quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Teorias em Sociologia



         

===========





          Teorias em Sociologia 

                                    Eliane Colchete

    

           O estado oposto ao  de sociedade foi o  constatado nas Américas “vermelhas” e África “negra” pelo europeu que a esses continentes aportou, sem nunca outro pensamento além de estar adentrando os novos territórios de sua posse. O elemento humano que longamente o povoava foi assim desde o início separado da concepção da terra na qualidade de seu legítimo ocupante, mas por outro lado fortemente associado a essa terra como nada mais que um produto dela – assim como se devia recensear aqueles, em metais, fauna, flora e potencialidades agrícolas, que com ela se tornavam apropriados.

        O elemento humano como fator recenseado, tinha pois que entrar na conta do planejamento da administração colonial. Entre genocídio, escravização, ou aldeamento para lavagem cerebral compulsória por meio de inculcação da auto-atribuição de inferioridade racial, anulação da cultura própria e total submissão ao agente “educador”- catequético, as soluções variaram e coexistiram lado a lado na imensidão dos territórios.

          A descolonização não trouxe nada além de um outro tipo de lavagem cerebral por meios da assim chamada “pedagogia” ou “educação”, como imposição de assimilar o discurso paralógico da superioridade da cultura ocidental, cuja disciplina oriunda do cristianismo medieval misturando ascetismo, hierarquia social violenta, machismo e redução do homem a “saber” escolar, estava agora "cientificizada". Assim enquanto os verdadeiros pensadores questionavam os paradigmas desenvolvimentas, os curriculuns institucionalizavam-se como novo veículo da catequese irracional. 
          Na pós-modernidade atual, quando os conteúdos das ciências já não podem definir estados de incultura, vemos resistências de professores que se insurgem violentamente contra o que são resultados de pesquisa comprovados, porque já não sancionam preconceitos colonizadores. Mas aqueles profissionais que acatam os novos programas apenas por serem ordens instituídas, reagem com propostas de redução dos curriculuns a mera propaganda de mídia, também reduzida a nível idiota,  conforme o "argumento" de que os colonizados não tem nível para compreender materiais de cultura letrada. Especialmente a internet tem sido o alvo das campanhas desses "pedagogos" de modo a dificultar a expansão de textos realmente informativos, assim como o exercício da profissão por pessoas que não tem preconceito colonizador nem fanatismo de "raças" ou condições superiores de qualquer tipo. 
           A propaganda colonizadora da raça superior também se faz invertendo o parâmetro, de modo que a saudável ação contra a segregação de grupos por questões de cor ou de gênero foi capitalizada pela propaganda como discursos de poder desses grupos, que visam praticar o mesmo despotismo que os colonizadores. 

         Ou seja, a educação perseverou localmente como  o mesmo ônus de total anulação da cultura própria na qualificação de inferior da catequese, se bem que não mais apenas suposta paralogicamente cultura pré-científica nenhuma. Em todo caso, a propriedade no sentido de poder de administrar o território não tornou a pertencer a povos não colonizadores ou seu representante local, o colonizado que não obstante não atua o interesse senão do colonizador.

         Recentemente publicado, um estudo sobre o Estado – de autores franceses – chegou a registrar como seria inaceitável, “inimaginável”, que na África independente desde a segunda metade do século passado se tomasse a decisão de voltar ao status tribal. O comentário era, como obviedade, que as potências ocidentais não o permitiriam.

        Não foi nunca considerado o elemento humano aborígine em Américas e África, nação ou sociedade. Esse estado de ausência de sociedade repetiu-se como atribuição nos séculos XVI e XX, que foram respectivamente os cenários de penetração europeia na América e na África na qualidade de ocupante local em status de administrador proprietário. Mas com diferenças.

          A primeira atribuição da ausência de sociedade foi definida como ausência de concepção de relações intersubjetivas, assim como de cultura. O aborígine teria somente auto-concepção instintiva,  não intelectual. Seria adaptado individualmente ao meio como o animal, com exceção feita ao fato de usar instrumentos de trabalho e utensílios de ornamento. Suas relações de sexualidade para procriação ou de auxílio mútuo contra intempéries definiria seu estado primário de agregação por estrita necessidade, jamais por imaginação de laços simbólicos.

       Além disso, ele podia estabelecer com outros relações violentas, por  vontade de domínio, o que configurava além do seu “estado de natureza”, um “estado de guerra”, com ausência de instâncias de negociação possível como a existência de nações que interviessem ou direito internacional, no caso de serem bandos contra bandos, ou de juízes com direitos constituídos no caso de ser uma luta entre indivíduos. Não havia nada além da violência física que asseguraria o domínio do vencedor, com eliminação para  apropriação dos pertences ou escravização do oponente.

       Portanto, esse primeiro conceito de ausência de sociedade traduziu-se por ausência de lei. O segundo conceito, de inícios do século XX,  não foi oriundo de descrições de viajantes cujo interesse de registro não era metódico. Ao contrário, ocorreu já na ambiência da cientificização plena do que até o século XIX havia sido tratado sob a rubrica de “humanidades”.

        A ausência de sociedade não podia agora ser refletida pela noção de ausência de lei, não só pelo que era observado in loco pelo cientista social unicamente comissionado para isso e conforme grade de pesquisas controlada, e que era contraditório com aquela concepção inicial. Mas porque no limiar do século XIX todo o parâmetro da alteridade continental do europeu já havia mudado para uma universalização da cultura, de modo que se impossibilitava a atribuição a  um ser humano como puro estado de natureza.

          A instituição da fronteira do primitivo e civilizado vinha então, como  fator da propulsão dessa mudança crucial, na qualidade do que realmente havia estruturado todo posicionamento desde o início, e do qual veio primeiro aquela noção de “estado de natureza”.

          Essa premissa que permeia todas as teorias na metade inicial do século XX ergueu-se contra o interregno "positivista" do século XIX, onde as ciências humanas, nascidas com o Romantismo nos inícios do século, foram reduzidas à objetividade da ciência natural. Porém foi com o "positivismo" de Comte e Marx em diante que a evolução social - entre formas de sociedade primitiva e civilizada - tornou-se um dogma, ao invés de uma transição do indivíduo à sociedade.

           Assim o "funcionalismo" do primeiro  quartel do século XX restaurou a independência metodológica das ciências humanas, a partir da noção de seu objeto próprio como cultura, mas por outro lado, anulou a noção de uma sociedade primitiva.

           A condição do primitivo tornou-se a de uma "comunidade" de cultura, enquanto o termo “sociedade” se tornou exclusivo do entorno moderno-ocidental, designando além de uma cultura própria com matizes irredutíveis às dos povos primitivos, a presença da ciência e Estado constituídos ("civilização"). Aqui não visaremos o que ocorre ao longo do oitocentos em termos de pensamento social pioneiro, caracterizado pela oposição do “positivismo” de meios de século ao Romantismo dos inícios,  até a altura dos anos oitenta, em que os sinais da consolidação funcionalista tornam-se presentes. Mas sim, entre o século XX até agora, a multiplicidade teórica que abrange e sucede o “funcionalismo”.


      A emergência do parâmetro funcional


          Constatei utilizada por Lowi  (Romantismo e messianismo") a expressão “círculo de Weber” para designar a sociologia alemã de inícios do século passado, cenário privilegiado da emergência do que desde aí se desdobrou nos termos do funcionalismo. Os sociólogos que pioneiramente manejaram a oposição de “comunidade” e “sociedade” a exemplo de Tönnies teriam sido agrupados de um modo mais ou menos íntimo em torno da figura já assim carismática de Weber.

      Um texto autobiográfico de Norbert Elias lançado algo recentemente confirma a utilidade dessa expressão, mas relativiza um tanto a centralidade da Alemanha para a história da sociologia, e ilumina bastante o que também a meu ver é algo que não deve ser negligenciado como se faz ordinariamente, a saber, o cenário inglês dessa época.

      A importância aqui é fazer ver que esse cenário não deve ser tratado como numa antecedência de direito, ao modo de simples prolongamento, do empirismo já agora sinônimo de positivismo ou ciência social ultrapassada. A preservação do conceito de ciência social em torno da observação empírica não implica por si só a redução “objetivista” que fazia o positivismo, de pesquisa e teoria, muito menos a conexão dessa limitação epistemológica à psicologia “associacionista” igualmente ultrapassada que a amparava.

        Nessa intenção seria importante contudo sublinhar o fenômeno histórico da sociologia nascente na sua forma atual evoluindo em três e não apenas dois cenários decisivos. À Alemanha como berço do funcionalismo, e à Inglaterra como núcleo de um redimensionamento básico da pesquisa empírica, é necessário acrescentar os Estados Unidos como origem da “ecologia urbana”.

          Não só é a “sociologia de Chicago”, cuja figura proeminente é Robert Park, mas cuja pesquisa famosa na história da sociologia é  a de Floran Znanieck sobre o imigrante polonês, a origem da sociologia da “cidade”. Mas igualmente da conexão entre “cidade” e fenômenos de discriminação sistemática, como o racismo ou o preconceito de classe, e de formação de subculturas marginais, que implicam reconfigurar o conceito amplo demais de “conflito social”. A ponto de se poder falar de um conceito sociológico de “cidade” não conexo ao que havia antes mas muito familiar ao que pensamos ainda hoje.

       Isso pode parecer por um lado, espúrio ao nosso tema presente ligado apenas à origem do funcionalismo, e por outro lado nada incomum numa época como o início do século passado, em que afinal de contas o acontecimento principal foi a ascensão da mais terrível forma de discriminação sistemática jamais conhecido ou praticado em nível de Estado, o nazismo. Além do mais é histórico o fato de que nos Eua realmente o funcionalismo penetrou como uma segunda onda em relação à “sociologia” empírica (mas não positivista) de Chicago.

           Mas o que precisamos destacar é justamente, primeiro,  a irredutibilidade de cenários como o inglês e norte-americano em que o problema social não estava dominado pela pressão da “grande teoria”, isto é, a tarefa de fornecer as poucas definições básicas e axiomáticas fora das quais não poderia haver ciência, investimento teórico ou forma de pesquisa qualquer.

             A sociologia aí não era sinônimo dessa pressão, mas se podemos demonstrar que não é por outro lado simples defasagem ao que sustentou essa pressão como necessidade já demonstrada, então podemos aproximá-la a formas bem mais recentes de interesse sociológico, pois em nossa época o que está ocorrendo é a ultrapassagem tanto do funcionalismo como dos estruturalismos e pós-estruturalismos, a partir da impossibilidade de manter grandes teorias de fundo teleológico. A sociologia se beneficiou muito internacionalmente com o pós-modernismo, já que a cultura num sentido bem ampliado relativamente ao ocidentalismo do século XX vem agora ao estatuto "multicultural", como veremos oportunamente. 

     Além disso, também se poderia destacar como algo relevante o fato de que a carreira de Elias começa num momento em que o círculo de Weber já se aglutinava em torno apenas da memória do grande pioneiro, cujos cuidados para fins de influência institucional ficara a cargo da esposa ou  de Alfred Weber, que também foi destacado sociólogo mas sempre fiel à teoria do irmão.

