídia se torna integrante necessário do “capitalismo tardio” do mesmo
modo que quando estudamos o capitalismo do século XIX não podemos supor que a
tração a vapor ou o imperialismo não o são.
O capitalismo
tardio seria expressão máxima do capitalismo como ilegalismo e integração
despótica de força (militar-governamental) – ao contrário de “racionalidade” ou
de “democracia”.
Assim vemos
que a oposição de “tradicional” e “tecnológico” deixa de ter operacionalidade.
Pois grupos de força midiático foram descritos como de mentalidade
“tradicional” ( e não como grupos agindo apenas visando lucro financeiro) – ver
sobre isso especialmente em Halberstam o estudo sobre o “los angeles times”,
onde se enfatizou a mentalidade reducionista de todo social à identidade e
atuação do grupo genealógico de um setor da elite local (que consequentemente impediu o
quanto pode pela força a organização “moderna” da população, em sindicatos e
uniões trabalhistas, e por "partidos" democrático ou socialista).
E também
o estudo sobre a Time Magazine, onde se verifica a conexão da censura
midiática com o protestantismo (a propósito da revolução chinesa e depois do Vietnã). Ou sobre a BBC televisão, onde se constatou a ingerência da ideologia capitalista conforme também exigência de patrocinadores sobre opções dos profissionais contratados, coibindo-as ou sabotando-as.
Entre as várias denúncias importantes do ilegalismo midiático, o estudo de Halberstam é uma história da mudança social norte-americana, notadamente dos anos trinta aos setenta, em sua face político-governamental. Assim utilizando combinados esses referenciais da história efetiva, e também outros, considerei uma articulação mídia e Executivo como sendo construída desde princípios do século XX e bem estabilizada como sociologia do Poder norte-americano já desde meios daquele século.
Entre as várias denúncias importantes do ilegalismo midiático, o estudo de Halberstam é uma história da mudança social norte-americana, notadamente dos anos trinta aos setenta, em sua face político-governamental. Assim utilizando combinados esses referenciais da história efetiva, e também outros, considerei uma articulação mídia e Executivo como sendo construída desde princípios do século XX e bem estabilizada como sociologia do Poder norte-americano já desde meios daquele século.
O
grande-capitalismo midiático solapou a organização democrática na ênfase do
legislativo (congressos e senado), ao invés instaurando uma relação direta –
portanto autoritária ou propriamente “carismática” - presidente-massas. O poder
do grande-capital midiático de nomear candidatos, e portanto de controlar as
eleições, já estava configurado a partir do fato desse grande capital ser
oriundo dos clãs tradicionalistas que já faziam o papel da dominação
oligárquico-monopolista local, mas esse esquema conhecido de corrupção se
transforma significativamente a partir de que o presidente se torna personagem
produzido em todas as suas possibilidades de obter ressonância junto ao público,
pelas regras da fotogenia de câmera, e do apoio financeiro dos clãs.
Circularmente, esse “público” não é mais o eleitorado consciente, mas
apenas o “robô” capaz de recognição da fotogenia e performance televisiva.
Creio que se pode deduzir da leitura de Halberstam por exemplo, que a mídia
criou e destruiu a figura presidencial de Richard Nixon – conforme seus
interesses mutáveis no tempo em função da veleidade de Nixon manter a presidência, uma vez eleito, independente dos
clãs.
Além disso, desde os anos setenta já estava configurado o fenômeno de midiatização do real – nada que é mostrado pela mídia sendo feito é protagonizado por aqueles que realmente fazem, é apenas a mídia mostrando fazer, e isso principalmente com relação a eventos governamentais.
clãs.
Além disso, desde os anos setenta já estava configurado o fenômeno de midiatização do real – nada que é mostrado pela mídia sendo feito é protagonizado por aqueles que realmente fazem, é apenas a mídia mostrando fazer, e isso principalmente com relação a eventos governamentais.
É importante
notar que paralelamente, não encontramos na teoria historicamente importante
desde os anos setenta, real reflexão sobre a realidade do legislativo. A propaganda da economia neoliberal
solapando o Estado para conceder todo poder ao grande-capitalista, converge com
teorias como a de Clastres, Deleuze, e outros, que sempre referenciam abusivamente Estado apenas como “unidade” despótica do soberano. Quando na antropologia como demonstra Willems, todas as sociedades tem Estado por isso que tem leis como instituições públicas seccionáveis ideologicamente dos costumes sociais. O que por outro lado ficou como a ala que
aceitava discussão da questão da lei – entre Foucault, Derrida e as novas bases
da “teoria crítica” por exemplo – esta se apresenta compactada na sua feição jurídica,
isto é, como código instituído, ao invés daquilo que mais propriamente é na realidade da democracia, processos de negociação/interpretação representativa da heterogeneidade em devir.
Assim, à luz
da sobrevivência desse ora grande oculto, o legislativo, onde se trata antes das
formas legitimáveis da elaboração da lei, quando se trata de representação sem corrupção, porém, podemos entender porque o
capitalismo, se já parecia estar tão bem imperando até aí, precisou mudar tão
drasticamente as regras do jogo “keynesiano”. Evidentemente o legislativo tem um papel importante de atuação dos
direitos da cidadania, conforme tem sido minha posição a propósito. Nele devem
estar representados os interesses da heterogeneidade da população referencial
da constituição, não um grupo de privilégio decretando códigos conforme suas
concepções particulares, ao que se reduz a "administração" das grandes firmas a propósito do cotidiano da circulação de bens e serviços.
Após o
positivismo neocolonialista, a partir de inícios do século passado, realmente
emergiram forças de organização social importantes, cuja expressão se traduziu
nas instituições legislativas. Ver sobre isso por exemplo as citações de
Maurice Dobb (“Evolução do Capitalismo”) a propósito das comissões de inquérito
promovidas contra a violência aberta, brutalmente ilegal, dos
grandes-capitalistas sobre a população trabalhadora nos Estados Unidos dessa
época. Algo perfeitamente coerente com o que Halberstam mostrou serem as ações repressivas por parte dos clãs. Assim uma constante do capitalismo ressignificado como colonial-imperialismo, portanto remontando a quinhentos anos de vigência, pode ser definida. O capitalismo domina as instituições legais para distorcer o aparato da organização civil, porém quando a organização se mostra resistente o bastante para não permitir a distorção corrupta, então o capitalismo se lança ao ilegalismo brutal, cooptando as máfias do crime organizado, subornando as instituições legais, etc.
Mas até que
a tendência de visar o business de mídia na estruturação material do capitalismo se
consolidasse, como em Julien e Halberstam, o interregno da Sociologia da
comunicação em massa foi marcado pela limitação de “conteúdo”. A título de
exemplo, uma resenha das várias teorias que concorreram na definição da causa do "conteúdo", as quais tentavam definir a “mola” do fenômeno
midiático, exemplificaria, entre outras propostas: mera captação de audiência
visando lucro financeiro; ou adaptação funcional ao gosto do público; ou
circulação seletiva de materiais e tendências culturais; ou simplificação
universalista do conteúdo (apresentar tudo como imediatamente compreensível por
qualquer um, mesmo quando obviamente não seja); ou propagação da ideologia de um único grupo social dominante.
Jacques
Fauvet distinguiu a imprensa escrita responsável e informativa por um lado, e
mídia “intoxicante” sensacionalista e violenta, por outro lado. Isso é algo
importante, lembrando que Fauvet era então diretor do Le Monde, e tanto Julien
quanto Halbestam foram repórteres – especialmente Halberstam registrando a
censura a que suas observações foram submetidas quando cobria a guerra do
Vietnã. Fauvet considerava a cultura do livro o antídoto à mídia intoxicante.
Enquanto
ficou somente em nível de conteúdo, portanto, a crítica da mídia foi paralela à defesas da mídia – por exemplo, em Mario Faustino ou Linda Hutcheon – porque
não se distingua os dois fatos que Fauvet conceituou como diversos, nem se distinguia entre business de mídia e circulação qualquer de material impresso ou filmado, ou porque
em países como o Brasil a referência universitária não é abrangente o bastante
para tipificar a produção intelectual, e a imprensa atuou muitas vezes como
válvula de escape no emprego dos letrados. O que no entanto não é significativo do fenômeno assim como
o especificamos mais na atualidade.
Em contraste, houve a condenação
violenta da mídia pelo fator dos seus meros imperativos de captação sensível,
como expresso em MacLuham Pelo fato da mídia elétrica monopolizar o aparelho perceptivo ela seria um tóxico viciante, isolando a mente do contexto real circundante. Este seria um movimento posterior ao tipo de
rejeição radical antes levada a cabo por Adorno, no bojo da “escola crítica”
(Benjamin, Horkheimer, et alii), que focalizaram as relações sem
inteligibilidade, mesmo infantilizantes, da propaganda, reduzindo todo o contexto (de
conteúdo) da mídia a expressão do capitalismo dominante. Assim também notaram a interseção sistêmica do produto e da propaganda, pressupondo um estágio definível do capitalismo como mentalidade de massas e imperativo dos costumes sociais.
É preciso
notar que mesmo havendo as obras de Halberstam e Julien, que instituem as
formas estruturais que me parecem apropriadas do estudo do fenômeno, a meu ver este muda em
grande escala quando se trata da informatização e “internacionalização da
economia” ("globalização"), o que está ainda por ser estudado como
contexto que a meu ver é o de um neofascismo (info-midiático).
Assim posições
que hoje nos parecem mais ponderadas, tomadas contudo antes dos oitenta, são avaliáveis enquanto naquele contexto em
que o neofascismo ostensivo da "globalização" pós-soviética neoliberal não era ingrediente necessário. Posto que ainda se pensava em
termos de "modernização" como "desenvolvimento" possível na
margem.
Para
entender isso basta notar que na linha que vai da teoria crítica de Adorno a
Macluham, um contraponto mais ponderado seria o daqueles que almejaram
conceituar uma “mola” da mídia também por esse viés da construção de sua
“inteligibilidade”. Mas não reduzindo tudo à propaganda, viram na variação
motivacional dos programas algo real, sendo que nela haveria apenas um
denominador comum, o fato de sempre a mídia procurar reduzir cada coisa que
está sendo apresentada a um único referente significado que seria correlato
dela.
Mas só por
isso não teríamos correlato de dominação ideológica, e o problema das teorias
de então era que ao mesmo tempo que pudesse ser visível haver, podia-se ainda
assim pensar que não era o fator determinante, e sim apenas marginal, do
fenômeno, com exceção de Adorno. Portanto a mídia em si era sempre um fenômeno derivado e não
constitutivo da sociedade contemporânea.
Vemos
portanto que Rocher nos fornece uma boa visibilidade da história da Sociologia,
mas dentro de um referencial que precisamos examinar em suas defasagens às
transformações que referenciamos ser nossa tarefa apreender. Ora, Rocher
ilustra algo importante no rumo dessas transformações, ao incluir nos itens da
“sociedade industrial” (tecnológica), o fato dela ser “profissionalizada”. Uma
vez que se trata de uma sociedade cujo eixo é a produção econômica
(tecno-industrial), implica que as pessoas são referenciadas pelo cargo que
ocupam, sendo o cargo que determina o salário e não alguma qualidade “pessoal”
dos ocupantes do cargo.
Assim ser
profissionalizada é a característica de uma sociedade em que a estratificação
não é apenas “de classe”, mas, de modo correlato, de prestígio ocupacional.
Levantou-se por várias pesquisas feitas em países desenvolvidos diferentes, uma
surpreendente homogeneidade da “escala de prestígio das ocupações”.
A meu ver
esse tipo de pesquisa e principalmente a ênfase que os sociólogos lhe
atribuíram acompanha bem o que seria a transposição do funcionalismo ao que
desde que ele se radica nos USA passa a ser a perspectiva da unidade da
“sociedade”.
Como vimos,
já não se trata do funcionalismo alemão onde há por um lado o primitivo ou a
comunidade (gemeinschaft) como ausência de sociedade (geselshaft), ainda que se
preserve nesse novo momento funcionalista, a dicotomia das sociedades “tradicional” e “tecnológica” ( ou
industrial/moderno-ocidental). Inclusive, a crítica de Lewis a Redfield, que
examinamos acima, contrária a essa dicotomia do social salientava que ela apenas repetia a oposição da ausência
e presença de sociedade tal como se poderia constatar transitando desde o
rousseauísmo. E como vimos, contudo a própria teoria de Lewis mostra-se aproveitável para efeitos da mesma oposição entre o desenvolvido e a
desenvolver.
Mas agora o
importante a nossa perspectiva é notar que a unidade funcional da “sociedade”
foi se encaminhando nos rumos do que Parsons conceituava em termos de "estrutura
da ação social".
Assim vemos a influência de Durkheim, posto que ele qualificou a ocupação profissionalizada como o correlato da solidariedade orgânica característica da sociedade desenvolvida, contra o que designou sociedade mecânica, que integrava indivíduo ao papelsocial, da sociedade primitiva. Assim como Marx sugeriu a analogia do carneiro para a consciência pré-egológica, Durkheim considerou a solidariedade mecânica como o nível invertebrado do reino animal,posto que as funções seriam como uma fileira, seguindo-se fixamente porém sem integração inteligível, e a solidariedade orgânica como a dotação do sistema nervoso central que organiza as funções inteligivelmente, na escala da evolução biológica.
Já a estrutura da ação em Parsons se desenvolveu em torno do que seria a consecução de mapas mentais, num novo desdobramento da conexão que estamos tentando levantar a título de unidade metodológica profunda das ciências humanas enquanto paradigmas de época. Seria portanto um novo desdobramento da conexão da teoria social com a psicologia.
Assim vemos a influência de Durkheim, posto que ele qualificou a ocupação profissionalizada como o correlato da solidariedade orgânica característica da sociedade desenvolvida, contra o que designou sociedade mecânica, que integrava indivíduo ao papelsocial, da sociedade primitiva. Assim como Marx sugeriu a analogia do carneiro para a consciência pré-egológica, Durkheim considerou a solidariedade mecânica como o nível invertebrado do reino animal,posto que as funções seriam como uma fileira, seguindo-se fixamente porém sem integração inteligível, e a solidariedade orgânica como a dotação do sistema nervoso central que organiza as funções inteligivelmente, na escala da evolução biológica.
Já a estrutura da ação em Parsons se desenvolveu em torno do que seria a consecução de mapas mentais, num novo desdobramento da conexão que estamos tentando levantar a título de unidade metodológica profunda das ciências humanas enquanto paradigmas de época. Seria portanto um novo desdobramento da conexão da teoria social com a psicologia.
Theodore Abel
criticou Parsons por ter admitido reiteradamente essa unidade. Para Abel,
Parsons foi um sociólogo apenas, e não um teórico para além desse campo, como
poderíamos supor ser um filósofo. Mas o problema não está assim bem colocado.
Parsons referencia o gestaltismo em psicologia como o que está em convergência
com o seu paradigma em “The structure of social action”. E realmente o paradigma holista do funcionalismo é metodologicamente comum a ambos. A metodologia não foi considerada por Abel.
Como muitos viram, a releitura parsoniana de todo o passado da teoria social nesse estudo implicou que depois vários expoentes desse passado se tornaram referenciais de uma espécie de senso comum cuja definição encontraríamos nela. Especialmente se diz isso a propósito de Max Weber.
Como muitos viram, a releitura parsoniana de todo o passado da teoria social nesse estudo implicou que depois vários expoentes desse passado se tornaram referenciais de uma espécie de senso comum cuja definição encontraríamos nela. Especialmente se diz isso a propósito de Max Weber.
Mas o que
Parsons pretendeu com uma obra tão monumental foi a liquidação do positivismo, com a integração da teoria social pelo funcionalismo na nova chave da unidade do
social que ele mesmo estava criando.
Como
observou Rocher, a reputação de Parsons ficou sendo a de um sociólogo do
“estatismo” social, isto é, da unidade e imutabilidade de toda “sociedade”, tradicional ou tecnológica,
reconceituada como “sistema social”.
A meu ver
apreendemos o que o próprio Parsons estava referenciando ao informar este
paradigma como de todas as "humanities" a seu tempo, se por estatismo
entendermos o referencial de uma totalidade: tal que nenhum elemento se
compreende por si fora de sua integração no todo.
Assim não
basta sabermos que certa ação se cumpre em certa sociedade, mas precisamos ter
claro quais outras ações são possíveis para entendermos o limite do inteligível
nos termos da ação. É por isso também que Parsons acreditou, não obstante seu funcionalismo, ter reabilitado o
“comparativismo”, conspícuo positivismo, como base do sócio-evolucionismo em sentido forte, isto é,
como julgamento ajetivo do “evoluído” (melhor adaptado).
Rocher não
criticou essa posição de Parsons em relação às humanities, mas a supôs bastante
coerente com a teoria social parsoniana – de modo que o problema da gênese da
unidade maior, não paradigmático-sociológica mas da epistemologia das
"humanites" é que ficou por se entender. Ou Parsons se pensou a
partir da nova sociologia integrando o que nas "humanities" estava
disperso, ou pelo contrário, aplicando a nova epistemologia da integração em
trânsito nas "humanities" naquilo que até então era a dispersão dos
conceitos no campo restrito da sociologia.