           Assim de qualquer modo a proeminência do “círculo weberiano” estava rapidamente cedendo à transformação oriunda da mudança do regime e acontecimentos da segunda guerra, do que emergiu um cenário alemão de meios de século passado afim ao que Helmut Schelski reclamou em termos de uma “situação da sociologia alemã” negligente com o funcionalismo e muito mais voltada à pesquisa empírica. Eu não creio que isso tenha diretamente contribuído para a ultrapassagem do funcionalismo, o que ocorreu sim mas pela tomada da cena pelo estruturalismo. A pesquisa empírica ficou sempre num segundo plano até começar-se a falar em “pós-modernismo”, na transição ao presente século. Bem inversamente a Schelsky, considero a generalização da pesquisa empírica algo extremamente favorável à sociologia assim como a todo pensamento, pois do contrário lidamos apenas com quimeras porém bastante características do preconceito dicotômico que totaliza a condição "primitiva".

          Não obstante ao que se poderia apontar,  é significativo que o próprio regime nazista tenha emergido num contexto europeu não estranho ao que o funcionalismo impulsiona de seu, como a circunscrição de totalidades de cultura inteiramente independentes umas das outras, ainda que todas  sobrepostas pela oposição geral de culturas restritas à “comunidade” ou pelo contrário, que evoluíram à “sociedade”.

            Manifestamente a sociedade foi  na época conceituado como desenvolvimento da “cultura indo-europeia”, em torno de que não só se aglutinaram várias formas de pesquisa setorizadas em história da arte e demais manifestações culturais, como também a coalescência da concepção do “mito ariano”. Uma totalidade de cultura em sentido funcionalista seria portanto, desde a “comunidade”, uma organização de valores em torno de um mito arcaico. Evoluindo na circunscrição exclusiva da totalidade indo-ariana, ocorreu que as estruturas básicas da mentalidade mítica cederam a uma transformação da qual decorreram as formas supostas superiores de cultivo, como a filosofia, a organização política estatal e as ciências.

          O mais importante para o “funcionalismo” original do círculo de Weber, que se pode generalizar como um “tradicionalismo” até mesmo a figuras tão importantes como Arendt e Benjamin, não diretamente subsumidos a ele, foi mostrar que quanto a estas formas "superiores", não são explicáveis em si senão como modificações das estruturas elementares de todo mito – que seriam originárias da mente humana arcaica, isto é, primitiva.

           Assim entendemos que o funcionalismo emergiu no entanto como um cenário de oposição política, como uma “esquerda”, ao que em primeira instância resultou daquela passagem “simbolista” em trânsito à época de Nietzche, do positivismo a uma concepção mítico-axiológica da cultura.

         Ou seja, primeiro aconteceu a superação da posição positivista onde toda cultura estava reduzida a “ideologia” como avesso da ciência. Mas nesse momento inicial, não necessariamente para efeitos de crítica da cultura como nova base da crítica do capitalismo. Como um momento histórico o apreendemos bem pela ojeriza documentada de Nietzsche ao modo como isso serviu, pelo contrário, para embasar o Reich e toda concepção imperial-neocolonialista-industrial-tecnicista.

            O positivismo exalta o progresso, após tê-lo conceituado dogmaticamente em termos de história universal, o funcionalismo critica a civilização em nome da cultura, mas não desloca a noção de que se trata de progresso (evolução social) e assim não é uma crítica sem ser um acerto de contas, de modo algum uma ruptura real.     

            Um cenário socialmente marcado pelo positivismo tem sua cronologia pensada como uma marcha à frente, o funcionalista, inversamente, porfia por manter uma ordem tradicional do passado, mas sem crer que isso impedirá a evolução, apenas almejando, bastante contraditoriamente, conciliar as duas coisas. A "angústia" existencialista é algo talvez diagnosticável como a consciência dessa contradição.

           Mas quando já estamos na ambiência do século XX e da sociologia alemã em torno de Weber, é que se consolida a oposição de “comunidade” e “sociedade”. Aqui é importante notar que se poderia realmente objetar que Weber podia não estar muito enfronhado nas transformações pelas quais passava concomitantemente a psicologia, na época em que estava sendo refutado o "associacionismo", e que o “ego” não é ainda nessa transição ao início de século, preponderante na sociologia. Mas a isso pode-se responder que relacionado ao “ego”, trata-se para Weber sim de uma mentalidade exclusiva à sociedade, que ele tratou em termos de “racionalidade” ou mais precisamente “ação racional”.

     Não é muito difícil entender como isso pode resultar numa crítica do capitalismo ou da sociedade, o que é o mesmo nessa concepção. Porém crítica tão ambígua que até hoje os comentadores de Weber não concordam quanto ao que pode significar. Pois, o contrário da ação racional são ações rituais ou de fundo emotivo, que ou podem significar que no entanto teriam permitido à humanidade construir elaborados sistemas coletivos e sofisticados recursos econômicos, sem porém reduzir as relações dos homens a exploração pura e simples. Assim teria havido sempre formas de conciliar valores e metas, por onde fortunas particulares teriam sempre sido coibidas. Isso é claro, porém já não num estado puramente primitivo, mas propriamente pré-capitalista. Ou pode-se pensar que o tradicionalismo foi sempre apenas obstáculo a uma liberdade que só o Ocidente moderno pode propiciar, se bem que para contornar os conflitos oriundos do capitalismo fosse necessário mais investimentos em valores. 

           Mas em todo caso agora a “sociedade” plenamente desenvolvida ou capitalista seria uma evolução – ou degradação, senão preservasse valores humanos – tal que só as metas persistiram, separadas dos valores e sempre que necessário alienantes destes.

          Bem inversamente, no positivismo a cognição é o lote comum dos seres humanos, epifenômeno das técnicas adaptativas, porém os primitivos a tinham muito defasada em relação ao civilizado.

      No entanto a crítica funcionalista coexiste lado a lado com a consciência de que a evolução tem uma base adjetiva, isto é, trata-se também de evolução em nível de capacidades intelectuais humanas. A racionalidade da empresa capitalística em Weber é real, não apenas uma ironia. Para Weber, é o que estrutura a economia capitalista ocidental como ajuste objetivo de meios a fins, somente que ao lado desse fator evolutivo real, estende-se o efeito colateral da dominação máxima das instituições assim já sociais. Ou seja, paralelamente ao capitalismo, instituições racionais do ponto de vista do regime político como a democracia.

          O que embasa agora a noção da ausência de “sociedade”, é portanto o contrário do que embasava a noção quando ela tinha por correlato  apenas o estado de natureza. Neste primeiro caso, o estado de natureza é o de todos nós, mesmo já em sociedade, apenas que se em sociedade, além de indivíduos naturais somos também responsáveis por um sistema de obrigações contratuais. Na “sociedade” como contrário de “comunidade”, não subsiste da origem senão o fator processual. Nós somos seres diferentes do primitivo, e mesmo do “pré-capitalista” que só poderia aceitar a circulação da riqueza, a fortuna pessoal, identificada por papeis sociais representativos dos valores tradicionais – os quais se personificam, na forma da autoridade responsável pelo sistema dos valores,  pelo rei ou figura correspondente a quem tudo pertence, e de quem toda concessão para circular provem. Esse sistema seria "patrimonial", conforme Weber, enquanto o civilizado seria "burocrático-racional-legal". O sistema patrimonial já admite formas de Estado, mas não de todo civilizado, sendo uma modulação do primitivo sem confundir-se com ele.

      Além disso, quando se tratava do oposto do estado de natureza, como estado de guerra, a noção de sociedade servia para legitimar um estado de coisas que se pretendia invalidar a nobreza como estamento privilegiado da tradição, assim tendo sido entre Locke e Rousseau. O privilégio tanto quanto a ditadura não eram nem estado de natureza nem de sociedade, era estado de guerra ou sinônimo de dominação, em Locke e Rousseau. Agora, pelo contrário, o pós-positivismo desde o simbolismo expressava a consciência de um recorte social que os manuais escolares de história raramente reconstituem, persistindo numa imagem falsa do capitalismo como domínio definitivo da classe burguesa que teria emergido da Revolução iluminista.

         Neste recorte efetivo, pelo contrário, a classe dominante é a alta burguesia radicalmente oposta à pequena burguesia tanto quanto ao proletariado, mas integra a classe dominante junto com a alta burguesia, a nobreza dos impérios neocoloniais como Prússia ou Inglaterra. O Estado aqui é o máximo agente do capitalismo, mas ele é todo o oposto do ideal democrático especialmente na Prússia, é o ideal imperial ou tradicionalista onde a hierarquia social não é sinônimo de exploração como Marx posicionara bem não obstante o limite da perspectiva progressista-positivista,  mas de “identidade” de um povo, posto que a estratificação seria oriunda da sua própria história – a nobreza como agente de aglutinação dos bárbaros no medievo, a classe dominante atual como agente da prosperidade nacional.

           O que estava criticada na transição ao século XX, era assim, conforme o recorte neoaristocrático do capitalismo, a possibilidade “liberal” que tivera suas raízes na Revolução Francesa,  de uma classe capitalista sem raízes numa tradição que integra por sua vez a articulação conservantista do Estado imperial  anti-revolucionário. O liberalismo só retorna após as guerras mundiais. 

         O Estado europeu da época funcionalista, quando as duas guerras acontecem, desde o que se conhece como “biedermeyer”,  um cenário cultural que praticou um Romantismo deturpado, é francamente repressivo a todo ativismo revolucionário, isto é, democrático ou socialista, enquanto por outro lado investe em artes e cultura pseudo-“nacionalista” (pró-imperial) e de outro modo ainda, promove a tecnização total dos currículos acadêmicos. Todo mundo é culto desde que a cultura desce ao nível do todo mundo, via jornalismo e espetáculos subvencionados pela propaganda do regime, eivado de discriminação social como o anti-semitismo  – assim Nietzsche tratou considerável parte do que designou o “caso Wagner”, o gênio que havia sido contudo inteiramente cooptado para propaganda do regime imperialista prussiano. Não obstante o próprio Nietzsche na Genealogia da Moral culpava os judeus como origem da mentalidade liberal. 

            Por sua vez o “capitalismo” era agora sinônimo de grandes conglomerados que por esse recurso da cartelização inviabilizavam a economia de livre concorrência – princípio que havia levado a extremos de “unfair competition” e não deu cabo do sistema apenas porque se reverteu a tendência pela dominação de grandes grupos transformando a concorrência em  união de interesses sob a égide do mais forte. 
          É  interessante citar aqui a página da 'História da Literatura Ocidental" (Rio de Janeiro, Alhambra, 1978, volume 7, p. 1800, 1801), de Carpeaux a propósito do simbolismo. Onde ele arrola em torno de dez inaugurações de monopólios entre 1882 e 1900, citando também a Siemens e General Eletric. Mas Carpeaux enfatiza ser esse o reflexo no capital privado da política dos governos, que deixaram o laissez faire e adotaram o protecionismo mais ferrenho para consolidar sua industrialização. Assim a lista dos monopólios mais importantes se precede pela lista das leis protecionistas como de Mac Kinley, Bismark e Chamberlain,  também ocorrendo na França. 
         Essas referências da história econômica são feitas por  Carpeaux para  "demonstrar a universalidade do fenômeno" de ajuste progressivo dos literatos e poetas simbolistas, desde a atitude do decadentismo ou naturalismo até "uma atitude afirmativa em face do mundo". A seu ver o que ocorre aí é que "a literatura pré-simbolista baseava-se em duas classes: a burguesia liberal" do romanticismo epigonal, e "os pequenos-burgueses" radicalizados, "fazendo a propaganda do naturalismo". Agora porém, na época do simbolismo pleno, a burguesia torna-se reacionária, contra o liberalismo, " e o lugar do radicalismo será ocupado pelo proletariado organizado". A pequeno burguesia referencial dos artistas criadores ficara sem função política, pois  na época "a situação é de guerra entre o capital monopolista e o proletariado organizado"
         Por que o "capitalismo transformando-se de capitalismo industrial em capitalismo financeiro abandonou a doutrina do livre-câmbio, da liberdade dos mercados internacionais, abraçando o protecionismo, ocorreu uma era de prosperidade e de "conspicuous consumption" à Weblen, pelo que a burguesia comprou a arte "inútil", o l'art pour l'art simbolista, que era o oposto da arte politizada do proletariado.  Carpeaux fornece também uma lista das conquistas eleitorais 
organizações proletárias que emergem nessa

 mesma  época, como a  segunda internacional em 

1889, a  pioneira celebração do feriado do 

trabalho  em 1890, entre outros marcos 

importantes. Porém não notou Carpeaux que uma

lista havia também por acrescentar, da escalada 

do avanço neocolonialista afro-asiático, de modo 

que na conferência de Berlim de 1885 oficializou-

se o mapa dos domínios europeus sobre todo o 

continente africano, e em 1914 já se configurado 

o mesmo domínio na Ásia, porém também aí 

participando os Estados Unidos e Japão. Na

América Latina o imperialismo inglês já 

acontecia porém há bem mais tempo, porém nessa

época ampliava-se para vários outros influxos do

capital.  

          Como podemos constatar, com efeito o aristocratismo burguês de Estado que assim emergiu teve a consequência de por um lado, acirrar uma esquerda que não mais acreditava no Estado constitucional de direitos, mas só numa estratificação hierarquizante que substituiria aos privilegiados no topo, os operários genuinamente humanos, quase-primitivos mas na rota agora da evolução certa, a indústria racional sem o prejuízo do Estado. E por outro lado, o anti-semitismo, na medida que o judeu apátrida seria o capitalista desenraizado típico, independente daqueles que se tornaram comunistas.

         Assim vemos que quando emerge na feição funcionalista, a "sociedade "é um locus crítico, mas ao mesmo tempo situante do evolucionismo pós-positivista.

        Em termos sociológicos estritos, como vimos, a sociedade é a racionalidade das instituições. Isso vemos em teorias como a de Tönnies, em que a oposição é crucial. Aqui a comunidade não está fora do ocidente, mas lá fora é um limite do não-ocidental ou circunscrição do primitivo. Dentro do ocidente, é a base das relações interpessoais, onde essas relações não implicam “contrato” , isto é, não implicam formas racionais de integração, mas inversamente são automáticas, funcionais, decorrem do nosso próprio modo de ser naquilo em que se torna relacionável a um grupo.

        Assim a família ou um grupo de amigos é uma “comunidade”, não uma “sociedade”. Um clube em que temos de nos associar mediante preenchimento de requisitos, um partido político, uma empresa, pelo contrário, são “sociedade” ou formas de relação “societárias”. Nelas o fator fundamental é que as ações possíveis decorrem de escolhas conscientes possíveis. Nós não votamos em quem deve ser nossos pais, não predeterminamos quem poderá integrar nossa turma na escola, nem geralmente estabelecemos regras explícitas  de comportamento para que pessoas possam ser consideras como amigos. Mas votamos em quem deve ser o presidente e comissionados da associação do bairro, por exemplo, supondo que a associação foi estabelecida por contrato conforme conveniência dos moradores. Além disso, votamos em cargos constitucionalmente estabelecidos da representação civil, nacional. Por outro lado, "clique" em sociologia significa não uma comunidade, nem uma sociedade,  mas um número de pessoas que se unem, no interior de um grupo comunitário ou social , contra os demais integrantes, portanto sendo a clique um caso de "anomia" ou "conflito social".

       O funcionalismo não se tornou uma esquerda, portanto, como “primitivismo”, mas como “comunitarismo” restrito a essa concepção da comunidade dentro do ocidente, porém sempre preservando o horizonte progressista. Essa “esquerda” como estamos constatando é então profundamente ambígua. Ela também pode ser designada “humanista” na medida em que as instituições comunitárias seriam propriamente humanas, enquanto as societárias seriam impessoais, maquinais, técnicas, servindo a interesses de exploração de classe ou pelo menos de coisificação dos valores. Mas assim muita coisa fica de fora do “humano” e não vemos bem porque, se o que fica de fora não é outra coisa que práticas  protagonizadas por pessoas.

     Essa designação de “humanismo” interessa muito à história do marxismo, como já ressaltamos, uma vez que se trata da reformulação funcionalista da doutrina de Marx, mas aqui ela é interessante para ilustrar o fato de que o culturalismo, como o poderíamos também designar, faz par com a definição do adulto tanto como ocidental quanto como psique estruturada pelo “ego”.

           Essa é a informação que colocamos inicialmente, como espero ter ficado bem ressaltado, e não devemos portanto supor que a esquerda “comunitarista” foi uma crítica do “ego” ou, onde se tratou de primitivismo, algo em ruptura com a psicologia do século XX. Como um neomarxismo, os humanistas puderam nisso porém se apoiar inteiramente no próprio Marx, depurando-o dos traços positivistas.
            Não é porque houve um comunismo primitivo ao ver de Marx, que o comunismo como programa de superação do “individualismo” burguês o deveria estabelecer como um modelo.

         O comunismo primitivo em Marx apenas serve à explicação do capitalismo como algo que depende de uma mutação evolutiva essencial, o advento da propriedade privada, assim do ego auto-consciene. Portanto serve para demarcar que
 não são primitivos
a propriedade privada e a lei anti-incesto tanto quanto as relações monogâmicas de gênero ou a auto-consciência desvinculada do que Marx designou na Ideologia Alemã "a consciência de carneiro, tribal".

             Não se poderia mais aceitar, na altura do pós-positivismo, a junção causal que Marx e os positivistas supunham haver entre todos esses fatores do progresso, e a suposição de alguma sociedade sem lei primitiva, pois já havendo pesquisa in loco, constatou-se que todas tem sistemas regrados, isto é, leis, de parentesco, mas continuou a existir essa estruturação pela qual a consciência dos valores dotada de racionalidade como de consciência egóica, difere da consciência dos valores primitiva por se limitar esta a uma afetividade tal que não tem consciência de si, confunde-se com o papel social.

         Os homens são portanto, basicamente impulsionados pela afetividade, pelo atrativo da força, pelos instintos, pelo mito que os aglutina, mas não assim devem permanecer, muito menos quando se trata de organizar politicamente um patamar que impeça a distopia da exploração do homem pelo homem como efeito colateral da evolução. O que está sendo conjurado assim é a concepção da Revolução contra o antigo regime nos termos do advento do indivíduo tal que pudesse o configurar o positivismo, apenas entidade psico-física com capacidades intelectivas.

           Ou seja, conjurava-se o que agora se considerava a distopia de uma burguesia do tipo judeu de clã conforme Weber, o oposto do capitalista protestante egóico – não necessariamente a organização social “racional” por si só, ou melhor, essa organização como decorrente da egoidade. O ego é propriamente o sujeito dos valores e portanto sujeito em sociedade  – este o axioma do tradicionalismo ou funcionalismo “humanista”. Da comunidade à sociedade, está portanto uma aposta de liquidação do mal social com vistas a uma sociedade boa cuja base seria conscientemente a comunidade, porém não necessariamente com vistas a um primitivismo.

        O “primitivismo” foi um movimento artístico, dentre os que se designaram “modernistas” apos o simbolismo,  em aparente convergência com o funcionalismo e psicologia nova mas de fato muito irredutível a eles na medida em que realmente foi uma recusa do “ocidente” no sentido de situá-lo nos termos de alguma “evolução”. Convergiu porém nisso pelo que “ocidente” persistiu em ser tratado como “racionalidade”. Assim o primitivismo só foi uma valorização não ambígua da arte africana ou aborígine sul-americana ou ainda asiática, na medida que foi um violento irracionalismo.

     A emergência do pós-modernismo, como mencionamos,  implica uma ruptura real pressuposta ter acontecido com relação ao recorte fundamental na ciência humana, a dicotomia do primitivo e civilizado da qual resultara com o funcionalismo um novo conceito de ausência de sociedade. Ligeiramente tangenciamos uma motivação crucial ao pós-modernismo ao notar a existência de tratamento conceitual de fenômenos culturais onde se põe em cheque a universalidade do parâmetro ocidentalista de racionalidade – sem contudo ter por correlato um primitivismo como seu contrário, no caso da literatura americano-latina recente. Mas antes de examinar essa ruptura, precisamos nos deter nessa temática do funcionalismo a partir agora da sua aplicação como política além do continente europeu.

       O que vimos nos permite notar que a tese de Lowe sobre o círculo de Weber como uma espécie de neoromantismo, na verdade não é exata. Pois o “ego” da psicologia nova, não sendo originário mas formado e historicamente condicionado pela evolução social, difere profundamente da concepção romântica do “eu” originário e universal. Além disso, esse “ego” não é como Hegel pensava, exemplificando talvez a concepção geral da época, a forma “para si” da civilidade.

            Com essa concepção, Hegel expressou contudo o trânsito ao Estado contemporâneo de direitos civis, que não é um Contrato social da maioria, cujos valores seriam sempre racionalidade universal, mas uma Constituição Nacional. Seria igualmente errado supor então que do funcionalismo em diante revertemos ao contratualismo “iluminista”. A sociedade é em que contratos na forma jurídica, isto é, “impessoal” como se diria agora, podem ser celebrados, mas é mais do que isso. De fato, para haver um contrato é preciso já existirem ambas as partes contratantes, mas para que a sociedade fosse um Contrato da maioria, haveria como signatários por um lado uma maioria já existente e por outro lado uma sociedade que só existiria depois do contrato constituído. Ou seja, a noção revelou-se absurdo. Assim o contrato é entre particulares, não o que define um domínio público em termos de sociedade e de Estado, como a Constituição.
           Também podemos notar que a noção de cultura nacional do Romantismo é a miscigenação formativa, a "história" nacional. Assim romantismo é um termo que vem de romanço, as misturas de línguas bárbaras nacionais com o latim. Mas na era do funcionalismo, a nacionalidade é um todo de cultura sistemática, um mito ou ação ordenativa única, um arquétipo, não havendo conceito de miscigenação.  