Um dilema
semelhante se encontra em torno do tema da origem do funcionalismo. Alguns
pensam que da sociologia de Durkheim o funcionalismo se alastrou como método
para a antropologia social, enquanto há os que sustentam que Durkheim importou
na sociologia as inovações antropológico-funcionais pioneiras de Malinowski e
Radcliffe-Brown.
Na história da
sociologia funcionalista, vemos que a tipologia da ação havia sido conceituada
por Weber e Simmel para diferenciar a
sociedade moderno-ocidental como a única na história humana em que o tipo de
ação “racional” era ao mesmo tempo o ideal-típico de toda socialização
inerente. O racional neste caso significa apenas a ação ajustada ao objetivo,
sem ritual ou outras formas de justificativa “para si” – portanto,
não era por si só evolução em sentido adjetivo, e a teoria serviu ao contrário
a muitos “tradicionalistas” que viam neste tipo de racionalidade apenas
alienação dos valores.
Em Parsons não
subsiste uma tipologia, mas pelo contrário se procede uma distribuição das
áreas (contextos ou sub-sistemas) em que ações quaisquer são possíveis. Áreas
que já vimos como do biológico,
psíquico, social e cultural.
Uma vez que
estivesse assentado serem as áreas universais de todas as formações de
coletividades tal que de sua co-pertinência elas se consubstanciam em
sociedades propriamente, as ações que em cada sociedade se observam não são
“tipos”, como racional ou ritual, mas integradas como o observável dela.
Se por um lado
há uma associação meramente comportamental (subjetiva) do biológico e do
psíquico (personalidade), o agrupamento dos sujeitos se torna "sociedade" a
partir da associação propriamente socializante do social e do cultural, mas na
medida em que o social concretiza a "institucionalização" do que já está
possibilitado como cultural.
O social parsoniano é
um sistema composto pelos elementos seguintes: "papeis sociais" (modos de
pertença e participação subjetiva na sociedade), "coletividades" (grupos
institucionalizados como família, universidade, fábrica, etc.), "normas" (modelos
de ação), e "valores" (orientação do que é desejável em geral). Estes elementos
são amparados por funções relacionadas aos sub-sistemas de ação, conforme a
correlação: função de estabilidade normativa (valores/ sub-sistema cultural);
função de integração (normas/ sub-sistema social); função de perseguição de
fins (coletividades/ sub-sistema da personalidade); função de adaptação
(papeis/sub-sistema biológico).
Os elementos
do sub-sistema social são canais por onde a cultura (valores, ideais, símbolos)
passa. Por exemplo, como destacou Rocher, o valor cultural da justiça se
institucionaliza no papel do juiz, no aparelho judiciário e nas leis. Podemos
assim deduzir que a institucionalização transforma a cultura em socialização,
uma vez que a institucionalização concretiza o valor em práticas reais,
normativizantes/ normativizadas.
A
socialização é estrutura, esta definida por Parsons como “modelos
institucionalizados da cultura normativa”. Ou seja, o que Parsons define
como estrutura é uma totalidade em ato, a institucionalização que não é algo
único como um instinto de gregaridade aristotélico por exemplo, ou o instinto de
imitação de Gabriel Tarde, mas sim articulação de elementos sociais determinados,
concretos, conceituáveis.
As ações
descrevem o mapa mental que orienta cada agente social na sua auto-compreensão
atuante com sentido. O mapa pode ser orientador de sentido porque é o mesmo
para todos os agentes da mesma sociedade. Ele existe, portanto, mesmo que não
haja qualquer sociologia apta a reconstituí-lo.
Quando alguém
executa a ação de ir a uma loja comprar alguma coisa, os atendentes da loja tem
em mente a mesma norma da ação que orienta o comprador. Este receberá a
mercadoria dos atendentes após efetuar o pagamento requisitado a eles. Todos os
envolvidos na ação compartem um mesmo mapa mental da sua composição. É o mesmo
para todas as ações que podemos imaginar factíveis numa sociedade, as quais transcendem o aspecto puramente individual porque são ações em que participam várias pessoas.
Assim, como uma
epistemologia, temos o princípio pelo qual o mapa é arranjado de um modo que na
mente não há uma ação elementar, mas o todo social em que somente as ações vão
posicionar-se como dotadas de sentido. Esse é o mesmo princípio da psicologia
gestaltista: tudo é percepção, mas as leis da Gestalt, Forma ou Estrutura, como do percebido, são decorrentes
do fato genético da preminência desse Todo sobre as partes. Se somos capazes de
análise, de discernimento das partes, é algo em segunda instância, não o
estruturante básico da percepção. A música se torna o referencial exemplar,
pois se pensa, como Paul Guillaume esgrimindo contra o atomismo mental, que uma
música é um todo, nós não a lembramos por partes como o executado
pelos instrumentos particulares.
Assim,
Parsons pode ao mesmo tempo interpretar Weber como já tendo sido uma postulação
do mapa mental nessa acepção, ainda que somente a classificação das ações em
geral como racionais ou irracionais (rituais, sentimentais, etc.) não seja o mesmo que o próprio Parsons queria
operar.
A analogia
que visei é então entre o mapa mental e a homogeneidade da escala do prestígio
ocupacional. Essa escala ilustraria perfeitamente a nova tese funcionalista. Ora,
o comparativismo que teria de ser rejeitado para uma teoria não-positivista,
pelo contrário é reinjetado justamente porque se trata de totalidade e não de
conjunções aleatórias de ações possíveis. Se há um quadro sistemático dos
componentes que se ajustam como vimos acima, nele há espaço para uma hierarquia
“de controle da ação”.
Trata-se de
uma polaridade parsoniana entre o que é “rico em energia” e o que é “rico em
informação”. Ainda que Rocher tenha mantido o conceito do neo-evolucionismo
parsoniano na base do mais adaptado definido como o mais satisfatório, mais produtivo, mais
conforme ao potencial existente (“état
plus satisfaisant, plus productif, ou encore à um état qui correponde mieux aux
aptitudes latentes et aux enegies disponibles”), entendo mais do que se
trata pelo que à frente ele libera como quadro geral parsoniano da ação.
Na minha
interpretação do quadro de Rocher que sintetiza os componentes da teoria
parsoniana da ação, vemos que entre o “rico em energia” e o “rico em informação”,
este segundo é o parâmetro do neo-evolucionismo, na medida em que eles são
inversos. Numa verticalização sequencial (de cima para baixo) entre valores
(socialização), normas (direito), coletividades (política) e papeis (economia),
a riqueza em economia, posicionada junto ao quarto elemento, cresce na razão
inversa da riqueza em informação, posicionada junto ao primeiro elemento. A
série vai portanto como numa linearidade perfeita, da socialização à economia e
da economia à socialização, decrescendo a informação da socialização à
economia, e inversamente crescendo a energia, mas vice-versa se lermos da
economia à socialização.
Essa é uma
correlação bastante aproximável ao que se subentende da oposição de Durkheim
entre solidariedade mecânica (primitiva) e orgânica (civilizada/industrial). Ao contrário do que pode parecer, a
preensão total do sujeito pelo papel social desempenhado porém em função de sua
posição na economia resulta numa sociedade menos integrada do que ocorre
na industrialização, onde os papeis sociais não são redutores dos sujeitos, que
não são assim identificados por seus cargos, mas sua subjetividade se compreende pela integração das funções que na sociedade estão coordenadas inteligivelmente.
Não obstante Durkheim ser o marco do funcionalismo na sociologia, esse princípio é basicamente o mesmo que o de Spencer. A evolução é um processo de diferenciação e integração. A estrutura não-desenvolvida é internamente homogênea e suas partes não se juntam, enquanto a desenvolvida é heterogênea e coesa.
Não obstante Durkheim ser o marco do funcionalismo na sociologia, esse princípio é basicamente o mesmo que o de Spencer. A evolução é um processo de diferenciação e integração. A estrutura não-desenvolvida é internamente homogênea e suas partes não se juntam, enquanto a desenvolvida é heterogênea e coesa.
A
solidariedade mecânica primitiva conceituada em Durkheim é uma sociedade "segmentarizada",
composta por grupos que convivem lado a lado,
enquanto a solidariedade orgânica civilizada é uma sociedade administrativamente
e legislativamente "centralizada". Ou seja, ao contrário do suposto como tal puro fisiologismo da
economia primitiva, a civilização é uma socialização autônoma.
Rocher
amplia o comentário sobre o sócio-evolucionismo parsoniano ao notar que se
trata do critério de especialização. Se pudéssemos suspeitar, pelo comentário
anterior, que Parsons mais pretendeu que logrou superar nisso ao critério da crescente
divisão do trabalho de Durkheim, agora entendemos mais que realmente a
especialização evolutiva de funções e papeis não é redutível ao progresso
econômico. Mas inversamente ao que pressupõe Durkheim, hoje pensados mais podendo ser integrado ao progresso da intercomunicação cultural que decorre desde as Grandes Navegações, ao contrário do sócio-progressismo onde só há evolução na cultura "ocidental", hoje o Norte geopolítico.
Assim no
percurso parsoniano de crescimento da energia, direito e política estão direcionados da
socialização para o econômico, mas ao contrário quando o que cresce é a
informação. Com efeito, um exemplo de sociedade menos evoluída que a
moderno-ocidental seria a da Idade Média europeia, segundo Rocher, onde a coletividade religiosa era do mesmo modo a
política e a econômica (“la collectivité religieuse y est em même tempos une
collectivité politique et économique”), a igreja preenchendo ao mesmo tempo as
funções de integração, adaptação e perseguição de fins.
E
inversamente, a cultura na sociedade civilizada, complexa, é diversificada pela
multiplicação de estruturas concretas, coletividades e sub-coletividades (“la
culture de la société complexe est diversifiée par suite de la multiplication
des structures concrètes, des colletivités et sous-colletivités”).
Se minha
interpretação da hierarquia do controle está correta, Parsons acompanha
bastante bem o que atualmente é o critério de desenvolvimento: não
superioridade de armamentos ou econômico, mas a socialização como
“desenvolvimento humano” – ausência de pronunciada desigualdade de qualidade de
vida entre porções populacionais e igualitário acesso a bens e serviços dentro da mesma sociedade.
O que
obviamente não quer dizer “nivelamento” por baixo, mas o contrário,
desqualificação dos dispositivos de inferiorização social a um nível que impede
tratar a questão das minorias tal como vimos ainda em Rocher, posto que essa
questão é o fator chave na transformação que tem se designado “pós-moderna” da
teoria. Não se tratando de uma prerrogativa de status, mas de anulação dos dispositivos
de discriminação. Contudo, Rocher realmente antecipou problemas neste sentido
que ainda subsistem, pois nem sempre a política anti-discriminação tem sido
apenas isso, como demonstra Sorman ("Os novos bárbaros"), veleidades
criticáveis como as de Diopp, que pretendeu reduzir todas as culturas à africana, e outros contextos semelhantes.
Quanto a
Parsons é importante notar, como Rocher enfatizou, que ele pensa a mudança
social ou como inovações a serem absorvidas pela estrutura, ou como mudança de
estrutura. Ou seja, ele supõe assim estar integrando a mudança social num parâmetro funcionalista estático.
Haveria assim na análise do equilíbrio do sistema, ou seja, análise de sua resistência às tensões (“strains”) dinâmicas ou pelo contrário, seu movimento para transformar-se estruturalmente, o surgimento de um sub-sistema “paralelo” ao da estabilidade normativa quando este, ao invés de traduzir uma transformação estrutural em curso, investe a resistência às mudanças. Seria o “paralelo” um “sub-sistema de contestação” que pode ser expressamente revolucionário (movimentos guerrilheiros, anarquistas, extremistas, etc.) ou marginal (gangs, delinquência juvenil, associações negras, etc.) - conforme exemplificação de Rocher.
Haveria assim na análise do equilíbrio do sistema, ou seja, análise de sua resistência às tensões (“strains”) dinâmicas ou pelo contrário, seu movimento para transformar-se estruturalmente, o surgimento de um sub-sistema “paralelo” ao da estabilidade normativa quando este, ao invés de traduzir uma transformação estrutural em curso, investe a resistência às mudanças. Seria o “paralelo” um “sub-sistema de contestação” que pode ser expressamente revolucionário (movimentos guerrilheiros, anarquistas, extremistas, etc.) ou marginal (gangs, delinquência juvenil, associações negras, etc.) - conforme exemplificação de Rocher.
Na medida que a cibernética ou teoria
geral dos sistemas integrou principalmente a formalização matricial da
“transformação”, compreendemos que o funcionalismo atingiu com a sistematização
parsoniana um ponto alto a partir do que seria a superação do seu maior
problema, a impossibilidade de lidar com a mudança social.
Merton também
já o propõe a partir da diferenciação do latente e do manifesto nas funções,
com a mudança social podendo acarretar a conservação de funções que só
compreendemos se conhecemos o que foi manifestamente superado, e assim algo que
é função “estranha” atual na verdade apenas expressa necessidades de conservação latentes.
Mas a análise
parsoniana operando em nível de teoria dos sistemas permitira formalizar e
assim repor um critério de decréscimo ou aumento de um elemento de controle
normativo.
É nesse
sentido que me parece estar amparada a especialização de funções – na medida
que o sistema não mais é frágil em algum ponto principal que por ele responde
inteiramente e que portanto poderia subsumi-lo idealmente. A sociedade é mais
forte quando a riqueza é informação, mas quando a riqueza se torna energia, a
polaridade do “mais” é situada na adaptação em nível biológico, de papeis, ou
econômico. A complexidade retem algo da presença da sociedade, que no funcionalismo anterior era negada na
simplicidade, e assim Parsons repete de algum modo um critério latente, para o
bem ou para o mal, em todo funcionalismo.
A partir dos
anos cinquenta, ao contrário do Funcionalismo, o Estruturalismo se tornou uma voga não negligenciável. Vimos que o funcionalismo também utiliza a noção de estrutura, mas como todo, enquanto o estruturalismo propriamente lida apenas com a articulação das partes. Uma vez que utilizou a cibernética, é compreensível que, como já
constatei, alguns autores tenham considerado o próprio Parsons estruturalista. Assim ele é
apresentado por Edward Lopes ("Fundamentos da linguística contemporânea"), que ao
tratar o tema do estruturalismo no capítulo sobre “A gramática estrutural” nomeia uma série de importantes
pesquisadores que teriam transposto o estruturalismo como “excelente 'hipótese de trabalho'”, da linguística a outros campos
das ciências sociais.
A lista de
Lopes é como segue citado: “Levi-Strauss na
antropologia, Barthes, Bremond, Greimas, Derrida e Kristeva, na Teoria
Literária, T. Parsons na sociologia, Lacan na Psicanálise, Michel Foucault na
História da Cultura, Braudel na História, e tantos outros”. É verdade que
Lopes ressalva que estes personagens tem “de
uma ou outra forma, com maior ou menor grau de evidência, uma grande dívida
para com ele” (o estruturalismo), mas muitos de nós concordaríamos que
Parsons e Braudel estavam, inversamente, no campo oposto a ele. Pois Parsons
pensa sistema como totalidade, do mesmo modo que o gestaltismo, enquanto o
estruturalismo o pensa como articulação das partes, com a totalidade sendo
apenas "efeito" ilusório - o que figura agora naquilo que antes era considerado "ideológico".
Em todo
caso, não pretendo negar importância ao fator de desenvolvimento que atualmente
tem sido mais relevante, posto que é recorrente que haja rupturas e mudanças ao
longo do percurso de um pensador.
Sobre
Parsons os comentaristas tem progressivamente se tornado conscientes dessa
questão, sobressaindo entre aqueles que o tratam como o papa do
estrutural-funcionalismo sociológico. Enquanto ele mesmo, no prefácio da edição
de 1968 a “The structure of social action”, décadas após o lançamento da
primeira em 1937, tratou do assunto mostrando que sua carreira foi composta de
fases, das quais o funcionalismo foi apenas uma.
Mas ele nunca
se apresenta como estruturalista. Na verdade, parece querer afirmar que aquilo
com que rompeu foi com os grandes rótulos, de modo que o único que permanece
por ele mesmo atribuído é o estrutural-funcionalismo da sua fase inicial. Esta
abrange contudo algumas transições importantes posteriores à redação do Structure, como a ênfase na proximidade
epistêmica de Durkheim e Freud, além da importância atribuída a G. H. Mead, um dos grandes pragmatistas após Peirce, James e Dewey, linha que atualmente é a de Rorty.
Ao que
parece, Parsons se sentiu recompensado por esses autores, Durkheim e Freud, em sua relevância à
personalidade como fator de compreensão das normas de “socialização” a título
de “internalização” dos elementos normativos.
É interessante
sublinhar que esse prefácio ressoa com o que Lacan já em 1938 havia consolidado
em termos do nexo Durkheim-Freud a partir da noção psicanalítica de “família”.
Parsons parece-me contribuir com elementos ao problema do seu conceito
epistemológico global em humanities, ao afirmar no prefácio da edição de 1949,
portanto típico dessa fase, que para ele Freud tem um peso na teoria analítica,
centrado na psicologia, que não possui similar na antropologia. Talvez Boas
pudesse ser referenciado nessa posição, mas ele não tem a mesma estatura de
Freud.