          Enquanto o  funcionalismo se generalizava como teoria dominante da ciência social, e assim aportava aos USA como segunda onda da sua sociologia em que tanto se destacam até hoje a contribuição de Robert Merton e Talcott Parsons, dois fenômenos históricos foram acontecendo, paralelamente ao cenário europeu das duas guerras e à concreção da realidade soviética.

           Os Usa exemplificam a luta que o Ocidente desenvolvido protagonizava agora contra o capitalismo na forma monopolista dos trustes e carteis. O Estado sofrera uma mudança devido às guerras, e a soldagem de império nacional e grande capital já não tinha por amálgama o empreendimento neocolonialista europeu. Na Europa, todo esforço estatal estava voltado à guerra entre os impérios, e logo esse conflito estava generalizado pelo fator de pactos e influência política, ainda que os Usa não tenham participado desde o início.

           O Estado, onde não havia ainda o compromisso de guerra, como nas Américas, agia agora com uma ênfase nos congressos como fóruns de defesa da sociedade contra o capitalismo reconceituado em termos de sociedades anônimas como trampolim para as “elites do poder” ou detentores de cargos decisórios de porte internacional devido ao peso dos conglomerados como dominadores do mercado.

           Foi o inicio do keynesianismo, uma interpretação da economia onde a liberdade total do mercado resultaria apenas como falácia, já que se sabia bem que significava apenas domínio total do capital cartelizado sobre a sociedade.

            Ao Estado cabia não só a defesa da sociedade contra as formas de domínio assim possibilitadas, os trustes, holdings, cartéis, etc., como também amparar a economia em nível nacional para manter o bem estar social.

            O Estado investia em solicitação de serviços e concessão de empréstimos para fomento dos negócios, e programas sociais de  amparo aos carentes, para que assim sempre houvesse iniciativa dos negócios para atender ao estímulo porque havia sempre capacidade de compra. O importante nessa política econômica não me parece tanto ter sido a economia em si, mas uma filosofia de inseparabilidade dos fatos econômico e social assim como a responsabilidade do Estado na vida civil.

           Esse também parece-me ser o maior fator de ataque aos keynesianos, não só da direita capitalista, mas de uma esquerda que via nisso uma ingerência do social pelo econômico, ainda que de fundo estatal, e assim nada mais que uma forma sofisticada de controle do social. Esses ataques, tendo ou não sido justos, a meu ver sendo injustos ou refletindo visões anti-sociais como da redução da sociedade ao proletariado - que nem mesmo são os trabalhadores mas apenas os que se identificam com a ideologia reducionista ao trabalho como significação do ser humano -  tiveram êxito somente a partir da transição ao terceiro milênio, e entre os anos trinta e os sixties a luta anti-truste e consecutivamente o keynesianismo foi o fenômeno conspícuo na transformação do Estado.

          Que podem não ter sido lá muito justos vemos pelo fato de que o resultado da superação recente do keynesianismo não foi nenhum triunfo das esquerdas, inversamente ao que alguns . Mas pelo contrário, o neoliberalismo econômico que  arroga todo poder ao capitalismo monopolista, com anulação do Estado em termos de defensor dos direitos dos cidadãos. Isso resultando numa realidade de intenso conflito social e depauperação dos povos, avassalamento total dos direitos da pessoa, ao nível dos piores nazismos, com inversamente incremento fantástico dos ricos não obstante terem se tornado menores em número comparativamente as cifras da pobreza, resultado portanto muito irredutível ao que os paladinos da anulação do Estado prometiam.
          Sobretudo não houve menos controle do social, só que agora está sendo feito sem qualquer contrapartida de legitimidade, ou seja, sem qualquer possibilidade de regulação civil, porque os protagonistas não são instituições civis reguláveis por leis, mas a mídia que trabalha a mando dos monopólios e os integra economicamente,  além dos dispositivos informáticos.

         O segundo fenômeno foi a industrialização insipiente nos países do terceiro mundo que estavam podendo aproveitar o interregno da guerra como de suspensão dos empreendimentos neocolonialistas europeus. É nesse âmbito que podemos desenvolver o tema que propomos, já que isso significava para a mentalidade funcional que esses países estavam “em desenvolvimento”, e portanto nem eram “subdesenvolvidos” no sentido de ausência de sociedade, nem totalmente desenvolvidos.

          As políticas de desenvolvimento total foram intensamente marcadas pela influência do funcionalismo, e nessa decorrência o que antes foi tão amplamente designado “comunidade”, agora, na segunda onda funcionalista, vinha tratado pela rubrica de “sociedade tradicional” oposta à “sociedade desenvolvida”.

          O funcionalismo norte-americano teve seu papel nessa mudança, especialmente Talcott Parsons, em cuja obra espelhou-se exemplarmente a aplicação do funcionalismo numa chave de fundo durkheimniano, ainda que a ambição de Parsons fosse produzir uma síntese de orientação weberiana, isto é, centrada na “ação social”.

          O importante aqui é notar que sob a aparente universalização de “sociedade” de modo que não haveria mais o contrário ou ausência, restava a classificação antagônica de primitivo e civilizado. Em Parsons especialmente se dissipa qualquer precaução quanto ao aspecto adjetivo dessas qualificações. Como Guy Rocher bem notou, ele relançou factualmente o sócio-evolucionismo sem mais ambiguidade quanto ao aspecto desenvolvimentista da teoria. A partir daqui, nesse trecho, empreenderemos um exame do cenários funcionalista, antecedendo os outros focos teóricos que deveremos tematizar.
         

        A trajetória da "Sociedade"

         

        Ao aportar aos USA,  o funcionalismo assinalou a segunda onda dos estudos sociológicos neste país, europeizando-os após Park. Mas também se pode afirmar que o funcionalismo norte-americano ocasionou uma segunda onda do próprio funcionalismo. Merton realizou explicitamente uma crítica do que desde então ficava na categoria de predecessor, o funcionalismo “absoluto” de Malinowski e Radcliffe Brown, estabelecendo um novo parâmetro.


         Como ressaltamos, o resultado desse novo ambiente funcionalista foi um momento em que se generalizou ao máximo a oposição de “sociedade tradicional” e “sociedade tecnológica” cujo papel foi de reconceituar a oposição original do funcionalismo entre ausência e presença de sociedade. Agora estaremos tentando apreender algo do modo como essa oposição se espraiou à coalescência, na teoria, de uma noção sociológica de “terceiro mundo”, as nações antes colonizadas e agora supostas tradicionais (subdesenvolvidas),  como realidade autônoma.


          Isto é, tangenciando agora um problema real de interpretação histórica na trajetória da Sociologia, posto que ao contrário do que poderia parecer, não significa necessariamente que a noção de chegada decorre de uma ruptura em relação à oposição de partida. Até mesmo podemos afirmar que chegar a discernir onde isso não ocorreu pode não ser muito fácil.


           Alguma flutuação terminológica que seria  pertinente notar incide nesse ponto, por exemplo, quando alguns historiadores da sociologia consideram Merton funcionalista mas do que chamei a segunda onda, enquanto a designação “estrutural-funcionalismo” ficaria reservada a um terceiro tipo, ilustrável por Parsons. Assim procede Guy Rocher. ("L'organisation sociale")  Enquanto Francisco Marsal (Enciclopédia Salvat, v. "Sociologia"), utiliza a designação “estrutural-funcionalismo” de um modo geral para a tendência assim como se desenvolve desde especialmente Parsons e Merton, nos USA. A tendência que definiria, a seu ver, o "apogeu" sociológico norte-americano em consonância com motivações originais do país, não obstante outros observadores como Rorty salientarem a europeização da teoria nessa época.


         Nesse contexto podemos também exemplificar a dificuldade de vocabulário, acima apontada. Em Rocher, o sociólogo Oscar Lewis é citado como exemplo de uma veemente recusa da oposição de sociedades tradicional e tecnológica.


           Em Marsal, o norte-americano Oscar Lewis é citado como o teórico da “cultura da pobreza” cuja referência é contudo sequenciada no texto pela apresentação do uso mais generalizado da oposição de sociedades tradicional e tecnológica. Portanto induzindo ao leitor, creio eu, a considerar que a noção de "cultura da pobreza" está de algum modo amparando a caracterização da sociedade tradicional em sua defasagem perante o desenvolvimento tecnológico. Pois a teoria de Lewis, na ênfase de Marsal, implica opor “cultura da pobreza” como uma série de requisitos sociais próprios, e mero empobrecimento verificável nas situações históricas precisas como guerras ou depressão econômica circunstancial ocorrendo contudo na sociedade europeia onde a rubrica não seria aplicável.


           Entre as características da "cultura da pobreza" não veríamos portanto qualquer associação grupal para romper com a pobreza – quando isso acontece, deixam os sujeitos de pertencerem a essa subcultura e podem ser considerados participando do “processo social”. Entre outros citados da "cultura da pobreza" temos os itens: alcoolismo, violência física, vida sexual precoce, machismo, matricentrismo, autoritarismo, falta de sentido do futuro, falta de privacidade, alienação em relação aos valores estatais-nacionais.


           Este último item realmente torna independente o tema em relação ao que se segue, é verdade, mas de um modo geral vindo apresentada a oposição de sociedades tradicional e tecnológico, é conceituada como uma teoria da “mudança social”, escalonada em três etapas, cabendo uma característica “de transição” entre as duas mencionadas como tradicional-rural e industrial-urbana. E também se conceitua como uma teoria do desenvolvimento econômico.


          Seria por isso especialmente que a teoria aparece imbricada ao problema de interpretar a realidade do terceiro mundo “subdesenvolvido”.


           Marsal não deixa de notar que houve a princípio hesitação em aplicar diretamente o conceito de "sociedade tradicional" ao mundo “subdesenvolvido” - designação obviamente econômica, contrariamente aquela que é cultural. Mas de fato ele estabelece que foi a opção que predominou, posto que o outro problema, o de explicar a passagem ou transição, foi dominado na sociologia pela noção de “modernização” - a qual se ajustaria bastante bem ao desenvolvimento como processo, tanto quanto, poderíamos inferir, a uma inteligibilidade análoga à passagem da situação de subcultura à de integração ao “processo social”. Aqui portanto, o que pode se desenvolver já não é mais a cultura primitiva tal qual era em si, mas os contextos de nações pós-coloniais já integrados ao capitalismo, no entanto não como protagonistas da produção  e ciência, mas apenas receptores das europeia/ estadunidenses (desenvolvida). O terceiro mundo teria portanto o fenômeno da pobreza conspícua, inversamente ao primeiro em que a expressão "consumação conspícua" foi desenvolvida por Weblen para caracterizar a situação da prosperidade.


         O problema que mencionamos foi, como muito bem esclarece Marsal, o da teoria da mudança do tradicional para o tecnológico apresentar uma noção de transição que de algum modo atendesse requisitos muito irredutíveis e plurais, tantos quanto se podem considerar pelo fato de haver inúmeras situações sociais “tradicionais” como tribos, sociedades gentílicas, de pastoreio, etc., e por outro lado, não se poder concordar que a sociedade tecnológica ou desenvolvida não mais sofrerá mudanças.


         Pelo contrário, já se pensava então que se ela vinha sendo sinônimo de "sociedade industrial", essa atribuição já se estava ultrapassando por referenciais propostos em termos de "sociedade de massas", com novas características, ou também pela noção de "sociedade pós-industrial" - tendo se popularizado "sociedade de consumo", poderíamos ajuntar.


           Hoje podemos notar que a aposta na transição do eixo produtivo para os serviços ao invés da indústria, na proposta do "pós-industrial" , foi precipitada, não capta nada do fenômeno real que veio a ser a industrialização universalizar-se em bases de mecanização revolucionária em relação ao que até aí se conhecia. Mas “sociedade de massas” provou-se uma pista hoje aproveitável plenamente.


        Assim, o quadro amplo de diferenças entre os dois tipos de sociedade, tradicional e tecnológica, disposto por Marsal, fica de algum modo associado ao subdesenvolvimento e desenvolvimento, e mais à frente do seu texto isso é confirmado. Pois quando se trata de comentar algo sobre a própria "sociologia do terceiro mundo", a ciência social que coalesceu nos países assim designáveis, Marsal afirma que não obstante pretender-se original e crítica da sociologia do primeiro mundo, integrou cabalmente a filosofia da história do desenvolvimentismo, que é o modelo da mudança em três etapas, e com uma ênfase demasiada numa concepção cientificista restritiva de todo outro valor humano. Ou seja, importou sem tergiversar a dicotomia de tradicional e tecnológico - a meu ver,  para instrumentar o que seria o seu processo desenvolvimentista a partir de agência local dirigista, considerada modernizadora, o que inicialmente vimos como processo secular de alienação da heterogeneidade local.


           O que Rocher salientou a propósito do desacordo de Oscar Lewis com esse modelo dicotômico relaciona-se ao que Marsal especificou em termos dos problemas não resolvidos imediatamente pela teoria.


          Rocher especifica que a designação dessa oposição de tradicional e tecnológico é a que se generalizou não obstante o fato de que designações alternativas foram usadas com o mesmo sentido, e por vezes até por teóricos que se destacaram na caracterização da dicotomia, como Robert Redfield que utilizou a terminologia de “folk society” para o contrário de “sociedade urbana”.


            Aqui é importante notar que o termo “folk” é usado em várias acepções além desta, e em estudos culturais é muito oportuno para designar apenas a produção cultural local além da “letrada” oficial  - portanto, produção que pode ser muito heterogênea, não significando necessariamente que o pesquisador esteja orientado pela concepção unificante do “tradicional”.


         Redfield, que utilizou a concepção do tradicional, baseou-se amplamente em seu estudo sobre a cidade mexicana de Tepoztlan, e a esta mesma cidade Lewis retornou vinte anos depois com o objetivo de checar os resultados de Redfield. Lewis realizou a descrição de uma realidade completamente diferente da que Redfield documentara.


          Na impressão de Redfield, a cidadezinha mexicana era a imagem de solidez imutável e integração perfeita das instituições – fator típico do “tradicional”, ainda que por outro lado isso signifique apenas que a rejeição a inovação vem da precariedade dos recursos disponíveis. Não se conhece outro modo de defesa e conservação, teme-se aventurar. A isso, Lewis contrapôs  mostrando que havia, no entanto, importantes fontes de conflito e tensão. Redfield replicou que seu modelo não pretendera ser o único, e que uma sociedade pode e deve ser estudada sob várias perspectivas, esperando-se assim resultados igualmente variados.


          Mas o cerne do problema é haver ou não uma realidade social “tradicional” nesse sentido de uma sociedade pensável sem mudança e conflito interno, fatores não de todo idílicos se lembrarmos o que os ampara, o atraso anti-desenvolvimentista.


        Rocher realiza de fato uma longa lista de características das duas sociedades, tradicional e tecnológica, ponto por ponto de acordo com o quadro apresentado por Marsal a propósito da mesma dicotomia. Mas enquanto este estabelece um quadro comparativo claro, com as características contrastantes lado a lado assim como a teoria funcionalista definiu, aquele destaca por um lado a facilidade de se listar os traços da sociedade tradicional, e por outro lado a dificuldade de se fazer o mesmo com a sociedade tecnológica por ser multifacetada em vários aspectos.


         Como vimos, ambos enfatizam que a dicotomia não é um passe-partout e que temos o direito de questioná-la. Mas não devemos pensar que Rocher se diferencie de Marsal quanto ao modo de destacá-la na condição de um referencial crucial da sociologia contemporânea. Assim de um modo geral o quadro de Marsal pode ser utilizado como um esquema do que Rocher desenvolve textualmente.