A seguir, tornando ao prefácio de 1968,
Parsons fala de uma segunda fase, em torno do seu "Economy and Society"
em parceria com Neil Smelser (1956), em que se interessou pelo problema da
economia, com o intuito de consolidar sua posição de dois subsistemas
irredutíveis, econômico e social, ambos dentro do sistema único da Sociedade.
Assim parece
necessário entender que o sub-sistema “social” é um dos quatro, e todos
integrando esse único, o da “Sociedade”. O subsistema conceitua apenas o que
Parsons agora expressa “sociedade organizada”, enquanto a Sociedade que integra
todos os sub-sistemas explica o que é subjacente ao visável como sociedade em
nível empírico: “Em primeira instância
essa generalização [da economia como sub-sistema independente] gerou uma nova
abordagem para a análise teórica da 'sociedade organizada', sugerindo que ela
fosse tratada como um sub-subsistema de uma sociedade que fosse analiticamente
definido e estritamente paralelo à economia”.
A meu ver
Parsons está amparando uma longa ambição da sociologia, afirmável desde sua
origem comteana, de tratar a economia como algo não de todo autônomo do
fenômeno social – ou seja, inversamente a toda veleidade de reduzir o social ao
econômico. Mas Comte, assim, pretendia infirmar uma ciência da economia
separada da sociologia, enquanto Parsons, atribuindo esta pretensão a Pareto,
afirma que sua própria posição não é a de um crítico da ciência econômica, mas
a de alguém que inovou ao demonstrar “que
a economia é um subsistema de uma sociedade clara e precisamente definível e
que pode ser sistematicamente relacionada com outros subsistemas”.
A fase mais
tardia de Parsons teria sido centrada em torno dos problemas da mudança social
e de uma ênfase em Weber como “o mais
importante dos evolucionistas sociais pós-lineares”, isto é, evolucionistas
mas pós-positivistas. Também Smelser teria enveredado por esse rumo. Os
documentos representativos dessa fase são especialmente “Societies: Evolutionary and Comparative Perspectives” e “The System of Modern Societies”.
Parsons
agora é consideravelmente menos Durkheimniano, e até opõe explicitamente os “interesses weberianos”, como a que ele
se consagra, aos que seriam de Durkheim. É interessante que paralelamente, Lacan iria também romper com Durkheim a partir porém de sua adesão a Lévi-Strauss.
O que pode parecer surpreendente em Parsons, porém, pois Durkheim seria habitualmente muito mais associável a parâmetros explicitamente sócio-evolucionistas do que Weber. Esta perspectiva a propósito de Weber é então mais conveniente a que eu mesma proponho como interpretação dele. Isto é, um teórico da racionalidade como o telos de uma história pretérita da humanidade em que todos os sistemas sociais eram "dominações" no sentido habitual do termo, não obstante serem ordens sociais instituídas, de modo que só na modernidade-ocidental a instituição da ordem social poderia deixar de ser domínio ilegítimo de privilégio para se tornar racionalidade democrática.
O que pode parecer surpreendente em Parsons, porém, pois Durkheim seria habitualmente muito mais associável a parâmetros explicitamente sócio-evolucionistas do que Weber. Esta perspectiva a propósito de Weber é então mais conveniente a que eu mesma proponho como interpretação dele. Isto é, um teórico da racionalidade como o telos de uma história pretérita da humanidade em que todos os sistemas sociais eram "dominações" no sentido habitual do termo, não obstante serem ordens sociais instituídas, de modo que só na modernidade-ocidental a instituição da ordem social poderia deixar de ser domínio ilegítimo de privilégio para se tornar racionalidade democrática.
O que está
em jogo na história da ciência social porém é que Weber projetou uma explicação
da própria mudança econômica do capitalismo em função de uma mudança social, do
padrão religioso, a partir da reforma protestante que teria originado o
comportamento subjetivamente orientado. Ao contrário da causalidade por divisão
do trabalho, econômica, de Durkheim. Esta é então a chave da proximidade
Weber-Parsons.
Porém como
enfatizei, na realidade da surgência da "teoria política", a temática
do sujeito individual como justificativa referencial da mudança do pensamento
político, desde Locke, não foi oriunda de uma retórica cristã-reformista, e sim
da visibilidade do aborígine americano, em relação a que a "teoria
política" foi o locus de equacionamento explicativo. Como devemos lembrar, a teoria política da época clássica entre Locke e Rousseau é em que se inaugura o liberalismo político, como se pode constatar pelo teor dos seus textos fundadores, como o segundo tratado do governo (Locke) e as classificações de Rousseau das idades da socialização desde a origem suposta, como em Locke, "natural". Aqui não seria o caso do monarquismo de Locke, cujo intertexto era apenas tradição europeia, já bastante mistificada para parecer contínua desde a Antiguidade. Entre Locke e Rousseau, podemos ver como a emergência do liberalismo político está relacionado intrinsecamente à descoberta das Américas e do aborígene americano, se bem que como se poderia esperar isso seja constantemente abstraído na consideração dos teóricos ocidentalistas que examinam esse referencial.
Foi em todo caso a teoria política da época clássica que teve realmente a função epistêmica de relacionar sujeito e sociedade antes das ciências humanas, como se torna muito proeminente em Rousseau, pensador que pessoalmente oscilava entre protestantismo e catolicismo. Poderia se antepor que mesmo assim a preensão econômica da mudança social do Estado contemporâneo não se demonstra e pelo contrário, há um elemento social preponderante. O problema continua porém, pois a própria teoria de Weber é uma explicação não só desta mudança, mas do que a ela é intrínseco, o que ele considerava a racionalidade da empresa capitalista - o fato de não depender da sanção de uma autoridade carismática, e sim somente do funcionamento das instituições burocrático-legais, Weber explicitamente negando que o colonialismo-imperialismo seja fator constitutivo.
Foi em todo caso a teoria política da época clássica que teve realmente a função epistêmica de relacionar sujeito e sociedade antes das ciências humanas, como se torna muito proeminente em Rousseau, pensador que pessoalmente oscilava entre protestantismo e catolicismo. Poderia se antepor que mesmo assim a preensão econômica da mudança social do Estado contemporâneo não se demonstra e pelo contrário, há um elemento social preponderante. O problema continua porém, pois a própria teoria de Weber é uma explicação não só desta mudança, mas do que a ela é intrínseco, o que ele considerava a racionalidade da empresa capitalista - o fato de não depender da sanção de uma autoridade carismática, e sim somente do funcionamento das instituições burocrático-legais, Weber explicitamente negando que o colonialismo-imperialismo seja fator constitutivo.
Ora, se o
capitalismo não mais se compreende independente do colonialismo/ imperialismo,
todo o foco metodológico weberiano se compromete, se o seu eixo é a
"racionalidade". Realmente há uma mudança social independente em
trânsito desde a"teoria política" à emergência das ciências humanas,
mas aquilo que ela estrutura não é um monólito eurocêntrico, designável
"sociedade capitalista-tecnológica liberal-constituída
moderno-ocidental".
E na verdade,
o volume II do Structure é nada menos
que totalmente dedicado a Weber. Re-enfatiza Parsons sua posição inicial, a do Structure, em termos de escolha dos
autores que analisou ali (o volume I estudando Marshal, Pareto e Durkheim) na
qualidade de verdadeiros formadores da sociologia, deixando de lado Tocqueville
e Marx, que na altura em que escrevia o prefácio pareceriam a outros talvez
mais interessantes. A posição é claramente uma defesa da sociedade como o
enfoque mais abrangente dos fenômenos humanos, e não a economia.
Assim não é
em termos de transformação econômica (Marx) ou de classe (Tocqueville) que
Parsons entende a surgência da modernidade, uma pista para apreendermos como
ele situa a própria consolidação da sociologia.
A emergência estruturalista
A meu ver, há realmente uma contaminação temática entre o funcionalismo tardio e a novidade do estruturalismo, a partir do que tratei em termos de “mapa mental”. Com o estruturalismo a ênfase nesse aspecto vai ser tão grande que a consequência chega a ser a pretensão da eliminação das “ciências humanas” como campos de estudo autônomos, para estabelecer ao invés o que seria uma teoria central, a da estrutura psico-linguística ("inconsciente"). Assim porém a irredutibilidade do estruturalismo ao funcionalismo é mais notável do que possa parecer comum entre eles – o que já poderíamos notar pelo fato de Parsons não referenciar Levi-Strauss.
Ou seja, o mapa mental funcionalista é uma estrutura como todo de significados conscientes, ao contrário do estruturalismo, que é estrutura como conjunto de significantes mínimos, fonemas (linguística/Saussure-Jakobson), parentemas (antropologia/Strauss), elementos da produção (economia/Althusser), e os constitutivos do Édipo (psicanálise/Lacan), cuja operatória de articulação é construída no inconsciente, porém facultando performances conscientes como atribuições de significado que portanto não definem o fenômeno real (só a ciência estrutural define os elementos mínimos).
A meu ver, há realmente uma contaminação temática entre o funcionalismo tardio e a novidade do estruturalismo, a partir do que tratei em termos de “mapa mental”. Com o estruturalismo a ênfase nesse aspecto vai ser tão grande que a consequência chega a ser a pretensão da eliminação das “ciências humanas” como campos de estudo autônomos, para estabelecer ao invés o que seria uma teoria central, a da estrutura psico-linguística ("inconsciente"). Assim porém a irredutibilidade do estruturalismo ao funcionalismo é mais notável do que possa parecer comum entre eles – o que já poderíamos notar pelo fato de Parsons não referenciar Levi-Strauss.
Ou seja, o mapa mental funcionalista é uma estrutura como todo de significados conscientes, ao contrário do estruturalismo, que é estrutura como conjunto de significantes mínimos, fonemas (linguística/Saussure-Jakobson), parentemas (antropologia/Strauss), elementos da produção (economia/Althusser), e os constitutivos do Édipo (psicanálise/Lacan), cuja operatória de articulação é construída no inconsciente, porém facultando performances conscientes como atribuições de significado que portanto não definem o fenômeno real (só a ciência estrutural define os elementos mínimos).
Piaget
poderia nos apresentar uma formulação básica da oposição em tela, ao conceituar
sua crítica do gestaltismo. Para Piaget, a psicologia da forma erra ao
considerar a análise um fator derivado. Pois a apreensão do todo é a
característica principal apenas nas fases formativas da inteligência, deixando
de sê-lo quando esta se torna madura, como aptidão operatória “formal” e não
mais apenas “concreta”, maturação que se completa na adolescência. Então, pelo
contrário, a inteligência se define pela aptidão à apreender a separação das
partes.
Contudo, o
estruturalismo é uma rubrica de acesso nada fácil, entre outros fatores porque
comporta interpretações muito irredutíveis da “estrutura”. Lacan é um ferrenho
opositor de Piaget. Foucault, um crítico acerbo de ambos. Vários autores
rotulados “estruturalistas” recusaram o termo por não terem nada em comum com
aqueles outros que estavam também assim referenciados.
Em geral podemos no entanto afirmar
que seja quais forem as interpretações de “estrutura” que embasam os
estruturalismos, ela é oposta à noção de “estrutura” como todo ou forma determinante das partes, que esteve subjacente ao
funcionalismo e/ou estrutural-funcionalismo. Por isso também, por vezes autores
recusam ser estruturalistas na medida que pensam “estrutura” como aquilo que
tanto já havia sido anteriormente ventilado no próprio funcionalismo.
Um outro
aspecto dessa dificuldade é que o estruturalismo se inicia por uma utilização
conspícua da linguística saussuriana, e isso poderia fazer supor que o
“estruturalismo” é algo que começa com o próprio Saussure. Mas isso não seria
de modo algum exato, e o que ocorre desde Levi-Strauss é uma interpretação da
“langue”, pelo que ela se torna aplicável em estudos não propriamente de
Linguística, que não estava disponibilizada antes.
Mesmo que se
possa referenciar no campo da Teoria literária e Linguística, por exemplo o
Círculo Linguístico de Praga, como “estruturalista”, na verdade ele é apenas
precursor, pois nem mesmo uma aplicação fora do campo estrito dos estudos de
“letras”. Além disso podemos ver que Jakobson, tantas vezes referenciados como
uma ponte entre o círculo de Praga e o estruturalismo propriamente dito, na verdade
articula uma teoria de “funções” da linguagem.
A diferença
entre funcionalismo e estruturalismo, é que a “estrutura” funcionalista é
sempre comparável a um organismo, então o que se espera da noção de estrutura é
que ela comporte partes que seriam suas “funções”. Há uma unidade
epistemológica notável na metade inicial do século XX, em torno do que se
poderia designar um “organicismo” generalizado.
Já o
estruturalismo pensa a estrutura como algo autônomo, não como um todo integrativo,
nem integrada somente por partes além de sua articulação. Esta articulação das
partes é que as torna integrativas da estrutura. Estrutura é então a
articulação de que se trata. Fora da articulação as partes subsistiriam como
outra coisa, indiferentes a ela.
Assim houve
um trânsito notável, na segunda metade do século XX, do “organicismo” para um
“maquinismo” generalizado. A articulação é um puro funcionamento, um
automatismo gerado pela conveniência disposicional dos elementos.
Repetindo,
a estrutura "estruturalista" é articulação disposicional ou
“diferencial” dos seus próprios elementos ou partículas – que exteriormente a
ela nada são com relação ao que ela articula.
Assim vemos
que a estrutura “organicista” comporta uma abrangência de reflexividade que era
o que maximamente se procurava, na metade inicial do século passado, restituir
em termos de “compreensão” do fenômeno humanístico. O que é maximamente
rejeitado pelos estruturalistas. Aqui a crença no efeito da estrutura, como o
todo, é ao contrário, a alienação por excelência.
Compreende-se porque o marxismo estrutural althusseriano é uma rejeição
total do resgate da cultura que haviam feito os marxistas humanistas como Gramsci ou Sartre, como um novo
ambiente de ojeriza à "ideologia". Estava agora, com Althusser et alii, sendo reconceituada
em termos de uma alienação automática, gerada pela estrutura, mas também pelo
desconhecimento da estrutura como causa.
Robert Gorman
(“A visão dual”), em uma crítica notável do que poderíamos designar a
abrangência funcional, especificou bastante bem como na Europa a ambição de
restituição humanística funcional esteve escalonada em duas frentes.
Ora numa
teoria fenomenológica inspirada em Husserl e Weber, como a de Alfred Shutz, na
qual se trata de restituir o que seriam modelos puros da ação social – assim
como Husserl teria conceituado as relações (lógicas) puras da consciência
intencional. Vertente cuja limitação é flagrante, posto que a sociedade se
reduziria a um esquematismo, e a integração subjetiva a “homúmculos” ideais
teoricamente projetáveis.
Ora numa
“ontologia existencial” inspirada em Heidegger, que tentava, como Sartre e
outros humanistas, inversamente, apreender como os modelos sociais, sendo
históricos e portanto não universais como paradigmas noéticos e/ou cognitivos,
se tornavam ideais de sentido real para consciências atuantes na prática, em
contextos sociais diferenciados.
Mas Gorman defende Heidegger como ontologia existencial que realmente apreenderia, como variação espacio-temporalizante, a heterogeneidade das sociedades, sendo útil na teoria social. Inversamente notou com acurácia o quanto Schutz se restringe a uma “visão dual” – ou
ambiguidade insuperável, isto é, uma total contradição
interna da teoria, pois ao mesmo tempo que se pretende fenomenológica, é estritamente objetiva. Ele chega a chamar Sartre de esquizofrênico pois, ao
mesmo tempo que se trata do que tem sentido para mim, o que é refletido por mim como valores
existenciais meus, se trata somente
do que é disponibilizado socialmente em termos das opções historicamente
fenomênicas de um contexto dado. Também critica todos os que pretenderam unir fenomenologia e/ou existencialismo e marxismo.
Se Gorman pode
não ter ficado muito famoso por essa crítica sociológica a Sartre, Judith Butler, que
ficou célebre em sua invectiva contra Simone de Beauvoir, expressou uma objeção
que a meu ver é do mesmo teor – o que mostra bem que já não bastava uma crítica
da fenomenologia sem uma alternativa real a ela, como foi a de Gorman que se
conservou existencialista, esperando por tempos melhores, ao modo apenas de um
apelo para que depurassem suas contradições.
A crítica de
Butler expressa-se em que Beauvoir institui a categoria “mulher” como fenômeno
cultural, e não fato material, mas se o fenômeno é em devir (“não se nasce
mulher, torna-se mulher”), porque justamente sempre o devir seria “mulher”, que
é portanto “ser”?
Beauvoir
está apenas aceitando um outro tipo de fato, de dado bruto, que seria nossa
redução a priori a uma consciência destinada ao conceito cultural – mas
obviamente isso não é um fato e sim apenas uma veleidade da teoria
funcional-fenomenológica, na verdade de origem cartesiana, o que se pode notar por isso que a existência da
marginalidade/ marginalização do gênero não é apenas algo que se pode entender
como desvio em relação a um centro ou Ser necessariamente existente – o que
seria uma forma perfeitamente reacionária de lidar com a questão, o que estava
longe de ser a intenção de Sartre/Beauvoir.
A “queer
theory” de Butler instaura a pesquisa por esse lado da marginalização de gênero
sexual enquanto algo que devemos compreender como é possível a partir da tensão
entre categorias culturais – apenas o que é esgrimido contra o marginalizado em
termos do que ele não apresenta – e o comportamento humano, real, do próprio marginalizado. Ou seja,
a partir da contradição inerente ao próprio discurso de atribuição (ou poder)
do gênero.