           Conforme esse esquema comum, “tradicionais” são sociedades em que a estratificação é basicamente o parentesco e a idade, há um sistema único e homogêneo de valores como uma mentalidade mítica, fechamento territorial com inimizade ao elemento estranho, resistência a mudanças quaisquer.
          Especialmente é notável a coincidência das duas caracterizações, de Marsal e Rocher, quanto ao aspecto da economia. Sendo a de sociedades tradicionais muito rudimentar e de subsistência, por um lado ela não se diferencia do sistema social. Mas também o o “homo economicus” é típico unicamente da sociedade industrial ou tecnológica em que, inversamente à tradicional, a economia é especializada em relação a tudo mais.  Mesmo que o espírito da empresa e o princípio hedonista de comportamento imperem, anula toda mentalidade mítica tradicional, e sendo a sociedade tecnológica baseada no eixo mesmo da produção. Marsal informa que o essencial do quadro fornecido está referenciado de Germani.
           O que precisamos destacar aqui é primeiro, que essas características nos colocam a princípio uma mudança importante na teoria social, que o prestígio de autores consagrados, como Marx e Weber, e por outro lado Pareto, não permitem geralmente que seja demarcado. O fator em destaque é o papel da economia. Ela não é mais o que estrutura a própria tarefa sociológica a partir de uma definição abrangente do fenômeno social humano como progresso ou civilização.
           Ela se torna um dos aspectos da descrição quando se trata da oposição de tradicional e tecnológico, mas quando se trata da sociologia como um todo na acepção dos resultados em termos de obras, oriundos de uma frente de orientação conspícua como o funcionalismo norte-americano por exemplo, vemos que ela não integra constitutivamente a própria noção de sociedade.
          Parsons é um exemplo nesse sentido, pois os quatro contextos ou sistemas em que ele enquadra todo fenômeno de interesse em humanities (ciências humanas), sendo o "biológico", o "psíquico", o "social" e o propriamente "humano" (antropológico), não há uma preminência da economia como poderíamos discernir em grandes teorias como as de Marx e Weber, nas quais não podemos pensar as humanities sem a diferenciação fundamental do primitivo e do civilizado na acepção do moderno-ocidental como industrial:  trabalho assalariado ou racionalidade empresarial.
         Rocher o tangencia ao notar que o Marx  original não poderia ser aplicado ao contexto de características da sociedade tradicional, mas ainda assim  considera Marx válido porque por um lado, a economia é o eixo da sociedade moderna ou tecnológica, e por outro lado entendemos que Marx, dominado pela visão desta, tenha se precipitado na universalização do que somente a ela pertence, ainda que ao modo dialético da defasagem.
       Ora, a mesma limitação teórica de Marx é a de Weber. Sabemos hoje que a Economia (como ciência) primeiro caracterizou um estado de coisas “liberal” como o que Adam Smith podia considerar, mas já pela altura dos inícios do século XX, a Economia falava em “capitalismo financeiro” ou monopolista, e ninguém já acreditava no liberalismo de Smith ou na “livre empresa”, livre iniciativa, etc.
          Mas como Weber só podia pensar o capitalismo em termos de “racionalidade empresarial”, o que para ele era sinônimo de livre iniciativa e consequentemente de agente individual do capital – do mesmo modo que  Marx – ele não pode, ainda que estivesse na presença mesma do fenômeno, ser o reconceituador da economia. Não pode chegar à noção de capitalismo monopolista. Ficou na ambiguidade de por um lado a racionalidade burocrática e por outro os entraves tradicionalistas a ela, que pelo aspecto bom significava reação da sociedade ao avassalamento dos valores, mas pelo mau significava, como um efeito colateral ou arcaísmo, a oligarquização do capital. Enquanto Marx operou a mesma ambiguidade na base da oposição entre capitalismo (provisório) e comunismo (futuro). Especialmente Rostovtzeff permite criticar Weber pelo fato de ter generalizado o livre curso de transações bancárias impessoais como restrito ao capitalismo industrial, quando na verdade são práticas há muito conhecidas na Antiguidade helenística. 
          A nossos propósitos é importante nesse ponto tornar ao problema da imbricação de psicologia e sociologia com vistas ao que estamos percebendo como o impulso básico da ciência humana, que é a configuração do próprio Ocidente como um estado colonialista de fato novo num âmbito tão vasto quanto a inteira humanidade conhecida até aí, uma vez que integra o que antes se desconhecia como o continente americano. 
          Assim, é óbvio que não pretendemos que o adulto da psicologia nova, estritamente o moderno-ocidental, é o correlato do ego formado a princípio – porque como informa Wallon por exemplo, o ego só está consolidado aos três anos de idade. Mas sim que essa consolidação demarca a trajetória de um desenvolvimento psíquico que vai se completar na adolescência – como se pode verificar também ser o caso em Piaget ou Freud. Mais tarde acrescentou-se uma psicologia do adolescente em suas formas irredutíveis ainda, à maturidade plena das capacidades se não psíquicas no sentido do intelecto, de personalidade e desempenho social desincompatibilizado com certos aspectos de dependência grupal.
          O que temos de notar portanto é que esse desenvolvimento psíquico é o mais básico fator de diferenciação antropológica na ciência contemporânea, porque é óbvio que não se aceita em psicologia em geral que o "primitivo" apresente as capacidades que se esperam de um desenvolvimento psíquico a partir do ego cujo modelo é o adulto científico-industrial-parlamentar do ocidente moderno. Assim quanto mais se descobria com o funcionalismo que as sociedades são culturalmente autônomas, menos isso impedia a classificação de primitivo e civilizado, porque do lado deste ficava apenas o conhecimento científico e a produção industrial. A falácia é hoje evidente, uma vez que formas de conhecimento ou de economia são os componentes da autonomia da sociedade em questão. Assim a ciência se coloca a si mesma como o fator opositivo, supondo também que é a instrumentação da produção industrial,  sendo porém ela que enuncia a oposição. Mesmo que pareça muito nítido a relação de produção industrial e cientificidade, o fato é que o regime capitalista é mais que apenas a prosperidade nacional, caso em que ele não seria parâmetro da dicotomia primitivo-civilizado. Ele significa o status de potência, assim não depende da ciência mas do imperialismo. 
           O próprio Weber ao tratar a racionalidade como vimos em termos do fator básico só do capitalismo ou livre empresa, atrelou a isso uma teoria da ruptura racional a partir do individualismo protestante. Está claro que desde a psicologia nova, o indivíduo não é um “para si” como para Hegel e Weber, mas o referencial de capacidades específicas, de atuações possíveis. Mas a reserva da egoidade ao mesmo tempo como desenvolvimento psíquico e social permaneceu incólume desde o princípio da modernidade e pode assim demarcar o que é básico ao pensamento moderno.
          Aqui precisamos então indagar da relação desse referencial quando se trata não mais de comunidade e sociedade – gemeinschaft e geselshaft, como se generalizaram os termos – mas sim de sociedades tradicional e tecnológica. Sem qualquer dúvida, todos os requisitos da gemeinshaft foram transportados para a definir a sociedade tradicional.
         Ora, se não parece haver um nexo imediatamente apreensível, por um lado podemos notar que Weber continuou um poderoso impulso no cenário renovado, como por exemplo ele é na teoria de Parsons. Mas por outro lado, vemos que é justamente quando já se está em plena problemática do desenvolvimento numa abrangência geopolítica, implicando a questão do terceiro mundo, que a temática da egoidade retorna explicitada na configuração mesma da sociedade tecnológica ou desenvolvida como uma sociedade do adulto.
          É o que vemos em Ives Lacoste, geógrafo que apresentou como uma característica do subdesenvolvimento o fator de descontrole demográfico a partir da existência de uma função – ou disfunção – econômica das crianças que ajudam os pais na lavoura. Ou seja, a sociedade desenvolvida é aquela em que a população economicamente ativa é adulta. Assim o trabalho é ele mesmo uma função do desenvolvimento social, porque a mão de obra é especializada, vem de uma formação real das capacidades. Não se é solicitado geralmente a integrar o mercado antes da formação da mão de obra atingir esse nível – os filhos são sustentados pelos pais até formarem-se na universidade ou obterem algo equivalente.
          Ao contrário, a família camponesa tem muitos filhos porque eles são  requisitados desde pequenos para atuar na produção agrícola, são necessários para completar o número de braços requeridos para a produção familiar.
         A sociedade subdesenvolvida, segundo Lacoste, já não poderia mais ser confundida com o não-industrializado, porque a industrialização ainda que na base do “dependentismo” ao capital imperialista. já se verificava por muitos lugares. Aqui Lacoste já se pronuncia não inteiramente na circunscrição da oposição de tradicional e tecnológico no sentido de “industrial” . Como veio se consolidando, a oposição transitou à terminologia de “subdesenvolvido” e “desenvolvido”. Então esse traço de conter uma população economicamente ativa não adulta seria mais relevante à contextualização do subdesenvolvimento.
        Lacoste mostra que no terceiro mundo isso é característico no campo – onde, como vimos,  a família pobre tem muitos filhos para que eles ajudem desde muito cedo na lavoura, ao inverso de apenas ser uma família grande em que porém todos são sustentados pelos pais até serem adultos, o que requisita soma alta dos recursos e correlatos fatores culturais, por isso a tendência racional (modernizante) é a redução da natalidade. Segundo Lacoste, a modernização é a satisfação de necessidades para contingente sempre maior da população, ou seja, incremento da longevidade, e isso induziria a explosão demográfica senão houvessem políticas de contenção da natalidade.
           A industrialização do terceiro mundo paradoxalmente não implica anulação da característica do tradicional- “rural”. E por aí acarretando os demais traços de imobilismo e limite rudimentar dos recursos, população majoritariamente "jovem", etc.,  característicos do tradicional.
             Podemos assim inferir, em todo caso, que essa população não tendo acesso a formação qualquer, não chega a um patamar de performance compatível com o parâmetro do adulto pertinente ao mundo desenvolvido. A classificação geopolítica do desenvolvimento abrange atualmente o perfil etário populacional, com a associação entre países jovens e subdesenvolvimento, e  países de população envelhecida e desenvolvimento.
         O conceito de ciclo etário se estabilizou, de modo que se tornou conceituado o processo do envelhecimento da população do país como fator do que já constatamos ter sido acrescentado na teoria social, a noção de transição, de passagem do subdesenvolvido ao desenvolvido como “modernização”. Lacoste pensava assim que um recurso da modernização seria coibir o trabalho infantil, especificamente na lavoura. Os pais pobres reduziriam automaticamente a prole.
         O controle de natalidade seria favorecido, num quadro mundial em que vários problemas relativos ao desenvolvimento tem na explosão demográfica um agravante, como o problema da disseminação de doenças por incremento da circulação de pessoas devido aos novos meios de transporte (avião, automóvel, navios, etc.).
         Mas se contrastamos a realidade de antes dos anos noventa com a atual, vemos que a quantidade de pesquisa relacionada a essa noção se tornou confrontada pela realidade histórica de um novo recorte geopolítico, no qual a concepção de países em desenvolvimento foi anulado.
           O conflito de Leste e Oeste, URSS e USA, foi superado, emergindo o conflito Norte/Sul, totalmente articulado como confronto de países subdesenvolvidos ao Sul e desenvolvidos ao Norte. A invalidação do conceito de passagem ou transição ao desenvolvimento foi real, e devido a ter emergido a consciência do limite ecológico da exploração industrial e modo de vida moderno. Assim os países subdesenvolvidos não podem por razões meramente naturais, aceder ao critério de consumo energético que distingue a sociedade tecnológica ou desenvolvida.
         Além disso, uma diferenciação do nível etário se torna função do próprio capitalismo, não do contrário dele. Enquanto nos países "globalizados", isto é, como agora se designa a penetração das empresas, especialmente de fábricas, multinacionais no terceiro mundo, o uso do trabalho infantil ou adolescente é requisitado pelas próprias multinacionais, com fomento de preconceito ao idoso, os países desenvolvidos se tornam sempre mais referenciais da população longeva. 
          Isto que agora é visível como a interdependência dos estados de coisas nos dois quadros sociais, porém é uma constante histórica, e o que temos verificado é a estranheza de não ser equacionada na teoria social até agora. Como vimos, o que se fazia era conceituar estados de coisas estanques nas sociedades colonizadas e colonizadoras. 
         A ingerência histórica dos países imperialistas sobre a economia do terceiro mundo é causa de sua não-industrialização independente  mais avançada em muitos cenários, mas até hoje não era tematizável a imbricação de história e sociologia, senão para efeitos de dominação da história pelos critérios de evolução social sociológica.
          Uma vez que estamos por demais envolvidos com a emergência desse novo estado de coisas, tão radicalmente contrastante com o rumo da pesquisa e pensamento social que vinha então se consolidando aos hemisférios Norte e  Sul, creio ser muito oportuno tentar apreender o modo como coalesceu o conceito mesmo de terceiro mundo a partir de um núcleo inteligível cujo correlato mais básico é a noção de defasagem e de atraso histórico.
          A designação numérica do "terceiro" apenas sobrepõe a realidade do subdesenvolvimento, hoje associada ao Sul. O primeiro mundo sendo o capitalismo desenvolvido, e o segundo o comunista, que atualmente se restringe predominantemente a  China e Cuba, mas até os anos noventa abrangia a vasta zona de influência da URSS (Russia comunista). 

        === 
               Como notou John Rex, há um elemento construtor do parâmetro sócio-evolucionista subjacente à dicotomia de primitivo, simples, tradicional ou rural por um lado,  e civilizado, complexo, tecnológico ou industrial, por outro lado, que ao mesmo tempo é alicerce do funcionalismo. Trata-se do critério biológico de adaptação.
          Na medida que não pode estar esse elemento inteiramente ausente em qualquer construção do conceito de modernidade ou desenvolvimento, por ser um conceito de evolução humana, é o que nós poderíamos notar como mais amplamente determinante da teoria social enquanto uma tarefa de auto-compreensão do Ocidente na qualidade inevitavelmente “para si” de agente histórico da “modernidade” psico-social, humana. O ego ocidental não se resolve senão contraditoriamente entre o abandono de uma concepção idealista de Si como originário, e a manutenção de uma identidade única na História.
         Ou seja, o positivismo como o primeiro cenário biologista da teoria social, não foi de fato ultrapassado apenas porque a biologia tornou-se menos determinista do que na era de Darwin anterior à genética. Muita coisa mudou na teoria social a partir da recusa do círculo de Weber em diante, de reduzi-la à ciência da natureza, mas além do caráter explícito dessa recusa pós-positivista, o funcionalismo dependeu inteiramente da manutenção do comparativismo, método calcado na adaptação como o correlato do termo privilegiado da comparação do menos ao mais adaptado, do menos ao mais desenvolvido.
          Se o ocidente é o telos ( em grego, o objetivo final) de uma humanidade unificada apenas sob essa "teleologia" ( trajetória pré-estabelecida rumo a um objetivo definido ), foi a noção de adaptação que o estabeleceu nesse status, e precisou ser demonstrada a condição de adaptado ou melhor adaptado como a do ocidente industrial.
         A ciência ocidental se tornou um outro aspecto da caracterização do limiar do adulto - aquele que distingue o sócio-evolucionismo de Piaget, para quem o “primitivo” estaria na fase das operações concretas em que no ocidente estão as crianças de sete a oito anos, isto é, não acede o primitivo à capacidade plena das operações formais que são as que embasam a lógica e as matemáticas, e por meio delas, as ciências.
          É interessante que em Piaget a biologia já não seja um determinismo adaptativo tão fundamental quanto ela se conserva no funcionalismo, como se pode constatar pelos comentários de Rex e Rocher contrastado aos textos piagetianos. E se o funcionalismo tanto quanto o estruturalismo piagetiano recusariam veementemente serem assimilados a Comte, que pioneiramente lançou a concepção da evolução humana em estágios (religioso, metafísico e científico)  tal que o científico ocidental seria o final, com Spencer se encarregando de assimilar o final ao mais adaptado, um e outro conservam contudo os aspectos de articulação do evolucionismo sociológico comteano.
       Vimos já que até agora esse não foi um caminho abandonado do pensamento social, de todo. Mas como ele se tornou tão enraizado, a ponto de uma sociologia do terceiro mundo não ter de modo algum começado pelo questionamento do seu parâmetro? Ou seja, como pode ter se importado a teoria sociológica que abstrai o fato evidente do capitalismo ou sistema industrial ser Colonialismo/ Imperialismo, naquela porção mesma em que não há justificativa do discurso como de pseudo-legitimação do agente, uma vez que se trata da região dominada, reprimida, pelo processo "desenvolvimentista"?
            Como pode ter havido uma concepção do desenvolvimento local fazendo-se abstração de que para repetir ao Sul o processo ao Norte, seria necessário haver região de domínio imperialista além do próprio terceiro mundo, para este predar? E hoje, quando o conceito de desenvolvimento não mais admite transição real, o que se opera são  formas de dominação imperialista total.  

           Sobre a adaptação assim como importante ao funcionalismo, a ampliação do questionamento não implica uma crítica em nível de discurso. Por exemplo, sobre a sociedade tradicional, Rocher salientou o traço de que nela a “bisbilhotice” ( “commeráge” ) tem o mesmo papel que na sociedade tecnológica teria a comunicação de massas (“la presse écrite ou parlée”) – sem notar que não há uma justificativa para que uma coisa e outra não sejam a mesma ação, quando não se trata da notícia de interesse público, mas da propagação de fatos da vida privada de pessoas famosas.
           Como a ação está inscrita num meio de demais ações, ela automaticamente surge como irredutível. Assim a “bisbilhotice” primitiva tem seu relevo como quebra da monotonia do meio conservador tradicional, com a qual a bisbilhotice rompe na qualidade de um fator de humor e novidade, tanto quanto de imaginação, esse meio por outro lado sendo descrito como de ignorância da ciência ou, se o primitivo já foi contatado pela colonização, de ostensivo desprezo ou até ódio pela ciência como Rocher referencia muitas vezes enfatizado por Levi-Strauss.
      Traço frontalmente oposto ao da sociedade industrial, onde a ciência é extremamente valorizada em função da racionalidade como liame intrínseco – também ao contrário do pensamento mítico do primitivo, onde supõe-se que não há explicação mas somente narração (“la mythologie tient lieu tout à la fois de sciences naturelles, d'histoire e de science social”).
         Assim a “bisbilhotice” primitiva é diagnosticada como função de controle social. Mas a caracterização da sociedade industrial não tem um item especificado para a função da comunicação de massas. Pois na sociedade industrial há uma função organizada da novidade, nessa sociedade traço intrínseco é estar sempre em mudança, sempre em progresso, e o valor dos líderes, o cientista, o administrador ou o político (“l'homme de science, l'administrateur, l'homme politique”) é atribuído à luz do progresso para o qual eles contribuem em seus domínios de atividade.
           Rocher já registra, como vimos,  a preocupação dos sociólogos à época da produção do seu estudo – o copyright da edição francesa é de 1968 – em inovar sobre o conceito de mudança social ao ponto de uma teoria da sociedade atual que já não estaria totalmente apreensível por aquela produzida antes tendo por visibilidade a sociedade industrial, cujos albores datam do século XIX. A sociedade industrial estaria evoluindo perceptivelmente ( “en train d'evoluer sous nos yeux”), e até por isso o próprio Rocher utiliza a expressão “sociedade tecnológica” ao invés de “industrial”.
         Mas como precipitadamente aceitou a designação “pós-industrial” para o novo cenário, para ele o “pós-industrial” como este novo cenário entra como novo sub-tipo, além do designado “industrial”, ambos para um mesmo universo social, o da “sociedade tecnológica”.
         Atualmente nós não consideramos pertinente essa concepção, pois sabemos que a transformação informática e “internacionalização da economia” são os dois aspectos decisivos tais que não mais podemos considerar a tarefa teórica de apreensão do novo como uma mera veleidade – tal como alguns na época ainda podiam pensar, taxando de exagerados os que a ostentavam. Por outro lado, historicamente o processo continua estritamente o mesmo - imperialismo, impedimento da independência econômico-cultural e mesmo tecnológica ao Sul, para disponibilização do mercado em função da produção-civilização do Norte.
           Mas uma vez que compreendemos ter havido uma ruptura histórica na altura dos anos oitenta-noventa, e se são aqueles dois os aspectos decisivos, é claro que eles são oriundos da indústria e implicam transformação do fenômeno industrial – não o deslocamento do eixo da produção ("secundário") para outro setor, o dos serviços (“terciário”), como já acentuamos (sendo o "primário" o setor agrícola).
        A União Europeia, por exemplo, como um fator histórico de peso, tem sido estudada como uma transformação industrial – ver sobre isso Wilson Canno ("A nova des-ordem internacional"). É um novo tipo de “protecionismo”. Os blocos econômicos são consequência da economia de empresas “multinacionais”, posto que superam seus ativos aquele de um só país - ou o reflexo dos interesses conjuntos dos monopólios que tem sede nos países dos blocos, como na Europa. A “toyotização” é expansão da própria fábrica em nível internacional – tal que pedaços diferentes de um mesmo produto são feitos em lugares diferentes ao redor do mundo, conforme as condições mais vantajosas. Tudo isso é fenômeno tecno-industrial.
        O Brasil é exemplo: a transformação conspícua recente foi e está sendo o sucateamento das “estatais” para total industrialização local - somente por “multinacionais” e grupos oligárquicos associados ao capital “central” (dos países desenvolvidos, sob regime de “neoliberalismo econômico”). Conforme Canno não se justifica o argumento de que a tecnologia local seria inviável, defendendo ele o programa informático nacional "cobra" como inteiramente proveitoso, tendo sido porém o modelo internacional adotado. Já Aron informava nos anos oitenta que os franceses construíram seu programa nacional assim que ficou patente o avanço da tecnologia pela IBM, etc. 
         As condições de recepção do capital multinacional são as mais penosas - isenção de impostos, liberação de somas altíssimas em recursos para fomentar as instalações da fábrica; repressão na cultura para que possa haver barateza da mão-de-obra sem consciência dos direitos civis;  repressão estatal, com desvirtuamento das funções de segurança, contra a consciência caso coalesça ou se perpetue; submissão aos modelos inferiorizantes da condição local e desfavorecimento da empresa nacional, todo tipo de facilitação como liberação de localidades, inexistência de proteção ecológica, obstáculo a políticas anti-cartel, etc. - conforme se sabe amplamente mas está bem documentado em Radiografia de um modelo, de Werneck Sodré e muitos estudos que já tornaram o imperialismo monopolista um senso-comum. A transição à "globalização" desde os anos dois mil não muda muito esse quadro, exceto pela desnacionalização dos setores básicos, e consequentemente pela maior dominação  do imperialismo, especialmente sobre a cultura. 
          Mas com relação ao cenário de época da teoria social que estamos estudando, vemos que Rocher por um lado ilustra, quando se trata de características que teriam a ver com o novo sub-tipo, a ambiguidade de um momento em que a transformação decisiva ainda não havia se estabilizado. Assim, mesmo quando ressalta itens importantes não os avalia com a pertinência que hoje a eles concederíamos. Por outro lado se torna muito mais relevante ao tematizar certos aspectos então bem estabelecidos quanto à “sociedade industrial” enquanto exemplares do que embasava o discurso da própria ciência social da época.
           A apreensão do novo aparece portanto como um limite a esse discurso – tal que quando se trata ao invés da teoria social, de historiadores que lidavam apenas com a cobertura do efetivo como Claude Julien, David Halberstam e Maurice Dobb, muito mais parecidos com o nosso situamento atual se verificam.
         A comunicação de massas entra como um dos itens do que seria o “pós-industrial” em Rocher, além de, naturalmente, a importância do setor terciário (serviços). Os outros itens são apenas “civilização do lazer” , “importância da instrução”, “hordas (foulles) anônimas",  e em termos de estruturas políticas, “movimentos sociais e participação”.
         Aqui algo surpreendente é a contradição que Rocher salienta estar havendo entre estes dois últimos contextos. Pelo primeiro ("movimentos sociais"), as estruturas políticas não portam mais sobre grupos identitários reconhecíveis como por exemplo classes sociais ou associações voluntárias, mas sobre massas anônimas integrando apenas grandes organizações e movimentos, cujas chances de engajamento subjetivo são pois apenas a partir da posição isolada dos indivíduos.
        Mas se pelo segundo item ("participação") tal tendência é invertida, pela organização de grupos em torno de causas sociais determinadas como de exploração ou preconceito de raça e status. Rocher caracteriza tais movimentos de participação como contrários às regras de jogo da democracia. Seriam causas que, na medida que protagonizadas por camadas sociais longamente alienadas e pouco instruídas, facilmente se constatam identificadas a ideologias totalitárias.
          O item “comunicação de massas” está apresentado sem conexão referenciável ao que dos anos setenta em diante podemos observar como literatura produzida sob a rubrica “Sociologia da comunicação em massa”, por vezes expressa pela variante “Sociologia da cultura em massa”, isto é, a mídia composta de imprensa, rádio, cinema e televisão, atualmente o computador de internet. Posto que o fenômeno que Rocher trata assim está misturado ao fator de expansão sem precedentes do mercado de informação – como por exemplo, o editorial (publicação de livros).
           O que lhe permite julgar que a comunicação de massas é na sociedade pós-industrial apenas o veículo novo da mesma característica da sociedade tecnológica que na industrial vem tipificado pelo item “braçagem" (“brassage”) de ideias: convivência de valores e referenciais múltiplos, mutantes e controversos.
       Inversamente, a rubrica na sociologia mais recente surge a partir da demarcação de algo específico, não qualquer material impresso, mas o big business de propaganda,  jornal, rádio, revista e televisão, esta que em alguns países é  capital particular e em alguns países começou por ser exclusivamente estatal mas distribuído apenas a grupos oligárquicos.
           Assim não é por editarmos um jornalzinho independente, ou por existir o “livro de bolso”, que somos referenciáveis como integrantes da “mídia” nesse sentido de um business, ou que qualquer mercadoria editorial o seja. Além disso, utiliza-se a partícula “em” para denotar que não é algo produzido pelas massas, mas para as massas (em nível de circulação de massas).
           Mesmo essa rubrica da Sociologia transitou portanto antes da micro-informática, mas hoje o tratamento conceitual do fenômeno, que teria de abrangê-la, já está conexo aos novos parâmetros da teoria social, que estamos por examinar desde que já enfatizamos que houve transformações importantes.
          Algo sobre essas transformações que já podemos notar é o que em Halberstam (“The powers that be”) e  Cl. Julien (“L'empire americaine”) se verifica como o que me parece a tendência importante – aquela que demarca minhas próprias ocupações de pesquisa.
            Ou seja, não se separa totalmente o problema “cultural” - conteúdos e discurso do business de mídia – da questão “industrial” (atuação político-empresarial e imperativos tecnológicos). Assim a mídia se torna integrante necessário do “capitalismo tardio” do mesmo modo que quando estudamos o capitalismo do século XIX não podemos supor que a tração a vapor ou o imperialismo não o são.
          O capitalismo tardio seria expressão máxima do capitalismo como ilegalismo e integração despótica de força (militar-governamental) – ao contrário de “racionalidade” ou de “democracia”.
         Assim vemos que a oposição de “tradicional” e “tecnológico” deixa de ter operacionalidade. Pois grupos de força midiático foram descritos como de mentalidade “tradicional” ( e não como grupos agindo apenas visando lucro financeiro) – ver sobre isso especialmente em Halberstam o estudo sobre o “los angeles times”, onde se enfatizou a mentalidade reducionista de todo social à identidade e atuação do grupo genealógico de um setor da elite local (que consequentemente impediu o quanto pode pela força a organização “moderna” da população, em sindicatos e uniões trabalhistas, e por "partidos" democrático ou socialista).
              E também o estudo sobre a Time Magazine, onde se verifica a conexão da censura midiática com o protestantismo (a propósito da revolução chinesa e depois do Vietnã). Ou sobre a BBC televisão, onde se constatou a ingerência da ideologia capitalista conforme também exigência de patrocinadores sobre opções dos profissionais contratados, coibindo-as ou sabotando-as. 