Não obstante é
preciso salientar que Butler não é redutível a Foucault nem à psicanálise de Lacan, pois a questão para ela ao que parece não é elidir a priori a realidade biológica do sexo como algo que o inconsciente deveria transformar em cultura: eis o que nós
precisaríamos continuamente repensar, não o que já compreendemos de alguma
forma definitiva. Ela critica assim, ressoando a meu ver com as reservas de Rocher com relação a movimentos de status,
tentativas teóricas de homossexuais como Wittig, reduzirem a sexualidade originária à
homossexualidade, como se a heterossexualidade genital fosse apenas derivada ou
artificial.
Se bem que o
texto que conheço de Butler a propósito tenha me parecido um pouco afastado em
alguns pontos do que conheço do próprio Foucault, creio que ela está mais
coerente com o cenário pós-modernista da teoria, que a meu ver é mais fecundo
que o seu congênere “pós-estruturalista” justamente porque o pós-modernismo
recusa determinismos ao modo de fórmulas do inconsciente.
Ao
contrário do funcionalismo, como vimos, no estruturalismo a estrutura não é algo
fenomenologicamente acessível, nem interpretável a partir do que é
fenomenologicamente dado. Ou seja, o próprio enunciante de sua atualidade – o
falante da língua, o membro de uma sociedade, o juiz de uma sentença conforme
as leis de uma formação social determinada - não a “compreende” nem conhece intuitivamente de
forma alguma.
Ela é
deduzida ou reconstituída analiticamente a partir de amostragem das variáveis
em que está atualizada, ou seja, num
quadro de parentesco de línguas, de sistemas sociais ou de códigos legais que
recobriria vários referenciais sócio-étnicos, desconhecidos do sujeito imerso
apenas no seu próprio.
Assim
realmente não há uma “estrutura social” no estruturalismo, ao menos não naquela
acepção que poderia acompanhar a noção de “englobante” tal como proposta em
Jaspers – a partir do pressuposto de que as realidades são totalidades
orgânicas e de que a mente só lida com totalizações. Como o Real existe apenas
o devir, aquilo que em si mesmo pode integrar qualquer reconstituição possível
mas é independente de toda reconstituição sempre parcial-estrutural. Assim o Real também
não é uma totalidade – pensável mesmo que renunciássemos a conceituá-la.
Os capítulos
de histórias da sociologia que tratam do estruturalismo, como em Marsal ou
Rocher, apenas referenciam Levi-Strauss, ou seja, um profissional da
antropologia social. E Michel Foucault, que seria o mais aproximável nesse
aspecto, lida apenas com três estruturas autônomas: Saber, Poder e
Subjetivação.
É na
sociedade moderno-ocidental que uma dominação
integra a todas a partir da politização do Saber, para efeitos
governamentais-administrativos, mas a dominação
não é o essencial de alguma “sociedade”, nem é reportável de alguma instância a
que a sociedade seria redutível. A dominação não é uma totalização, é um
conjunto de práticas que percorrem uma coletividade espácio-temporalmente
localizada, além de que essa coletividade é apenas devir.
Deleuze e
Guattari propõem uma noção de “socius” em seu “Anti-Édipo”, mas que se reduz a
estruturas psíquicas ou “inconsciente”, o que em Mille Plateaux se desenvolve
em termos de regimes de signos. Ou seja, são pragmáticas semióticas, e não
totalizações de algo como sociedade que abrangeria em si todas as funções ou
práticas de uma coletividade.
No Anti-Édipo se trata de uma teoria de
socius diversos, ou da diferenciação social em primitivos (sem Estado) por um
lado, impérios e capitalismo por outro lado como respectivamente bárbaros e
civilizados (ambos com Estado). Em Mille Plateaux os regimes de signo operam
junção sintomática de doenças mentais classificadas e dominações sociais
históricas.
A teoria
abrange porém o inconsciente em si como “esquizofrênico” ou seja, nessa designação deles, não doentio,
mas independente em relação a todas as possibilidades de sua fixação por algum
destes “socius”, independência que seria constatável não só no esquizofrênico
tout court (como diagnosticado por outros), mas na arte, na filosofia ou na ciência, enquanto
regime de signo que se restringe ao ser do objeto (qualquer).
Os grupos
nesse estatuto do não “fixado” ou não “neurótico” seriam minoridades, não
grupos “sociais” como integrantes de uma “sociedade” - conceituável além de
semióticas reconstituíveis, dessas formalizações mutantes, que se substituem
aleatoriamente umas às outras, portanto sem “história” possível.
Já Althusser
havia traduzido Marx “estruturalmente”, ou seja, mostrado que a teoria marxiana
de Modo de Produção é articulação de elementos, tais como força de trabalho,
meios de produção, agente organizador da produção (relações de produção), os
quais são neutros ou prévios em relação a toda combinatória possível deles.
Assim os modos de produção que se podem constatar ter havido historicamente são
possibilidades combinatórias do mesmo modo que combinações que não existiram
nem provavelmente jamais existirão efetivamente.
Os elementos
não são “empíricos”, como realidades consistentes além da estrutura, mas são “objetivos” dentro de uma teoria que os
reconstitui. Ou seja, eles não são
visíveis fora da teoria, não são elementos da “sociedade” como do que se
poderia cogitar em termos do mero fato de haver coletividade organizada. Como
não são reflexivos, não se segue que as pessoas seriam redutíveis mecanicamente
a hábitos sem sentido, mas sim que as estruturas presidem a possibilidade de sentido,
em vez das pessoas mesmas como criadores, sentido que porém nós só atualizamos em
termos de significados ou em todo caso de regimes de atribuição e organização
possível das coisas.
Mas entre
Althusser e teorias como de Foucault e Deleuze-Guattari, há uma grande
irredutibilidade no plano das intenções. Assim, a não reflexividade das
estruturas em Althusser implica a própria objetividade como redução possível do
sentido teórico dos elementos. Há uma possibilidade de evolução social - o
cientificismo estrutural. Lacan ficou, pelo mesmo motivo, o referencial
criticado de Foucault e Deleuze-Guattari, justamente porque nestes ocorre a pretensão de ultrapassagem de todo sócio-evolucionismo, ao menos nesse plano das intenções
iniciais. Contudo tanto Foucault como
Guattari e Deleuze tem critérios para definir o moderno-ocidental. Foucault conceitua o abrandamento das penalidades e a discursivização do sexo, que engendra a ciência identitária do sujeito. Guattari e Deleuze reutilizam a classificação positivista das sociedades como selvagens ou primitivas, bárbaras e civilizadas. Jà vimos com Willems que esse critério, que coloca o primitivo antes do Estado é criticável, pois todas as sociedades tem leis, e mesmo o imperialismo dos bárbaros já se reporta de sociedades tribais.
A pretensão de ter ultrapassado o sócio evolucionismo é o que no entanto se poderia atribuir tanto mais a Althusser como um freudo-marxismo que se espraia possivelmente desde as concepções de Levi-Strauss. Em todos os três, as combinatórias que não a da sociedade industrial ocidental, não seriam amostras de uma história do desenvolvimento, mas independentes.
Porém sem dúvida assim se tornam conceitualmente, porque sempre só na combinatória industrial ocidental a estrutura admite a sua própria enunciação na forma da ciência - assim como a liberação da subjetividade como consciência de si, a objetividade da economia como ciência, e a flexibilização máxima das possibilidades do parentesco.
Logo, é como se a combinatória moderno-ocidental fosse a forma geral de todas as estruturas históricas possíveis para aquilo que seria uma mente universal. É o telos (objetivo) do mesmo modo que a acké (origem), pois ao realizar-se torna-se repositório de todas as possibilidades que de outro modo estão particularizadas.
Assim o estruturalismo não se diferencia de todos os sócio-progressismos que criticou tão intensamente. O pós-estruturalismo tornou as combinatórias sem conexão aparente com o que seria uma articulação central, mas conservou parâmetros sócio-progressistas a partir desse mesmo pressuposto do que é requisito da enunciação (ciência) da estrutura.
Guattari e Deleuze tem critérios para definir o moderno-ocidental. Foucault conceitua o abrandamento das penalidades e a discursivização do sexo, que engendra a ciência identitária do sujeito. Guattari e Deleuze reutilizam a classificação positivista das sociedades como selvagens ou primitivas, bárbaras e civilizadas. Jà vimos com Willems que esse critério, que coloca o primitivo antes do Estado é criticável, pois todas as sociedades tem leis, e mesmo o imperialismo dos bárbaros já se reporta de sociedades tribais.
A pretensão de ter ultrapassado o sócio evolucionismo é o que no entanto se poderia atribuir tanto mais a Althusser como um freudo-marxismo que se espraia possivelmente desde as concepções de Levi-Strauss. Em todos os três, as combinatórias que não a da sociedade industrial ocidental, não seriam amostras de uma história do desenvolvimento, mas independentes.
Porém sem dúvida assim se tornam conceitualmente, porque sempre só na combinatória industrial ocidental a estrutura admite a sua própria enunciação na forma da ciência - assim como a liberação da subjetividade como consciência de si, a objetividade da economia como ciência, e a flexibilização máxima das possibilidades do parentesco.
Logo, é como se a combinatória moderno-ocidental fosse a forma geral de todas as estruturas históricas possíveis para aquilo que seria uma mente universal. É o telos (objetivo) do mesmo modo que a acké (origem), pois ao realizar-se torna-se repositório de todas as possibilidades que de outro modo estão particularizadas.
Assim o estruturalismo não se diferencia de todos os sócio-progressismos que criticou tão intensamente. O pós-estruturalismo tornou as combinatórias sem conexão aparente com o que seria uma articulação central, mas conservou parâmetros sócio-progressistas a partir desse mesmo pressuposto do que é requisito da enunciação (ciência) da estrutura.
Assim convém
falar por um lado de “estruturalismo”, com uma estrutura única que se realiza plenamente na modernidade e permite escalonar as idades sociais por comparação a ela; e por outro de “pós-estruturalismo”, que supõe estruturas independentes, porém sempre reconceituando um escalonamento relativo à realização do próprio enunciado pos-estrutural como moderno-ocidental. E ambos, estruturalismo ou o "pós estrutural" sendo interpretações de uma mesma premissa “estrutural” ou
“diferencial” e não fenomenológico-totalizante. Repetindo, a trajetória dos
pós-estruturalistas Deleuze-Guattari, Foucault et. alii, não foi coerente com
sua intenção inicial, uma vez que a questão da própria ciência ou teoria da estrutura
como relevante para a singularidade de um presente ocidental – resumo da
verdadeira liberação possível – se mostrou incontornável.
As teorias ulteriores
Algo ulterior a essa oposição interna aos estruturalismos, mas não como reiteração do funcionalismo que já vinha de antes, somente se começa a viabilizar em termos do que em Marsal se referencia a “sociologia do terceiro mundo”. É algo, porém, paralelo ao que alguns autores, inclusive Marsal , tratam na rubrica de uma “dissidência” contrária ao império do funcionalismo nos USA, isto é, do funcionalismo na forma do consenso, porque não implica por outro lado um abandono real do ponto de vista da totalidade social.
O que se tenta agora é abranger o
conflito e a revolução. A isso podemos ajuntar a observação de que ao contrário
da sistematização progressiva da totalidade, como na opção parsoniana, manuais
de antropologia social à exemplo dos de Wilhems e Beattie mostram um
funcionalismo muito mitigado por causa da preponderância da informação
empírica, que a essa altura mostrava-se inviabilizar generalizações
classificatórias.
A influência da corrente contestatória
referenciada por Marsal, nos USA, ainda que não diretamente no poder
universitário, foi grande a partir de Veblen, Myrdal, Moore e Wright Mills, e
Marcuse. Podemos notar que por outro lado, a esquerda europeia se renovava pelo aparato estruturalista, com Althusser.
Assim, Marsal concede maior ênfase à "sociologia do terceiro mundo" e
correntes contestatórias norte-americanas.
Rocher, inversamente, de um modo menos historicamente informativo, apõe ao
estruturalismo apenas a consolidação da perspectiva do sistema na teoria social
– de Parsons e Hommans a Bucley e ao horizonte aberto da sociologia por fazer.
Afirma mesmo, à guisa de conclusão do seu livro, que fora da sistematização
lógica e dedutiva, como da tradição analítica, não haveria para a sociologia
qualquer meio de se auto-atribuir uma ciência.
Essa concepção obviamente minimiza a
importância da observação empírica, que em Bottomore, bem pelo contrário, coroa
a sucessão dos capítulos a partir da necessidade sentida de apreender o que
teria sido uma espécie de consenso sociológico em torno das questões de
operacionalidade e aplicação.
Ainda que a flutuação terminológica
seja considerável entre os núcleos “puros” de teoria racional e prática
empírica, basicamente podemos entender
que a "sociologia operacional" é a que lida com
os aspectos práticos liberáveis pelo trabalho de campo, a pesquisa empírica, do sociólogo – tais como
um referencial de previsão. Enquanto "sociologia aplicada", um tanto ao contrário do
que o nome sugere, seria a provisão de um quadro teórico-explicativo completo
em função de um determinado objeto escolhido da pesquisa sociológica, de modo
que por exemplo em vez de simples previsão se trataria de apresentar
verdadeiras causas.
A mencionada necessidade de apreensão
é comprovável em Bottomore a partir da por ele citada realização por parte da
Associação Sociológica Internacional, de um exame a propósito da correlação entre pesquisa e
resultados da Sociologia. O resultado foi que a aplicação da Sociologia revelou-se demasiado pobre,
enquanto a pesquisa operacional e reflexão metodológica eram abundantes num
meio cujo objeto era predominantemente relativo aos problemas sociais. O
curioso é que, contudo, o papel da investigação sociológica tornou-se o mais
importante, ainda que Bottomore diante disso preferisse relativizar esse
resultado.
Foi natural que sociólogos como
Barbara Wootton, refletindo sobre o alcance metodológico da pesquisa e tendo
que lidar com o fato de que a explicação causal mostrava-se sempre inviável,
deduzissem que a relevância da
Sociologia subsiste sobretudo apoiada na sua utilidade de fornecimento
de conhecimento empírico do campo social, uma vez que a investigação pode mostrar que o senso comum a propósito do problema erra grandemente, ou que nem o compreende tal qual é, assim como a composição mesma dos grupos sociais, etc. Realmente um critério da racionalidade do regime político seria que os programas dos governos fossem orientados pelos conhecimentos da sociedade oriundos da sociologia operacional. Porém justamente não sendo "aplicada", esta só pode mostrar as informações, as escolhas políticas em utilizá-las ou como, pertencendo à sociedade. O marxismo é antagônico à sociologia operacional, pois pretende dirigir as pesquisas, e somente o funcionalismo por seu aspecto totalizante teve acolhida na União Soviética.
A pesquisa empírica operacional como um tornassol da realidade contra preconcepções ingênuas mostrou por exemplo, no terreno da criminologia, não haver causação demonstrável entre a conduta criminosa e pelo menos 12 fatores habitualmente associados – em 21 trabalhos examinados.
A pesquisa empírica operacional como um tornassol da realidade contra preconcepções ingênuas mostrou por exemplo, no terreno da criminologia, não haver causação demonstrável entre a conduta criminosa e pelo menos 12 fatores habitualmente associados – em 21 trabalhos examinados.
Não obstante, ligações de
constância entre alguns fatores como confusão na vida doméstica, sobretudo
instabilidade temperamental ou retardamento mental, e a conduta criminosa podem ser observáveis,
assim como entre alguns fatores e a reincidência após o período de prisão, como
experiência anterior de uma escola, ou período de liberdade condicional
juntamente com mudança de emprego. Porém não se segue de modo algum como
determinado que a supressão de escolas, da liberdade condicional ou a proibição
da demissão teria contribuído para melhorar a situação – pois esses fatores não
são definidos como causas, apenas foram observáveis como relativos, se
ocorrendo conjuntamente, a maior incidência de um mesmo resultado como
reincidência do comportamento criminoso.
Sobretudo o valor dessas ligações
é ter ressaltado um campo da investigação sociológica que se revelou brilhante
ao mostrar-se apto a destruir supostos a prioris na área de problemas sociais
como criminologia e relações trabalhistas na indústria.
Quanto à criminologia, tornou-se
demonstrável a deficiência de generalizações dos doze fatores, entre eles irreligiosidade,
pobreza, proximidade de outros criminosos ou maior duração de exposição à
influência deles, comportamento de pais ou fator racial, ao comportamento
criminoso. Nenhuma correlação a esses fatores é sustentável.
Além disso, foi comprovada a
predominância estatística “das mais poderosas empresas comerciais
americanas”, conforme H. Manheim, do comportamento criminoso – ao invés dos
pobres, minorias étnicas ou da juventude. O personagem Coalhouse, do romance Ragtime de Doctorow,
contaria aqui um ponto a favor, pois como Manheim também mencionou nessa
citação de Bottomore, “não foi na verdade o imigrante, mas o branco nascido
na América, o principal responsável pela alta taxa de crime” e “a sociedade
americana, e não o negro, tinha a responsabilidade por grande parte do crime
dos negros...”. Assim o caráter para-legal ou francamente ilegal do capitalismo, contrariamente ao racional-legal de Weber, nem mesmo precisa interceptar o imperialismo para se evidenciar.
Assim produziu-se, até reconhecido
por Bottomore, uma espécie de
consenso anti-durkhemminiano que
restauraria a visão empírica de um Stuart Mill a propósito da complicação de
fatores causais a um ponto que se torna irrelevante procurá-los. O estudo de
Durkheim sobre o suicídio, onde causas são predicadas como não pertencer a grupos estáveis, ou ser divorciado quando se trata do homem ao contrário das mulheres, não é aqui apontado, como nos manuais funcionalistas apontados por outros como paradigma da
maturidade em sociologia, e pelo contrário apenas para acentuar ter-se
descoberto que “há algo de arbitrário em sua distinção entre diferentes
tipos de suicídio”, o que conforme Bottomore é já conclusão a que “a
maioria dos sociólogos de hoje se inclina”.
Mas Bottomore está mais interessado
em salientar, inversamente a Wootton, que a pesquisa operacional é apenas uma
parte da Sociologia. Para ele, não é como ela pensa, que são as Ciências
Sociais que brilham mais como “criadas da decisão” ao eliminar
generalizações precipitadas e pelo fornecimento apenas das correlações
observáveis, pois são apenas certas técnicas de investigação que o fazem, e não
a Ciência Social como corpo de teoria e descrição.
Contudo, a veleidade de Bottomore em
estabelecer essa objeção na verdade é acompanhada apenas por mais evidências de
que não se trata de algo factível – a não ser talvez por pesquisas futuras,
portanto o que deve ser mantido como uma espécie de ideal da razão. É o que
revela o desenvolvimento do texto, transitando da criminologia à sociologia da
indústria, de onde se irradia a popularização do sociólogo como profissional
capaz de aplicar entrevistas e questionários com dados reveladores, figura a
qual recorre por exemplo a esfera da pesquisa médica.
Por um lado, Bottomore mostra a
posição de Clémens e Evrard, que não obstante salientarem que a requisição da
sociologia pela indústria é apenas na medida em que o sociólogo fornece dados a
partir de uma perspectiva neutra a todos os setores interessados, creem que há
aí uma área próspera à sociologia aplicada, tanto porque os estudos da
estrutura da empresa podem contribuir
para a melhoria dos sistemas internos, como de comunicações ou de
relações hierárquicas, como no status de
embasamento aos veículos de treinamento de gerentes e supervisores – por onde
sua maior contribuição possível à “mudança social na indústria moderna”.
Por outro lado, ressalta Bottomore
que essa posição “não encontra apoio universal”, e por exemplo William
Whyte considera inviável demonstrar que o elevado grau de mudança nas relações
industriais seja devido a intervenção sociológica. Entre nada menos que
centenas de milhares de programas de treinamento em relações humanas na
indústria, segundo Whyte apenas dois deles, dentro da escala do seu conhecimento,
foram submetidos a sólida avaliação de pesquisa.
A meu ver o ponto importante nessa
controvérsia sobre a utilidade da sociologia, que porém ignora o mais importante como a inter-relação no sistema educacional das matérias universitárias de ciências humanas, é justamente a auto-limitação da pesquisa operacional, que
encontraria ressonância com a tendência auto-crítica da ciência nos rumos da
pós-modernidade, ressoando com o dado negativo da problemática ecológica e com
o dado positivo do ex-centramento cultural que constitui limiar pós-ocidentalista
da inteligência. Isto é, o que precipita uma real ruptura num campo científico
que até aqui temos visto ser delimitável não como “representação” do Homem à
Foucault, mas como divisão dualista do primitivo e do civilizado somente capaz
de produzir inteligência, por um reducionismo cientificista da imagem desta
última.
A história da sociologia deve,
portanto, revelar aspectos importantes dessa ruptura epistemológica, como um
dos eixos ortogonais, além do da psicologia, da construção da divisão dual.
Assim a pesquisa operacional é
claramente uma renúncia da teoria em estabelecer diretivas supostas unicamente
racionais da conduta humana. Ela pode fornecer a realidade dos fatos,
mas não são estes os dados últimos na complementação do fenômeno social
– comportamentos e decisões reais. Estes são relativos à composição legislativa, executiva e judiciária da sociedade, não direcionado unilateralmente.
E ela fornece a realidade dos fatos apenas para quem já se propôs agir
com base nessa informação – e não numa teoria já formada como o
marxismo-leninismo, ou numa pragmática tradicional, ritual, religiosa, etc. Como
vimos, a ênfase na perspectiva operacional da Sociologia é um reconhecimento de
que não há possibilidade para a ciência social, ao menos como está na atualidade, de definir quais são os dados
últimos.
O importante aqui é que se trata de
uma ruptura histórica – e não apenas da continuidade da perspectiva empirista
do século XIX. Isso pode ser afirmado uma vez que o empirismo daquele século
era apenas um dos itens de apoio ao “positivismo”, cuja ambição era bem ao
contrário, o de uma totalização cientificista do fenômeno humano.
Não me parece que a pesquisa
operacional nesse sentido, o da Sociologia que emergiu depois dos anos cinquenta do século passado,
confrontando-se com problemáticas sociais que só se consubstanciaram após as
duas guerras, seja metodologicamente
equivalente ao “operacionalismo” de
Bridgeman, retomado por Rapoport, por exemplo – conforme relata Bogomólov (“A
filosofia americana no século XX”).
No “operacionalismo” como um dos
ramos do positivismo, ainda que já após a aventura semanticista e portanto na
época de Korzibsky e da pragmática de Morris, a pesquisa do dado não precisando
ser teoricamente amparada, por outro lado é apenas uma etapa no rumo de uma
construção validante de qualquer estatuto de sentido. Operacionalismo nesse
sentido é rigorosamente a limitação do conceito a um conjunto de
operações – que no limite podem se reduzir às de uma consciência
solipsista.
Em todo caso, no operacionalismo, como
em todo neopositivismo naturalista, conceitos ou conteúdos que não podem ser
representados pela multiplicidade de suas operações físicas ou mentais
constitutivas, não tem sentido. Na perspectiva operacional da
sociologia, como vimos, não há mais a sinonímia do que escapa à possibilidade
imediata da ciência com o que não tem sentido em si mesmo.
O “Métodos de investigação sociológica”, com copyright
de1968, da autoria de Peter Mann, incorre em alguns dos inconvenientes de um
tributo demasiado à popularização do assunto científico, não obstante ser ostensivo e útil crítico da redução à mídia do assunto social, mas é proveitoso
justamente por isso a uma apreciação de tendência de época relevante em
sociologia.
Aparentemente aceitam-se as perspectivas já de um senso comum sobre o método científico na base das exigências de sistematização do observável, classificação e generalização dos dados, mas na verdade cada um desses tópicos é sutilmente desacreditado uma vez que se tornam avaliáveis do ponto de vista relevante à pesquisa sociológica.
Aparentemente aceitam-se as perspectivas já de um senso comum sobre o método científico na base das exigências de sistematização do observável, classificação e generalização dos dados, mas na verdade cada um desses tópicos é sutilmente desacreditado uma vez que se tornam avaliáveis do ponto de vista relevante à pesquisa sociológica.
O exame do observável, aqui, está
limitado pela intotalização do observável que implica seletividade do
observador e não universalidade do dado. Essa é uma regra do método em ciências
humanas, quando são propostas irredutíveis às da natureza. Na perspectiva de
Peter Mann, nenhum acontecimento social é redutível a uma descrição que não
possa ser incalculavelmente alongada, e duas descrições, por mais simples que
sejam, não tem muitas chances de coincidirem em tudo por tudo.
A classificação é função dessa
seletividade – ou seja, mais do sistema de valores do observador, do que da
natureza do fenômeno, sendo ainda algo que satisfaz a um sistema de valores
apenas enquanto referencial simples, como sexo ou idade, mas a maioria dos
referenciais são complexos. E quanto à generalização, retorna o problema que
vimos acima com Bottomore.
Na exemplificação de Peter Mann,
Kevin pode ser exemplo de um menino
destinado, por suas complicações familiares, pobreza, pouca inteligência, à
delinquência juvenil que o levou ao tribunal, mas isto apenas é uma correlação
que contempla a expectativa de explicação racional de alguns, aqueles que não
estão nas condições do menino. O que acontece quando, não obstante o caso dele,
revela-se o caso de Gilles, que incorreu num delito quase idêntico ao de Kevin,
mas sendo “o cuidadosamente criado filho de um profissional liberal, educado
em uma escola particular, vivendo em excelente casa num bairro fino e sem
'qualquer problemas de que se pudesse pensar'”?
Além disso, ocorre haver centenas de meninos que nas mesmas condições deficitárias de Kevin, não se tornaram delinquentes. Assim, se indaga Mann: “Onde Giles cabe em nossa generalização?”
Além disso, ocorre haver centenas de meninos que nas mesmas condições deficitárias de Kevin, não se tornaram delinquentes. Assim, se indaga Mann: “Onde Giles cabe em nossa generalização?”
A expectativa de se acharem antecedentes como os da vida de
Kevin quando se trata de delinquência apenas induz a uma generalização que
poderia contar para efeitos de Política social – e não de Sociologia. Na
sociologia o que se constata é que há muitos antecedentes destes na vida de
pessoas que não se tornam delinquentes, não obstante ser talvez boa política
procurar tais antecedentes diante de um caso de delinquência.
O problema sociológico, segundo Mann
é o da causação múltipla. A é mais provável estar associado ao fator Y do que
ao fator Z, mas é próprio da natureza das situações sociológicas complexas
haver provavelmente muito mais fatores atuando do que apenas Y. Somente num
nível muito tosco podemos obter respostas simples, mas esse é o nível que
justamente não satisfaz a um cientista – como demonstra Mann um trecho
mais à frente, nisso exatamente ao contrário do que a um jornalista.
Assim, o futuro da sociologia é
aumentar progressivamente as indagações imagináveis pertinentes, desde um
início dado como base de pesquisa. Ao contrário, o jornalismo tenderá a
apresentar qualquer suposição corrente como resposta cabal a todo problema
concebível.
É essa espécie de intotalização do
interrogatório que faz, ao ver de Mann, o novo estatuto do científico, e não a
capacidade de apresentar respostas. O cientista é agora “o que sabe cada vez
mais a respeito de cada vez menos”, e “o tempo do cientista
'generalista' que sabia-tudo desapareceu de há muito nas ciências” - tanto
as físicas, que se tornaram probabilísticas, quanto as sociais.
Mann é conduzido a uma consideração
que seria esperável a propósito do caráter empírico e do operacional. Quanto a
este, de fato apenas o trata como a delimitação de critérios de definição.
Assim porém o ótimo do operacional seria a mensuração categorial, a partir de
uma escala determinada, o que muitos sociólogos consideram inexpressivo mas a
Mann é pelo menos não-subjetivo.
É altamente subjetivo, por exemplo,
afirmar que um certo subúrbio é da classe alta – lembrando aqui que na Europa e
USA é usual o princípio da ecologia urbana tal que o processo de ocupação do
centro da cidade por empresas implica por um lado a depressão dos bairros
próximos, que passam a zonas marginais ocupadas pelo proletariado das empresas
a baixo preço, e por outro lado à migração dos antigos moradores, as famílias
burguesas, para subúrbios planejados pela especulação imobiliária a fim de se
tornarem lugares de concentração dessa alta classe.
Esse não é um processo imediatamente reconhecível na cidade brasileira, onde os bairros destinados pela especulação imobiliária são, sim, do mesmo modo espacialmente segregados, mas não são chamados “subúrbios” e se opõem ao que assim se designa. Não obstante é claro que há um processo análogo de migração pelos mesmos fatores.
Esse não é um processo imediatamente reconhecível na cidade brasileira, onde os bairros destinados pela especulação imobiliária são, sim, do mesmo modo espacialmente segregados, mas não são chamados “subúrbios” e se opõem ao que assim se designa. Não obstante é claro que há um processo análogo de migração pelos mesmos fatores.
Ao invés de uma dicotomia de
classe alta /baixa, é menos subjetivo, segundo Mann, e conservando o exemplo,
usar uma escala de categorias em cinco classes, o que vai proporcionar
correlação entre fatores como ocupação e moradia, tal que alguma generalização
de vizinhança possa ser feita. Mas como vimos, não é só esse o escopo da
pesquisa operacional se ela contem um elemento de crítica a demais possibilidades
de generalização teórica. Assim esse aspecto em Mann é contemplado ao
examinar-se a questão do empirismo.
Ele não chega a salientar que sua
própria escolha em tratar a sociologia como “investigação” implica uma séria
restrição "empírica" do campo científico, o que vimos suficientemente
ressaltado em Wootton e Bottomore.
Ao invés disso por um lado Mann
pretende manter-se dentro do que seria uma atualidade da ciência em geral, e
assim não liga a “investigação” a uma reserva muito profunda em relação à
veleidade de exatidão e objetividade no sentido da sociologia como “uma
ciência” que “ será sempre vista buscando estabelecer uma estrutura bem
unida na qual se possam relacionar generalizações”, sendo essa estrutura a
"teoria" na acepção do método em função de que somente se podem
avaliar resultados.
Mas por outro lado, como salientamos
ele está sempre circunscrevendo os limites da exequibilidade dessa mesma
posição. A seu ver o sociólogo não pode, de fato, se furtar de todo ao que os
Webb chegaram a considerar “uma lei mental que os fatos que parecem
confirmar sua própria opinião preconcebida sobre as coisas causarão maior
impressão no estudante do que os que parecem apontar no sentido oposto” - e
assim é “mais do que qualquer outro cientista”, segundo Mann, que o
sociólogo devia precaver-se quanto a isso.
Quando se trata da relação de
empirismo em sociologia, Mann parece estabelecer com algum critério o que é
realmente científico quanto à natureza da investigação. O empírico é o prático,
a experiência oposta à teoria ou ciência, conforme o dicionário citado, ao invés de como usamos habitualmente na ciência, a pesquisa dos fatos, mas para Mann
seria mais correto afirmar que é apenas a base da teoria.
Uma dona de casa e um mecânico de
automóveis, assim como uma operária de fábrica, são empíricos no sentido de que
compreendem as ações que executam. Mas
tanto a dona de casa quanto o mecânico em seus respectivos afazeres, a operária
que corta pequenas barras magnéticas de pedaços de aço nada sabe do porque o
imã assim produzido se comportar como o faz. Se algum dia ela se perguntasse a
si mesma “como você faz imãs?”, isto é, se ela se desse conta de que
havia mais perguntas a fazer do que apenas quais botões apertar além de quais
gestos de cortar eram os necessários,
então teria ultrapassado, dentro do nível empírico, o senso comum no
rumo do científico.
Isto é, teria ultrapassado o bastante
para a ação pela finalidade de construir uma teoria. Assim porém para Mann a
teoria que seria uma tentativa de resposta, apenas é tanto a soma de “generalizações
amplas que levam o pesquisador a novas indagações quanto os enunciados precisos
de inter-relações que auxiliam a acertar algumas das pontas soltas da
compreensão”, e o que a teoria deve liberar é a formação de hipóteses explicativas
tais que delas é que partem os objetivos de uma pesquisa nesse sentido de
“investigação” - unicamente investigação dos fatos (dados) a partir de fontes
(documentação, pessoas), amostragens,
entrevistas e questionários.
Uma pesquisa sem hipótese seria como o
ajuntamento caótico de notas de observação sem que depois o pesquisador
soubesse o que fazer delas. Mas como constatamos, a pesquisa é apenas o
levantamento dos fatos sob a orientação de uma hipótese.
A meu ver o que está sendo relativizado
nesse contexto é precisamente a noção de fato assim como Rocher cita em termos
de princípio estrutural a partir do que recolheu em Nicolas Ruwet. O
estruturalismo seria generalização da perspectiva sincrônica que primeiro foi
descoberta somente pela linguística. A sincronia nos dá o fato (imanência) e só
a partir de o termos podemos colocar questões de diacronia como origem e
evolução.
Uma pesquisa operacional ou empírica, inversamente,
tem isso de irônico. O “fato” que ela levanta não é o princípio de sua teoria
como função, nem é o sistema que ele supostamente exemplifica na sincronia. O
fato não é “analítico”, mas referente a um uso já em trânsito na linguagem, que se trata
então de verificar quanto às conexões do próprio uso - quando é o caso de se compreender a linguagem, uma vez que em se tratando de sociedades não-ocidentais, o pesquisador ocidental teria que obter algum meio de aproximação linguística ao invés de pressupor que compreende imediatamente o que é dito.
Como vimos no exemplo da
criminologia, primeiro há o problema concreto da “patologia social” - taxas do
que é considerado crime ou disfunção, instituições cuja existência histórica é
relativa ao problema, etc., mas começar a tratá-lo do ponto de vista científico
na base de prover uma definição a priori de "crime", como no viés analítico, se considera agora uma
das conexões do problema concreto, assim como quaisquer generalizações
irrefletidas na acepção de não suportadas por demonstrações “de fato” (pesquisa
dos dados).
Na verdade quando se estabelece o
estruturalismo, após o predomínio analítico do funcionalismo, o que não se
encontra registrado pelos historiadores da sociologia que estamos examinando é
que como sublinhei houve uma decisão de solvência das ciências humanas. O
estruturalismo é tão analítico na acepção de fornecer uma teoria geral em vez de apenas métodos operacionais, quanto o funcionalismo, mas aprofunda o papel da
definição a priori a ponto de considerar a própria posição do uso em trânsito
como epifenomênica. O mais importante da validação dos dados é censurado como
pesquisa pertinente.
Obviamente como qualquer
perspectiva analítica, trata-se apenas de escamotear o fato de que não se pode
estar lidando senão com um horizonte de fatos empíricos pressupostos. A
falácia aqui é que o estruturalismo realmente pode detectar a ambiguidade
funcionalista de lidar com o irredutível da alteridade cultural, ao mesmo tempo
que mantendo o horizonte universal de organismo e função, mas ao transpor a
estrutura para o fenômeno dessa alteridade, não escapou à mesma ambiguidade na
medida em que a sincronia é a mesma veleidade de um outro-universal.
Na medida que o neopositivismo
ignora o problema que ambos tangenciam, realmente a perspectiva empírica
poderia ser alvo da crítica de ignorar o problema da linguagem e a alteridade
do sentido, mas de fato o leque de opções abrange algo mais que somente estas
três perspectivas, funcional, estrutural e neopositivismo, como estamos constatando.
A conservação da ciência social se fez somente nesse
plano do empírico recontextualizado na conscientização da relatividade do fato
à pesquisa, contudo de uma realidade
posta por um uso na linguagem. Aqui o cuidado é justamente com a
irredutibilidade do sentido, a intradutibilidade, etc., o que então passou a
ser equacionado na pesquisa de campo como por exemplo se nota em John Beattie
(“Antropologia social”). A ciência social se tornou, por seu empirismo ou
operacionalidade mesma, antagônica do “neopositivismo” universalista
cientificista, num lance que ainda está por se conceituar devidamente.
Ora, nessa altura dos inícios da
segunda metade do século vinte, temos
por um lado a tríplice conjunção de alto-funcionalismo (parsoniano), estruturalismo emergente (straussiano) e persistência
do cientismo neopositivista que vai desaguar em nossos dias na preponderância
da técnica (analogia informática) e neurociências pretendendo, como no antigo
ideal do círculo de Viena ao naturalismo de Nagel, fornecer a universalidade
dos fenômenos humanos. Podemos já avaliar como o embate entre a terceira
tendência e outras duas é mais aparente que real.
De fato, o funcionalismo e o
estruturalismo não chegaram a uma ruptura para com a universalidade na ciência,
mas a estenderam ao que seria a possibilidade de abranger a alteridade radical.
Então começa a despontar esse outro nível da ruptura epistemológica que está
ainda por ser interpretado à luz dos acontecimentos históricos tais que
conduzem a uma ruptura tão profunda quanto se pode apreender pela emergência da
terminologia da pós-modernidade.
Neste outro nível vai sendo sempre mais
evidenciada a impossibilidade da tese da universalidade dos fenômenos humanos
na acepção de sócio-históricos e político-culturais. Não há uma causalidade
profunda que explique porque em algumas sociedades o casamento é poligâmico, e
em algumas é monogâmico, tal que pudesse haver decisão sobre qual dos dois
tipos é mais coerente à natureza humana.
Como Wilhems salientou, em mais de
duzentas sociedades estudadas, não houve uma generalização possível das formas
de interligação de instituições, por exemplo, do casamento e da produção
econômica. Isso é o contrário de tudo o que pode caucionar as perspectivas das
três correntes apontadas, funcional, estrutural e neopositivista.
No entremeio, contudo, a surgência da
rubrica da “sociologia do terceiro mundo” vimos que não foi bastante para
precipitar a viragem terminológica de que se trata. Mas isso não é razão
suficiente para descartarmos a hipótese de sua conexão ao que quer que tenha
desencadeado tal ruptura histórica.
Creio que é importante deter-se na
demonstração de que o surgimento da noção de “mapa mental” que acima estudamos,
no funcionalismo, assinala no interior
deste a viragem anti-tradicionalista – lembrando que pelo contrário, o tradicionalismo
foi o carro chefe do funcionalismo pioneiro. A extensão universal de sociedade,
que sucedeu dentro do próprio funcionalismo a sua primeira oposição de
gemeinshaft e geselshaft, como vimos não significou porém de modo algum a obsolescência da divisão
classificatório-teleológica entre primitivo e civilizado.
Pelo contrário, anulou o potencial
de crítica anti-capitalística, e anti-modernizante nessa acepção imperialista, que portava o
conceito de gemeinschaft ainda que com todas as ambiguidades e limitações que
lhe foram próprias. Assim o que era a gemeinshaft ou não-moderno-ocidental ou
não industrializado-tecnológico se reconceituou por uma nova concepção de sua
anterioridade. Como sempre fôra anterior, e não simplesmente independente,
agora era porém o destinado às etapas da modernização.
As consequências
históricas dessa viragem conceitual também ainda estão por serem avaliadas, o
que podemos notar como pertinente pelo fato de que elas se revelam muito longe
de poderem caucionar a isenção da sociologia em relação à política social que
pretendera Peter Mann e a perspectiva operacional limitada a prospecção dos fatos. O que podemos notar a propósito do terceiro mundo, onde o contexto importado das ciências determina políticas sociais dirigistas, e uma verdadeira ciência operacional está ainda por nascer.
... desde aqui, o texto é acréscimo ao blog em 2019 ...
... desde aqui, o texto é acréscimo ao blog em 2019 ...
É verdade que seria ignorância desconhecer o fato da pesquisa existente, mas o que ocorre é que as políticas dos governos não se referenciam ainda costumeiramente decorrente do conhecimento do que elas localmente revelam. A clivagem de esquerda e direita mantem em comum a dependência econômica e/ou ideológica ocidentalista. Este caráter singular, parcial, da interlocução às ideias ou técnicas se mostra paralogicamente obstáculo ao que concede sentido ao desenvolvimento delas, as decisões articuladas à sua capacidade de fornecer informação efetiva.
Mas seria também incoerente que desde a segunda metade do século XX, quando o conflito leste/oeste estava se transmutando na evidência do que o embasava como conflito norte/sul, o terceiro mundo ficasse na abstração total da sociologia. Não que isso não fosse o desejado do marxismo, como se expressa manifestamente Fredric Jameson em seu "mapeando os sixties", onde assevera injustificadamente que após as guerras de descolonização e após Cuba, já nos anos setenta o terceiro mundo deixava de ter importância na produção de ideias ocidental. Jameson omitia assim que na África as guerras de descolonização avançaram até os anos oitenta, com os Estados Unidos numa coalização com as nações europeias colonizadoras que se traduzia por exemplo na Unita de Jonas Savimbi,
denunciada pelo namíbio Nujoma
como criminosa, atuando juntamente com
neonazistas contra a independência, que
era financiada por Reagan e Margareth Tatcher,
os introdutores históricos do neoliberalismo
econômico.
A estimativa de Nujoma a propósito do andamento da guerra de libertação nacional, estimativa visada no bojo da transição do conflito leste oeste a norte sul, estudei em meu livro recente "Riqueza e Poder, a geoegologia", lançado pela Quártica, que porém a editora ainda não colocou na Internet, onde já estão circulando meus títulos anteriores como na "estante virtual", podendo o novo ser requisitado ao meu email ou ao editor.
Como comprovei neste meu livro, em que consta a história do capitalismo midiático americano, das intervenções imperialistas nas nações do terceiro mundo e do caráter predatório da dominação de multinacionais, e onde exponho a meta-teoria 'geoegológica' que à frente examinaremos, formava-se na década de oitenta um período dramático quanto à questão do terceiro mundo. Pois também estava havendo avanço bélico do imperialismo norte-americano na America Central e no Afeganistão, prosseguindo a política intervencionista inaugurada logo após 1945, que Cl. Julien havia desvendado nas suas ramificações para-legais ou golpistas. A intensificação aparente do conflito leste oeste por Reagan na verdade mostrava-se já a realidade do conflito norte sul.
Nessa época se pode constatar porém que um novo consenso do conflito leste oeste havia se estabelecido em torno do "corporate state" como uma forma de controle social amplamente exitosa. Típica das superpotências, URSS e USA, anulava-se assim pelo novo consenso, tanto o aspecto competitivo de ambas, como se o mundo houvesse atingido uma coexistência integrada, como também as oposições políticas, que estavam, inversamente ao que se dizia, crescendo no interior de cada uma.
O 'consenso' considerava que o Estado havia se tornado completamente coordenado ao capital imperialista, ou, na União Soviética, ao imperialismo ideológico que abarcava do mesmo modo que no Ocidente as possibilidades de integração social empregatícia e cultural, coibindo somente a crítica da cultura por defasagem calculada de instituições de produção intelectual.
Mas como vimos o que realmente acontecia era o incremento do conflito norte e sul, o que a Leste se traduzia pela oposição crescente ao regime sovieticista. Ao longo dos anos oitenta a dessovietização de 1991 era inimaginável, mas ocorre quase concomitantemente à "globalização' que significa recolonização do terceiro mundo pelo caráter inviável da independência do capital e ideologia local a partir da ocupação das multinacionais integradas planetariamente pela dominação info-midiática. Já desde a segunda metade da década de noventa a cartografia planisférica se define pelo conflito norte sul, com uma linha entre os dois hemisférios classificados como respectivamente desenvolvido e subdesenvolvido, com exceção da Austrália que fica alinhada ao norte, e com inflexão da linha asiática para colocar ao sul regiões acima da divisão equatorial. Assim seria esperável uma sociologia do terceiro mundo, especificamente composta pelos seus problemas e informações correlatas. O que realmente se produziu devemos agora examinar.
A Sociologia do Terceiro Mundo e a "geoegologia"
Entre os anos setenta e a plena conscientização do imperialismo como determinante histórico, o que se poderia designar uma sociologia do terceiro mundo cresceu a partir de temas da realidade local que gradualmente agregaram-se ao repertório sociológico. Esses temas abrangem a dependência tecnológica e
demais obstáculos ao desenvolvimento, assim muito relacionada ao objetivo desenvolvimentista. Como exemplo de considerações de obstáculos, já vimos algo a propósito com Lacoste. Há também uma tematização importante do latifúndio, estudado entre outros por Tourraine.
O latifúndio ou plantation não apenas representa a posição agrário exportadora para países que assim tem limitada a industrialização por se reduzirem a importadores do norte, como também perpetuou o escravismo por mecanismo de dívidas que passavam de pai para filho, oriundas das compras de subsistência que os lavradores tinham que fazer porém do próprio patrão. Assim também reportavam-se condições subhumanas de tratamento aos lavradores. Até agora os conflitos do campo no Brasil são traumáticos, com o monopólio da violência exercido pela classe dominante.
A mecanização parcial do campo que vem ocorrendo desde a época de inícios desses estudos num status internacional, nos anos setenta, apenas resultava na migração do lavrador à cidade que se tornou superpovoada por favelas onde o crime organizado tornou-se a regra, hoje havendo assim porções urbanas comandadas por leis próprias, de cunho bárbaro indiferente à constituição.
Até aí a literatura sociológica que o público pudera conhecer limitava-se a publicações de artigos de sociólogos europeus ou norte-americanos. Os temas do terceiro mundo, enfeixados sob a rubrica do subdesenvolvimento eram oriundos de investimentos desses pesquisadores estrangeiros. Graças a publicações populares, como a "biblioteca de ciências sociais" da Zahar, traduzia-se muito da produção internacional e assim sabia-se tudo sobre a cidade inglesa, ou sobre os resultados de pesquisas sobre o soldado norte-americano e a burocracia norte-americana, porém não havia publicação de informações sobre a cidade brasileira ou sobre os processos de acomodação capitalística, exceto de escritores na oposição á ditadura, que eram porém ou de formação historiadora como Wernek Sodré, ou assim se produziam por haver necessidade de compreender os acontecimentos recentes do golpe ditatorial à invasão da economia pelas multinacionais, como R. Dreyfuss. Há hoje uma "nova biblioteca de ciências sociais" da Zahar, integrando estudos de autores brasileiros, porém continua a ser referencial as produções clássicas internacionais.
Seria inverdade não considerar o crescimento de produções de sociólogos brasileiros, como o mais famoso por ter sido presidente, Fernando Henrique Cardoso, porém eles agrupavam temas que não se tornaram populares a partir de publicações destinadas ao grande público. Os que se tornaram referenciais operavam conforme paradigmas já bastante obsoletos, tendenciosamente religiosos ou preconceituosos como o catolicismo pan-americano de Gilberto Freire ou o germanismo de Buarque de Holanda votando de modo racista o subdesenvolvimento ao que seria a preguiça herdada do colonizador português contrariamente ao denodo calvinista, etc. A pesquisa universitária operacional continuou desconhecida do público leitor.Quando o pós-modernismo se tornou um referencial em curso, desde os anos noventa, começou-se a empregar a rubrica da "teoria pós-colonial". Relaciona-se especialmente à realidade afro-asiática após a descolonização, que apenas repetiu o que se constatou nas Américas central e latina, ou seja, o imperialismo após o colonialismo. Franz Fannon tornou-se um referencial na cobertura da problemática do imperialismo racista na África.
Homi Baba e Eduardo Said podem ser exemplos da teoria pós-colonial, como visões opostas. Enquanto Said em Orientalism mostrou como o saber sobre o oriente se construiu como visão do ocidente coordenada às estratégias colonizadoras, que refletia porém estereótipos do machismo e do racismo, inversamente a uma interlocução racional, Baba considerou psicanaliticamente o preconceito contra o colonizado.
Como nessa época já estava muito corrente a translação especialmente operada pelo estruturalismo lacaniano, do preconceito de gênero sexual, o machismo, como fundamento inconsciente de todas as assimetrias políticas possíveis, assim Bhabha interpretou o preconceito colonizador e a ambivalência a ele ligada, entre o desprezo e a utilização, como mecanismos inconscientes metafóricos e metonímicos que inscreviam a cor como "diferença" - o que angustia se descoberto mas causa prazer se encoberto.
Creio que Bhabha criticou de modo oportuno a concepção dualista da cultura como por exemplo no escrito S. Heath, cujo personagem adotava dupla autoreferência, o da lei americano, Mipe, e o do desejo mexicano, Miguel. Inversamente ao dualismo e à miscigenação como alternativa, a questão para Bhabha seria mais apreender a realidade independente do estereótipo construído pelo conflito imperialista. Porém se isso é válido para o dualismo racial, não creio ser tanto para a questão da mistura cultural, como pode ser pensada historicamente. Também creio que Bhabha não considerou o aspecto sócio evolucionista da própria psicanálise, e que Eduardo Said estava mais correto ao tangenciar a questão do saber, que é o correlato desse aspecto.
Mas a teoria pós-colonial, que a meu ver pode ser considerada uma extensão da sociologia do terceiro mundo, e inclusive se beneficia muito da informação operacional contra as totalizações monolíticas ocidentalistas, exibe uma contradição histórica, por isso que se desenvolveu paralelamente à recusa dos marxistas de integrar o "terceiro mundo" como realidade geopolítica.
Assim o próprio Jameson, que não obstante sua "periodização" já reportada, repetiu nos anos oitenta uma constante do subdesenvolvimento do terceiro mundo como mentalidade local pré-ego-lógica, anterioridade do split público-privado que se traduziria numa literatura local ante-modernista e sempiterna realista, foi criticado por Aljaz Ahmad do Paquistão, porém não por ter discriminado o terceiro mundo numa posição sócio progressista já superada.
Ao invés, Ahmad se insurge como marxista contra o próprio conceito de terceiro mundo, supondo que só há uma realidade sócio-histórica internacional como conflito de classes. Como podemos redarguir, porém, o conceito de "mundo" é um heteróclito que só se torna inteligível com um complemento que o especifique como por exemplo mundo moderno ou contemporâneo, o que é o caso quando se conceitua terceiro mundo como o conjunto das nações (pós)-coloniais sob regime de dependência econômica no imperialismo.
A realidade do planisfério atual norte sul até tornaria desnecessário salientar isso, com o terceiro mundo sendo o sul já mapeado, porém é algo que me parece oportuno, devido a insistência da posição marxista. Assim também como já vimos, o capitalismo sem imperialismo não haveria, pois seria reduzido a uma saudável economia nacional. Se há luta de classes é porque o imperialismo existe como a escala necessária de proventos para possibilitar a dominação de classe numa sociedade localizada.
Contudo parece assim restar na mesma posição contrária ao pós-modernismo que a de Jameson, uma vez que o pós-moderno questiona a totalização, e, como vimos, a teoria pós-colonial é um dos seus integrantes.
A referência jamesoniana ao realismo no terceiro mundo não seria assim fortuita, uma vez que a sociologia do terceiro mundo emerge paralelamente ao rise da literatura americano-latina inovadora que seria típica do pós-modernismo pelo retorno do texto e tematização histórica. Mas os teóricos iniciais do pós-modernismo, que repetiam o consenso do corporate state, julgavam que ele era um fenômeno de mercado ocidental, mesmo se a sua produção fosse multicultural e a história já se tematizasse apenas nesse sentido situado na margem, o terceiro mundo ou esmo que fosse uma margem situada dentro do Ocidente, como da mulher ou de minorias étnicas. Alguns como Hutcheon integravam a literatura americano latina no pós-modernismo ocidental, outros como Jameson trataram de a reduzir a realismo.
Que é um realismo de realidades de consciência e linguagens irredutíveis à do ocidente, críticos latino americanos como Xirau e Jorge Enrique Adoum afirmaram, mas assim sem negar as produções modernistas que inversamente aí estariam integradas numa síntese inovadora porque mais autêntica como expressão da consciência local. Logo, eles estavam raciocinando na antecedência de um vocabulário mais exato como do "pós-modernismo", o cenário em que a dicotomia dualista totalizante do primitivo e civilizado estava superada. Tanto porque não restavam horizontes não cooptados pelo "ocidente" capitalista ou sovieticista, como porque a antropologia já mostrava a impossibilidade de classificações totalizantes devido à heterogeneidade das sociedades e o fato de serem realidades históricas e geopolíticas, inversamente à restrição mítica do primitivo que antes se atribuía.
Na verdade como marxista, violentamente contrário ao pós-modernismo devido a essa mesma superação assim como também Terry Eagleton, Jameson propôs radicalizar o sócio progressismo como dicotomia do primitivo e moderno ocidental, que como vimos já estava criticado pelo fato do marxismo ter tido que se culturalizar, tanto pelo humanismo funcionalista como pela convergência com os movimentos de descolonização. Se como verificamos, as propostas estruturalistas não ultrapassaram de fato a oposição, ao menos elas o pretenderam, inversamente à radicalização jamesoniana.
Ele julgou o pós-modernismo ocidental como uma lógica cultural do capitalismo atual que seria sem ideologia, midiática puramente. Provavelmente sua teoria do terceiro mundo é um modo de resolver a questão cultural supondo-se que para modos de produção que não são as desse capitalismo tardio.
A meu ver, que se trata de dominação info-midiática é certo, porém a função é preencher o papel que antes era o da teoria desenvolvimentista, ou seja, erigir ideologicamente o modelo do centro a ser copiado pela margem para uma oposição construída somente pelo mesmo papel. Como já referenciei os estudos de Halberstam e Julien, seria muito inverídico considerar a mídia não ideológica, operando apenas por mecanismos redutores da recepção ao signo inconsciente. Inversamente, não considero que as produções culturais sejam todas redutíveis a mídia, assim o vídeo alienation de Lathan e outros, que Jameson considerou como exemplo, a meu ver exibe influências sim mas do "balé mecânico" do dadá modernista F. Leger, sem que isso impeça ter tematizado referenciais da época de sua produção, sendo o movimento pop um neodadá inicialmente designado. E já o pós-moderno provavelmente irredutível ao pop, mas por ter acentuado decisivamente o investimento na história da arte, modo pelo que tematiza a realidade contemporânea.
Também não creio que Jameson tenha compreendido o capitalismo tardio pela contradição que ele expressa ao afirmar que é uma economia pós-nacional mas ao mesmo tempo que o terceiro mundo seria ainda nacionalista, quando só pode se globalizada por abarcar o terceiro mundo como desde sempre é a realidade do capitalismo.
Em todo caso, vemos que a sociologia do terceiro mundo se imbricou a uma realidade muito ampliada de sua problemática na era do conflito norte sul. Com a revivescência do marxismo no terceiro mundo com exceção das regiões sob dominação islâmica, e o crescimento da dominação capitalista info-midiática, ambos anti-sociológicos tanto como anti-"teóricos", há uma tendência da sociologia do terceiro mundo tanto como da teoria pós-colonial de solver-se no questionamento geral da globalização, feito porém pelo ângulo do norte, onde a liberdade da produção acadêmica subsiste junto com o rico fomento orçamentário das instituições e autores.
Mas isso pode significar um novo horizonte de crítica que revitalizaria a sociologia "no" e "do" terceiro mundo. Ou a evidência de que a mudança da mentalidade na globalização info-midiática está ensejando novos contextos de produção cultural por vir. Seja como for, creio bem nítido que a generalização completa da superação da dicotomia primitivo-civilizado, não obstante o quanto o mapa do conflito norte sul parece apenas a mesma coisa que ela, é o requisito necessário ao retorno do questionamento político. Uma vez que a dicotomia é a estrutura do imperialismo.
Assim vemos que o mapa é uma imagem ambígua, entre vermos um mundo articulado por duas funções complementares, ou dois mundos que se contradizem na lógica do mesmo modo de produção globalizado. Essa ambiguidade indecidível é a mesma do sentido de "modernidade" como racionalidade progressiva da espécie mas ao mesmo tempo agência de um Sujeito da História, o ocidente capitalista-comunista, que só pode se colocar nesse status frente a uma alteridade como oposto anterior a si. A rememoração da modernidade como referencial da construção opositiva é então uma das tarefas importantes da kritikultur, por onde se deveria apreender as contradições subjacentes ao crescimento mesmo da consciência europeia e ocidentalista em geral na modernidade, a propósito da relação entre apropriação, alienação, capitalismo e imperialismo. Assim temos uma interlocução construtiva aos referenciais da teoria política como abrangência de temas relevantes, a que a possibilidade de pesquisa operacional e a singularidade da cultura local acrescentaria as mudanças e refutações necessárias.
Aqui reporto a minha contribuição à sociologia do terceiro mundo na consecução da meta-crítica da modernidade a que designei "geoegologia", termo composto dos étimos "geopolítica", ego e logos.
A modernidade como geo-ego-logia é como coloquei ao longo deste escrito, a construção paradigmática da meta-teoria ego-lógica como geopolítica opositiva do "centro" ou ocidente sujeito da história, e da margem como a cópia futura do trajeto do sujeito assim como também a antecedência ou passado arcaico dele mesmo. A meta-teoria egológica ou modernidade subsume pois todas as teorias constituídas na sua imanência e integra num senso-comum generalizado as ciências humanas. As constantes metateóricas da geoegologia são pois as categorias de análise do "discurso do primitivo", o modo como a oposição do moderno ocidental ao que supõe ser anterior a si se mostra subjacente a qualquer produção teórica da modernidade ocidental, podendo pois serem usadas por pessoas interessadas na recuperação do sintoma do desejo ocidentalista manifesto numa teoria ou texto que deseje examinar.
Alter-egologia podemos considerar o efeito geoegológico na margem, como o discurso do letramento local limitado a cópia das teorias desenvolvimentistas do centro. Na alteregologia ocorre depreciação conspícua de qualquer veleidade de produção local para objetivos de curriculuns institucionais universitárias e política de mercado editorial, assim como projetos políticos efetivos. A análise do discurso alteregológico enfatiza estas invariantes que se imbricam a ingerências calculadas do imperialismo na educação e comunicação em massa. O perfil do alter-ego do centro é bem típico. Conforme a praxe se deprecia perante o criador importado, não admite criação local. Não concebe um processo autônomo da cultura relacionada à démarche da história local, mas supõe que está possibilitando que a cultura venha pela virtude do modelo a existir, e que está inaugurando a história como projeto futuro. Mensura seu valor teórico somente como reprodução fiel do modelo, que na verdade porém é seletiva para objetivos de aplicação de receitas supostas desenvolvimentistas porém com oclusão da base imperialista. Em termos histórico-sociais, a alteregologia funciona na base econômica mesma, por ser escalonamento de classe o estatuto do modernizador, versão atual do herói civilizador da lenda. As verbas e organização institucional seguem o modelo alteregológico. Um exemplo conspícuo é a Usp, que inaugurou no século passasdo a faculdade de filosofia local, porém com importação de professores a princípio franceses, com um locus definido para o achincalhe dos produtores de textos filosóficos e teórico sociais brasileiros que vinham produzindo desde a independência e se intensificando nas campanhas do republicanismo e abolicionismo. O achincalhe do produtor local continua, até radicalizando-se não obstante a internet aparentemente ser um meio de circulação livre de publicações.
As categorias analítico-discursivas geoegológicas se instituem pelos paradigmas desenvolvimentistas da modernidade. São estes construções opositivas do moderno e anterior, desennvolvido e subdesenvolvido, para um conceito de desenvolvimento que portanto é paralógico na medida que do contrário deveria ter por critério apenas a qualidade de vida, o idh (índice de desenvolvimento humano) que mensura os itens qualificáveis como saúde, longevidade, habitação, alimentação, liberdade política, etc. Os paradigmas desenvolvimentistas opositivos podem ser enunciados como vimos até aqui, pela sucessão do Romantismo, Positivismo, funcionalismos e estruturalismos.
Já estamos considerando suficientemente ressignificado o capitalismo como assimetria internacional do capital, colonial imperialismo, monopolismo da exploração colonial imperialista por meios variados desde as concessão do rei no "antigo regime" até as organizações de cartel multinacionais da atualidade empresarial. O próprio conceito de modernidade se relativiza, pois o antigo regime colonial escravista seria apenas a retomada do antigo capitalismo imperial helenista.
Mas se o construído na oposição centro margem, moderno e primitivo, é um Sujeito (da História), podemos convir que deveria repetir as coordenadas da teoria do sujeito. Se o sujeito pensável é realmente um fator exclusivamente moderno ocidental, ele provém contudo da heterogeneidade cultural oriunda da colonização. O sujeito tornou-se pensável no bojo da explicação da cultura assim descoberta desde o romantismo, na emancipação das colônias.
Aqui, em todo caso, a psicanálise se torna útil como referencial geoegológico por ser uma teoria radicalizada da subjetividade a partir da noção de inconsciente. Sendo pois o enunciado de um desejo, aquilo que suporta um correlato outro de saber, do mesmo modo que a teoria ocidental postula cientificamente a alteridade colonial mas na verdade como o correlato do seu desejo de dominação.
A teleologia do Édipo pressupõe igualmente uma teoria do objeto que mesmo tendo sido capaz de colocar a questão do relacional - conceitos que como o de gênero feminino e masculino só fazem sentido pela relação de um e outro - na verdade se erige ambiguamente conforme o dogma da ciência, um objeto/signo ideal contraposto a todo outro.
A ambiguidade sintomática da psicanálise se espraia assim a uma teoria geral do objeto, uma vez que as fases ou posições do inconsciente seriam possibilidades do que podemos designar objetualidade, com apenas uma ("genital") sendo porém a que corresponde ao sujeito epistêmico.
Podemos então observar como os paradigmas correspondem a objetualidades das fases ou posições.
O romantismo oral, conveniente à descolonização americana que facultou o imperialismo subsequente, realmente pensava na pluralidade as nacionalidades, os valores numa polissemia do universal, visto que a problemática do desenvolvimento não dependia da variável abarcar a própria subjetividade e uma retórica do bom selvagem pudera perseverar.
O positivismo sádico-anal como discurso do imperialismo operou a redução do ser humano ao meio ambiente, do sujeito ao objeto "produção", unificando o objeto na oposição mais radical da margem à civilização. O primitivo brutal da horda originária justificava o imperialismo biologicamente racista tanto como direito do mais forte ao domínio como empresa civilizacional da espécie.
Ao superar-se a biologia racista pela emancipação da cultura funcionalista e pela biologia genética, vemos que uma fase fálica, de dúvida ou dilema de ciência e cultura, auto-consciência e alteridade, como no "círculo hermenêutico" que ao mesmo tempo faculta a ciência social e a restringe como "interpretação" , se propaga de um modo tão característico como podemos ver pelos textos dos autores representativos, eivados geralmente de acalentadas contradições ostensivas. Assim o selvagem tanto conserva a brutalidade infantil que os positivistas atribuíram como agora é também o criador da arte, e o vemos como sujeito da sensibilidade espiritualizada, etc.
A objetividade genital dos estruturalismos deveria ter criticado a oposição mesma, conscientizando-se como fez do estatuto apenas "simbólico"sistêmico do objeto científico. Porém como vimos o limite da teoria do objeto atuou como o sintoma geoegológico do desejo ocidentalista, a oposição relançou-se.
A dominação info-midiática representa pois, compreensivelmente, uma neoanalidade redutora da consciência ao objeto imperativo da produção, com um discurso ostensivo da anterioridade anulada para objetivos de enunciação do sentido.
Como já coloquei, o papel da dominação cultural ou ideologia nesse sentido se faz agora preenchido pela indústria info-midiática, o que também é consequência do pós-modernismo na ciência já recusar construir novo modelo dicotômico do centro e da margem. O imperialismo necessita portanto, de um novo meio da dominação cultural.
Agora o objeto imperativo sádico-anal que no positivismo clássico era a produção industrial, é a máquina computacional que personifica o "ocidente" ora designado o norte desenvolvido, assim como restringe o sentido a sujeitos correlatos da sua atuação, novo mito do "jovem", do super-homem neo-nietzschiano, do proletário futuro, etc.
Mas do mesmo modo, sob a subsunção deste imperativo, a dominação info-midiática reifica o culturalismo funcionalista, produzindo esterótipos político-midiáticos que reduzem as questões dos grupos sociais heterogêneos a objetivos de arquétipos factícios do "poder", assim capitalizando porém pela demagogia os focos de produção cultural e movimentação política em meras áreas restritas aos investimentos de propaganda e capital, neutralizando o potencial contestatório. O "tipo" visa subsunção completa do sujeito, que precisa agora se repensar.
Nas produções teóricas internacionais o recentramento neoanal da globalização tem se manifesto com a frequência esperável da situação considerada, o que torna a crítica geoegológica particularmente aplicável.
Examinando algo ligeiramente o recentramento, algumas características notáveis podem ser constatadas.
O corredor único mídia/ educação funciona como aparato cerceador da teoria e escrita, uma vez que a máquina internet das marcas multinacionais monopolistas cerceiam os espaços e condiciona escolhas. Nas escolas a praxe docente coordenada pelas políticas de diretorias é de total subsunção à tecnologia importada, sem crítica ou qualquer discussão sobre os programas de escrita projetados pelos interesses unilaterais, exclusivos das logomarcas imperialistas. Aqui há um monopólio da Microsoft, com os computadores vindo das lojas com o seu programa. Estes interesses são ostensivamente relacionados à diversificação da atenção para objetivos de desviar o interesse pelo pensamento e estudos humanísticos para recepção intoxicante do fascínio de massas.
O fascínio de ídolos midiáticos cujo direcionamento ideológico na atualidade é nitidamente de tipo fascista, bem oposto aos subjetivismos libertários das décadas anteriores. Não se enaltece alguém sem que se produza lateralmente um inferiorizado para contraste a partir de relações mútuas tão fantasiadas quanto fixadas de modo persistente no discurso midiático. Mostra-se o discurso do ídolo dirigido pelos produtores do business de mídia, inclusive manifestamente contra pessoas ou costumes democráticos e cultivo dos estudos humanísticos. O fascínio do ídolo, paralelo ao qual só se propagam fanatismos religiosos de índole despótica com penetração de massas nitidamente imperialista que se insurge até mesmo contra a religiosidade pacífica de âmbito privado, funciona como intertexto subliminar dos "bate papos" on line possibilitados pelos programas recentes de páginas coletivas, que assim reoperam o travestimento fonologista da escrita enquanto disseminam-se contra a escrita autônoma a partir dos direcionamentos dos programas da logomarca, como já observamos.
O corredor único mídia escola tampouco estimula reflexão sobre o fato mesmo da dependência tecnológica, agora também empresarial uma vez que as operadoras são multinacionais, ou sobre os reflexos reais do "importacionismo" na economia, etc. Tem sido a constante, mesmo se um computador pessoal custe mais do que dois salários mínimos geralmente, salvo ofertas transitórias na propaganda, e o custo com tintas e manutenção seja oneroso, num contexto de predominância estatística da população com renda deficitária.
Já o search" de internet é um instrumento de contra-informação ostensiva, ao menos neste país, pois as páginas iniciais veiculam muitas vezes apenas artigos com dados falsos, principalmente a propósito de temas capitais à atualização do horizonte teórico, ou minimizam a oferta de publicações que poderiam ser gratuitas on line, tanto amostras do pensamento atual como por textos canônicos muito comercializados que já permitem portanto circulação em domínio público. Mesmo quando se trata de informação sobre temas clássicos as distorções ideológicas destes artigos de primeiras páginas ou mesmo dos quadros apostos à página como informação veiculada pelo provedor são nítidas. Porém a exortação de que na internet o search apenas exibe publicações não controláveis quanto à qualidade, assim como qualquer estabelecimento de mercado, não se faz pelo corredor mídia escola, pelo contrário, o search costuma ser indiscriminadamente indicado como fonte de pesquisa escolar. O fato de que a recepção de informação é um ato interlocutivo que supõe capacidades críticas tende a anular-se quando se trata do conteúdo da "internet" conforme os objetivos da política de subsunção mídia escola.
Outro modo de intervenção na educação são investimentos que mantem como atuais teorias já obsoletas, que devemos ao invés conhecer conjuntamente com as críticas e relacionar com os acontecimentos históricos que as invalidaram. Inversamente, o conhecimento das críticas e refutações históricas é censurado ostensivamente, ou porque se votam ao silêncio publicações que circulam, ou porque se marginalizam as pessoas que o expressam.
Como na margem a alteregologia implica a total indiferença à noção de autonomia científica universitária ou autoral, como aliás à autonomia qualquer, não obstante a letra da lei a intervenção direta dos decretos arbitrários são sempre objetivos de "políticos" demagógicos, o radical ou o reacionário, cujo discurso ostensivo é estar importando modelos de outros países ou aplicando fórmulas dos gurus da moda, portanto sem suspeita da utilidade de qualquer pesquisa operacional especializada. A referência a pesquisa é feita pela mídia apenas quando aproveitável para efeitos de exploração do bizarro, restrita a comunicação de resultados como fatos soltos, sempre de proveniência das ciências naturais, únicas conhecidas pela massa desletrada.
Esses fatores explicam como os textos relacionados ao pós-modernismo tem sido censurados nas universidades desde os passados governos petistas, tendo antes havido um interregno mais democrático. Assim por um lado o corredor mídia escola atende ao deslocamento da teoria pela mídia na dominação cultural da atualidade, mas o motivo ordenador desse deslocamento, o fato das teorias atuais não proverem dicotomias de primitivo e civilizado não corresponde à realidade local das instituições de letramento, que se mantem atreladas a paradigmas construídos pela pretérita necessidade da dicotomia.
Porém assim o recentramento em nível internacional, quanto ao aspecto de sua tangência nas produções culturais, é mais um fator a ser considerado.
A princípio devemos equacionar o marxismo, porque tem se mantido impactante localmente devido à proximidade do petismo. Vemos que o pós-modernismo nunca se mostra conceituado por ele como a superação da dicotomia do primitivo e civilizado, mesmo se o mais frequente na definição marxista do pós-modernismo é a ácida crítica ao fato dos "grandes relatos" terem sido neste superados. O que é literalmente a mesma coisa, porém o marxismo nunca o nota, de modo a jamais relacionar pós-modernismo e crítica do imperialismo, o que é contudo o traço conspícuo da pós-modernidade teórica e estética.
Mas a persistência do modelo dicotômico no marxismo apenas relaciona-se ao imperativo marxista da modernização para formação do proletariado. Foi o carro chefe do petismo, tanto que as privatizações dos serviços básicos e a implementação do corredor mídia escola atingiu o auge nos governos passados do pt, tratando-se de política preferencial da direita, entretanto.
E não obstante a ostentação oposicionista do petismo sob processo de impeachment ao business de mídia como porta voz da direita, o pt tem sido defendido pelos ídolos de massa internacional que a exemplo dos rockeiros clássicos assim pretendem se singularizar da média como politizados, independente de qualquer satisfação a propósito das provas de corrupção. O ataque desses ídolos, especialmente os roqueiros, à liberdade eleitoral nossa, orquestrou-se aos interesses do partido democrata estadunidense, que se pronunciou também apoiando os processados por corrupção, mas que não obstante a propaganda não tem muita diferença do imperialismo tout court, assim Kennedy foi o ordenador do golpe militar intervencionista local nos sixties. A documentação sociológico-histórica dos trâmites para-legais e ilegais da intervenção estadunidense está estudada em meu "Riqueza e Poder, a geoegologia", assim como antes no Irã e demais referências, tendo eu tencionado integrar esses acontecimentos a uma história do imperialismo que abrange a globalização e o neonazismo.
Quanto aos fatores internacionais do recentramento, deveria ser esperável que tivessem influência aqui. Já observei em estudos voltados ao contexto local, que um dos modos de depreciação alteregológica consiste em demarcar o que seria o atraso sempiterno da nossa recepção às inovações ocidentais, porém examinando com vagar sendo possível detectar ao invés uma atualidade costumeira. Isso também se verifica agora.
O cenário internacional tem demonstrado indiferença à interligação entre obsolescência da oposição primitivo/civilizado e crítica do imperialismo. Esse nexo vinha sendo mais ostensivo na época inicial da controvérsia em torno do pós-modernismo, mesmo se naquela época, desde os anos oitenta, a teoria em torno do pós-moderno tenha sido muito contraditória, por vezes até inconsistente. Mas tornou-se estável a posição do pós-moderno como, tanto como desconstrução das oposições dicotômicas que substancializam diferenças que porém não são naturais e sim culturais e portanto politicamente constituídas, como superação dos paradigmas sócio progressistas nessa acepção dicotômica do primitivo e moderno-ocidental. Superação que, contudo, tende a ser negligenciada quando, primeiro, já não pode haver proveito a um status de modelo desenvolvimentista na margem, exceto do marxismo ortodoxo. E, segundo, por isso e por outros fatores, entre os estudos culturais e a teoria social recente, houve uma especificação crescente do objeto da crítica, como visando questões definidas a exemplo do preconceito de gênero, étnico, de status, propriamente cultural, etc. Nestes investimentos tem sido questionados os limites disciplinares das ciências, como especialmente a sociologia, se bem que a sociologia mesma já estava se ramificando em estudos setorizados com grande amplitude até aí.
O recentramento incide em todo caso, mesmo de caráter inconsciente - como na verdade atua a geoegologia e alteregologia - visto que estas questões setorizadas já na abrangência de teorias que se pretendem independentes das disciplinas podem tornar a ser generalizadas, independentes do contexto, se num país desenvolvido ou na realidade recolonizada do terceiro mundo na globalização das "multinacionais" garantida pela geopolítica do capitalismo, e de acordo ou não com as questões culturais nacionais heterogêneas.
Houve expresso objetivo de alguns no sentido de substituir a história generalizada pela luta de classes, o que já estava sendo criticado pela indiferença à heterogeneidade cultural, por uma história generalizada do preconceito considerado, por exemplo no feminismo. A consciência crescente das singularidades contextuais não foi anulada, porém independente da pretensa setorização do objeto crítico, algumas tendências gerais foram se tornando verificáveis, e nelas embutindo-se critérios favoráveis ao recentramento.
Antes de referenciar algo sobre tais tendências gerais, seria preciso ver que localmente a interlocução com os estudos já setorizados, estando marcada pela circunstância das décadas do petismo antes do impeachment recente, resultou numa política de estereótipos, como de "tipos", (negro, mulher, etc.), cujo discurso "político" se limita a franca e ingenuamente exigir "poder" , portanto a partir de uma tipificação de si como substancialmente diferente e diverso do outro igualmente substancial. A ostentação de se estar apoiando a superação do preconceito na mídia é feita apenas como meio de mostrar o "poder" como supremacia do tipo frente ao seu outro - o que internacionalmente tem motivado atitudes de radicalização terrorista do preconceito, para defesa dos meros direitos civis. A religião atuou recentemente, por exemplo, na defesa do direito dos pais informarem aos filhos se são de sexo biológico feminino ou masculino. Pode-se redarguir que os textos ao mesmo tempo cronologicamente pós-modernos e relacionados aos estudos setorizados, em nível internacional, estavam visando exatamente o contrário disso, pela crítica do signo desconstruindo a diferença reificadora, para mostrar como a construção da oposição dela ao outro se fazia nos termos do preconceito exercendo-se institucionalmente.
A retórica onipresente do "poder" a guisa de exigência emancipatória inclui a juventude como nova "raça superior" a partir da fantasia de ter incorporado congenitamente as capacidades computacionais do momento mais recente, dotando-se pois da pretensão de gerir a realidade de alguma mera engenharia social em que o outro são os supostos etariamente incapacitados.
Porém, mesmo sendo estas práticas políticas a que o marxismo petista estava limitado na sua necessidade de manter atualizada interlocução com o cenário internacional, tão destoantes da desconstrução, não seria razoável supor apenas um desconhecimento num meio de disseminação ideológica. Os "tipos" do poder apenas são aqueles que dentro da reificação podem ser incorporados aos aparatos da dominação info-midiática, alijando-se do mesmo modo que antes os que não se coadunam de fato. Mas de fato a teoria internacional como vimos está enunciada na dependência de generalidades que tornam contraditórias suas metas, uma vez que elas operam oclusão da questão histórica estrutural da atualidade, a globalização como conflito norte sul que pre-ordena as políticas institucionais por aquilo que podemos definir como a realidade da dominação info-midiática imperialista.
Mas assim, quanto a essas generalidades, podemos examinar com proveito já a proeminência da "teoria crítica" na atualidade, um paradigma que vem do anarquismo da metade inicial do século XX, a partir de Benjamin. Se Rorty operou a convergência ao pragmatismo deweyano, na verdade a teoria crítica tem tido peso desde a new left norte-americana, na setorização dos estudos, como no feminismo de Cornell university, especialmente de S. Benhabib, seguindo Habemas. Aí a redução ao tipo é bem nítida, com rejeição da democracia legal por um discurso que visa reconhecer apenas "sujeitos concretos", a saber, aqueles que possivelmente já estão identificados numa situação precisa, como especialmente a do gênero: a mulher é mãe, não "desembaraçada" mas tendo responsabilidades familiares, etc. Nessa vertente da teoria crítica porém, Adorno tem sido muito (re)-considerado, mas por uma postura que reencontramos amiúde mesmo em contextos que não o seguem ostensivamente. É essa a tendência generalizante que pretendo enfatizar aqui.
A composição de "A indústria cultural, o Iluminismo como mistificação de massas"" de Max Horkheimer e Theodor Adorno (in "Teoria da cultura de massas", organizado por Luis Costa Lima, Rio de Janeiro, Saga, 1969, p. 157 e segs.), é um extrato da "Dialética do Iluminismo, Fragmentos Filosóficos", publicado em 1947. Aí se faz a crítica contra todo objetivismo naturalista ignorante do a priori cultural e humanístico, assim como ignorante da base econômica da exploração política. Porém a crítica opera a redução ao século XVIII como época da revolução burguesa ou "iluminismo", daquilo que de fato é um pensamento voltado contra o "positivismo" do século XIX como época da revolução industrial. Uma vez tendo sido o pós-positivismo da época de Heidegger, dos anarquismos de Benjamin ao neomarxismo humanista de Lukacs, Sorel ou Gramsci, do neokantismo ao paradigma funcional totalizante, o referencial pioneiro dessa crítica.
Essa tendência de recuo ao século XVIII do que na verdade é o positivismo do XIX, é o que tem se generalizado em muitos contextos teóricos, o que resulta como vimos na oclusão do que na crítica pioneira era mais ostensivo, Lenin nessa época tendo que equacionar o imperialismo na tese da luta de classes de Marx. O fato da dominação planetária não ser apenas a multiplicação do capital tecnológico, mas o neocolonialismo e imperialismo, era então o importante a considerar na abrangência mesma da redescoberta da heterogeneidade cultural, do contrário não haveria este algo diverso do fato objetivo da dominação econômica como no marxismo ortodoxo, a saber, a dominação cultural "instrumental" cientificista.
A redução ao século XVIII do positivismo como imperialismo econômico e cultural, portanto não apenas a visão ingênua da razão, mas a concepção da razão como evolução social contra um estado outro da humanidade, é o anacronismo mais criticável do estudo de Adorno e Horkeimer sobre a indústria cultural ou mídia de massas. Assim compreendemos porque a crítica a conteúdos ideológicos desta nem mesmo depende das premissas deles, mas começou ao que eu saiba por um uso da teoria dos aparelhos de Estado, de Althusser. Hoje com efeito, muito mais teria que ser acrescentado à generalização da critica à indústria cultural adorniana, e a teoria de Althusser já foi contestada, como em Apple por exemplo, por forçar muito em relação ao que na prática das instituições como a escola é realmente o espaço da negociação entre alunos e professores.
A redução ao século XVIII da nova crítica da razão ingênua serve ao objetivo de mascarar o significado do positivismo e da indústria como dominação cultural do imperialismo econômico contra-revolucionário-industrial na "margem" anexada pela Revolução da Indústria do "Centro".
Aqui o estatuto contra-revolucionário da revolução industrial mesma é o mais importante, uma vez que só se conceitua muito gradualmente ao longo do século XX. Permite observar portanto que o imperialismo atuando repressão ostensiva brutal às possibilidades de industrialização autônoma na margem, o que compõe de fato a história desta como até os golpes para desnacionalizar a indústria local já constituída, já não se pode representar como o outro do que seria um estado primitivo incapaz de produzir, de saber, etc. Na atualidade a antropologia já conhece sociedades simples que eram democráticas, e com leis em âmbito público, já o vimos, ou mesmo a tese da democracia na mais antiga organização da Cidade (Sumer) e em todo caso, a consciência da história própria que as sociedades simples tem paralelamente aos seus referenciais religiosos. O capitalismo antigo no helenismo já ostentava proletariado auto-consciente, ver Rostovtzeff quanto à aplicaçaõ do projeto proletário na Sparta de após o escravismo, a crítica do "saber" como misticismo identitário do privilégio do poder já estava expresso no taoísmo chinês na mesma época, etc.
A redução mesma do positivismo ao século XVIII que ignorava a questão cultural - pensava o primitivo como natureza semi animalesca,mas assim mantendo-se como ao progresso na imanência do universal, o que o positivismo dicotômico já não fazia como ideologia do progresso unilateral - deve ter sido possibilitada por que inicialmente o culturalismo pós-positivista, dentro do qual se articulou a "teoria crítica", acreditava no primitivo como ingenuidade do mito, incapacidade do Saber. Já examinamos a história dos paradigmas até aqui, até o pós-estruturalismo que ainda mantinha o "ocidente" como unidade intocada de um desenvolvimento intrínseco sem notar que o objeto mesmo do auto-conceito resultava da construção opositiva ao primitivo não ocidental. O pós-modernismo multicultural e heterogêneo vem pois da evidenciação do conflito da industrialização na margem, equacionado especialmente nos estudos de "história efetiva", algo similar metodologicamente ao operacional na sociologia.
Repetindo, a oposição centro-periferia (centro/margem) foi produzida no
positivismo com a abrangência psicossocial evolutiva que define um
estado subdesenvolvido não só econômico mas mental, a partir de
certas premissas a propósito da cultura como evolução da
modernidade ocidental. Compreende-se que não podia ter sido
produzida no século XVIII classicista, que desconhecia o
evolucionismo material e a história como ciência da cultura. Mas a permanência não criticada da "teoria crítica" na atualidade expressa pois um recentramento neoanal como retorno da articulação da base econômica do positivismo, que era o imperialismo industrial alçado a progresso da espécie, como hoje é a dominação info-midiática.
Mas
para objetivos da dominação cultural também na sua vertente
esquerdista, a redução ao iluminismo de todo aparato de dominação
moderna que vemos praticada desde a "teoria crítica" era
estratégica. O imperialismo tinha que parecer apenas o epifenômeno
a partir do determinante da modernidade como - factual e não
paralogicamente - a ciência de si mesma como evolução da
objetividade. A revolução científica ao mesmo tempo explicava e
era assim explicada, fazendo abstração do que deve ter representado para a emancipação da ciência a descoberta puramente empírica das Américas, assim como do homo americano na consecução do liberalismo político.
Na "teoria
crítica", desse modo, houve motivos que fecundaram o ataque ao
imperialismo, especialmente em Marcuse, mas conservando-se a
corrente isenta da conscientização da mudança necessária na
definição da modernidade, persistindo na crença dela como atribuição adjetiva de um estado de coisas progressivo. Como desde Lenin, o imperialismo era
equacionado na definição do capitalismo mas apenas como fase, isto
é, epifenômeno, sendo a essência a luta de classes, paralelamente
à racionalidade burocrática legal da empresa em Weber. O montante do investimento necessário à dominação de classe, oriundo somente da empresa colonizadora ou imperialista, era ignorado conforme o desejo da incorporação da "modernidade" pelo discurso.
Assim o
paternalismo do subdesenvolvido-primitivo (especialmente negro)-mulher-criança e consequente nostalgia das
- supostas - origens libidinais "primitivas" não foi mesmo
na "teoria crítica" jamais questionado como apenas um
rótulo aposto ao não-moderno-ocidental, pela ideologia da
dominação cultural eurocêntrica "ocidentalista". Na atualidade a política do "tipo", do "concreto", é pois a revivescência da origem primitiva. A ideologia que
configura o modo de se performatizar do capitalismo, mas sem que
qualquer revolução socialista possa se livrar dos mesmos
resultados, operando na mesma base - suposta - científica evolutiva.
A ausência de objetividade como de suporte natural, na configuração
ideal-típica do primitivo ou subdesenvolvido econômico e cultural,
nunca foi até agora estudada como um sintoma, o que tenho proposto na "geo-ego-logia" e "alter-egologia".
Aqui seria demasiado tangenciar outras tendências e práticas do recentramento na teoria atual, independente da redução ao século XVIII da crítica anti-cientificista, que constatei generalizada. A propósito, a crítica anti-cientificista por si mesma, isto é, anti-positivista, pode não ser o mesmo que crítica da ciência, mas apenas do preconceito dela como única instância de cultura. Quando se deixa assim reduzir, torna-se apenas uma contradição performativa da ação contra a teoria porém textualizada num grande número de páginas, como creio ser o caso de Hannah Arendt ou de Michel Foucault, cuja apreensão das ciências humanas em As Palavras e as Coisas, falseia completamente a história das teorias e desenvolvimento das matérias.
Mesmo na imanência do recentramento temos uma realidade, assim o que deverá motivar o pensamento que a dote de sentido. O recentramento neoanal da globalização recolonizadora coexiste com o excentramento pós-moderno como já o visamos. As consequências nas práticas política e teórica em devir estão por equacionar e continuam por se desenvolver. ======
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