        Entre as várias denúncias importantes do ilegalismo midiático, o estudo de Halberstam é uma história da mudança social norte-americana, notadamente dos anos trinta aos setenta, em sua face político-governamental. Assim utilizando combinados esses referenciais da história efetiva, e também outros, considerei uma articulação mídia e Executivo como sendo construída desde princípios do século XX e bem estabilizada como sociologia do Poder norte-americano já desde meios daquele século. 
         O grande-capitalismo midiático solapou a organização democrática na ênfase do legislativo (congressos e senado), ao invés instaurando uma relação direta – portanto autoritária ou propriamente “carismática” - presidente-massas. O poder do grande-capital midiático de nomear candidatos, e portanto de controlar as eleições, já estava configurado a partir do fato desse grande capital ser oriundo dos clãs tradicionalistas que já faziam o papel da dominação oligárquico-monopolista local, mas esse esquema conhecido de corrupção se transforma significativamente a partir de que o presidente se torna personagem produzido em todas as suas possibilidades de obter ressonância junto ao público, pelas regras da fotogenia de câmera, e do apoio financeiro dos clãs.
             Circularmente, esse “público” não é mais o eleitorado consciente, mas apenas o “robô” capaz de recognição da fotogenia e performance televisiva. Creio que se pode deduzir da leitura de Halberstam por exemplo, que a mídia criou e destruiu a figura presidencial de Richard Nixon – conforme seus interesses mutáveis no tempo em função da veleidade de Nixon manter a presidência, uma vez eleito, independente dos
clãs.      
           Além disso, desde os anos setenta já estava configurado o fenômeno de midiatização do real – nada que é mostrado pela mídia sendo feito é protagonizado por aqueles que realmente fazem, é apenas a mídia mostrando fazer, e isso principalmente com relação a eventos governamentais.
           É importante notar que paralelamente, não encontramos na teoria historicamente importante desde os anos setenta, real reflexão sobre a realidade do legislativo. A propaganda da economia neoliberal solapando o Estado para conceder todo poder ao grande-capitalista, converge com teorias como a de Clastres, Deleuze, e outros, que sempre referenciam abusivamente Estado apenas como “unidade” despótica do soberano. Quando na antropologia como demonstra Willems, todas as sociedades tem Estado por isso que tem leis como instituições públicas seccionáveis ideologicamente dos costumes sociais.  O que por outro lado ficou como a ala que aceitava discussão da questão da lei – entre Foucault, Derrida e as novas bases da “teoria crítica” por exemplo – esta se apresenta compactada na sua feição jurídica, isto é, como código instituído, ao invés daquilo que mais propriamente é na realidade da democracia,  processos de negociação/interpretação representativa da heterogeneidade em devir.
          Assim, à luz da sobrevivência desse ora grande oculto, o legislativo, onde se trata antes das formas legitimáveis da elaboração da lei, quando se trata de representação sem corrupção,  porém, podemos entender porque o capitalismo, se já parecia estar tão bem imperando até aí, precisou mudar tão drasticamente as regras do jogo “keynesiano”. Evidentemente o legislativo tem um papel importante de atuação dos direitos da cidadania, conforme tem sido minha posição a propósito. Nele devem estar representados os interesses da heterogeneidade da população referencial da constituição, não um grupo de privilégio decretando códigos conforme suas concepções particulares, ao que se reduz a "administração" das grandes firmas a propósito do cotidiano da circulação de bens e serviços.
           Após o positivismo neocolonialista, a partir de inícios do século passado, realmente emergiram forças de organização social importantes, cuja expressão se traduziu nas instituições legislativas. Ver sobre isso por exemplo as citações de Maurice Dobb (“Evolução do Capitalismo”) a propósito das comissões de inquérito promovidas contra a violência aberta, brutalmente ilegal, dos grandes-capitalistas sobre a população trabalhadora nos Estados Unidos dessa época. Algo perfeitamente coerente com o que Halberstam mostrou serem as ações repressivas por parte dos clãs. Assim uma constante do capitalismo ressignificado como colonial-imperialismo, portanto remontando a quinhentos anos de vigência, pode ser definida. O capitalismo domina as instituições legais para distorcer o aparato da organização civil, porém quando a organização se mostra resistente o bastante para não permitir a distorção corrupta, então o capitalismo se lança ao ilegalismo brutal, cooptando as máfias do crime organizado, subornando as instituições legais, etc. 
           Mas até que a tendência de visar o business de mídia na estruturação material do capitalismo se consolidasse, como em Julien e Halberstam, o interregno da Sociologia da comunicação em massa foi marcado pela limitação de “conteúdo”. A título de exemplo,  uma resenha das várias teorias que concorreram na definição da causa do "conteúdo", as quais tentavam definir a “mola” do fenômeno midiático, exemplificaria, entre outras propostas: mera captação de audiência visando lucro financeiro; ou adaptação funcional ao gosto do público; ou circulação seletiva de materiais e tendências culturais; ou simplificação universalista do conteúdo (apresentar tudo como imediatamente compreensível por qualquer um, mesmo quando obviamente não seja); ou propagação da ideologia de um único grupo social dominante.
          Jacques Fauvet distinguiu a imprensa escrita responsável e informativa por um lado, e mídia “intoxicante” sensacionalista e violenta, por outro lado. Isso é algo importante, lembrando que Fauvet era então diretor do Le Monde, e tanto Julien quanto Halbestam foram repórteres – especialmente Halberstam registrando a censura a que suas observações foram submetidas quando cobria a guerra do Vietnã. Fauvet considerava a cultura do livro o antídoto à mídia intoxicante. 
          Enquanto ficou somente em nível de conteúdo, portanto, a crítica da mídia foi paralela à defesas da mídia – por exemplo, em Mario Faustino ou Linda Hutcheon – porque não se distingua os dois fatos que Fauvet conceituou como diversos,  nem se distinguia entre business de mídia e circulação qualquer de material impresso ou filmado,  ou porque em países como o Brasil a referência universitária não é abrangente o bastante para tipificar a produção intelectual, e a imprensa atuou muitas vezes como válvula de escape no emprego dos letrados. O que no entanto não é significativo do fenômeno assim como o especificamos mais na atualidade.
           Em contraste, houve a condenação violenta da mídia pelo fator dos seus meros imperativos de captação sensível, como expresso em MacLuham Pelo fato da mídia elétrica monopolizar o aparelho perceptivo ela seria um tóxico viciante, isolando a mente do contexto real circundante.  Este seria um movimento posterior ao tipo de rejeição radical antes levada a cabo por Adorno, no bojo da “escola crítica” (Benjamin, Horkheimer, et alii), que focalizaram as relações sem inteligibilidade, mesmo infantilizantes, da propaganda, reduzindo todo o contexto (de conteúdo) da mídia a expressão do capitalismo dominante. Assim também notaram a interseção sistêmica do produto e da propaganda, pressupondo um estágio definível do capitalismo como mentalidade de massas e imperativo dos costumes sociais.
          É preciso notar que mesmo havendo as obras de Halberstam e Julien, que instituem as formas estruturais que me parecem apropriadas do estudo do fenômeno, a meu ver este muda em grande escala quando se trata da informatização e “internacionalização da economia” ("globalização"), o que está ainda por ser estudado como contexto que a meu ver é o de um neofascismo (info-midiático). 
       Assim posições que hoje nos parecem mais ponderadas, tomadas contudo antes dos oitenta,  são avaliáveis enquanto naquele contexto em que o neofascismo ostensivo da "globalização" pós-soviética neoliberal não era ingrediente necessário. Posto que ainda se pensava em termos de "modernização" como "desenvolvimento" possível na margem.
           Para entender isso basta notar que na linha que vai da teoria crítica de Adorno a Macluham, um contraponto mais ponderado seria o daqueles que almejaram conceituar uma “mola” da mídia também por esse viés da construção de sua “inteligibilidade”. Mas não reduzindo tudo à propaganda, viram na variação motivacional dos programas algo real, sendo que nela haveria apenas um denominador comum, o fato de sempre a mídia procurar reduzir cada coisa que está sendo apresentada a um único referente significado que seria correlato dela.
         Mas só por isso não teríamos correlato de dominação ideológica, e o problema das teorias de então era que ao mesmo tempo que pudesse ser visível haver, podia-se ainda assim pensar que não era o fator determinante, e sim apenas marginal, do fenômeno, com exceção de Adorno. Portanto a mídia em si era sempre um fenômeno derivado e não constitutivo da sociedade contemporânea.
          Vemos portanto que Rocher nos fornece uma boa visibilidade da história da Sociologia, mas dentro de um referencial que precisamos examinar em suas defasagens às transformações que referenciamos ser nossa tarefa apreender. Ora, Rocher ilustra algo importante no rumo dessas transformações, ao incluir nos itens da “sociedade industrial” (tecnológica), o fato dela ser “profissionalizada”. Uma vez que se trata de uma sociedade cujo eixo é a produção econômica (tecno-industrial), implica que as pessoas são referenciadas pelo cargo que ocupam, sendo o cargo que determina o salário e não alguma qualidade “pessoal” dos ocupantes do cargo.
        Assim ser profissionalizada é a característica de uma sociedade em que a estratificação não é apenas “de classe”, mas, de modo correlato, de prestígio ocupacional. Levantou-se por várias pesquisas feitas em países desenvolvidos diferentes, uma surpreendente homogeneidade da “escala de prestígio das ocupações”.
          A meu ver esse tipo de pesquisa e principalmente a ênfase que os sociólogos lhe atribuíram acompanha bem o que seria a transposição do funcionalismo ao que desde que ele se radica nos USA passa a ser a perspectiva da unidade da “sociedade”.
           Como vimos, já não se trata do funcionalismo alemão onde há por um lado o primitivo ou a comunidade (gemeinschaft) como ausência de sociedade (geselshaft), ainda que se preserve nesse novo momento funcionalista, a dicotomia das sociedades “tradicional” e “tecnológica” ( ou industrial/moderno-ocidental). Inclusive, a crítica de Lewis a Redfield, que examinamos acima, contrária a essa dicotomia do social salientava que ela apenas repetia a oposição da ausência e presença de sociedade tal como se poderia constatar transitando desde o rousseauísmo. E como vimos, contudo a própria teoria de Lewis mostra-se aproveitável para efeitos da mesma oposição entre o desenvolvido e a desenvolver.
          Mas agora o importante a nossa perspectiva é notar que a unidade funcional da “sociedade” foi se encaminhando nos rumos do que Parsons conceituava em termos de "estrutura da ação social".  
          Assim vemos a influência de Durkheim, posto que ele qualificou a ocupação profissionalizada como o correlato da solidariedade orgânica característica da sociedade desenvolvida, contra o que designou sociedade mecânica, que integrava indivíduo ao papelsocial, da sociedade primitiva. Assim como Marx sugeriu a analogia do carneiro para a consciência pré-egológica, Durkheim considerou a solidariedade mecânica como o nível invertebrado do reino animal,posto que as funções seriam como uma fileira, seguindo-se fixamente porém sem integração inteligível, e a solidariedade orgânica como a dotação do sistema nervoso central que organiza as funções inteligivelmente, na escala da evolução  biológica. 
       Já a estrutura da ação em Parsons se desenvolveu em torno do que seria a consecução de mapas mentais, num novo desdobramento da conexão que estamos tentando levantar a título de unidade metodológica profunda das ciências humanas enquanto paradigmas de época. Seria portanto um novo desdobramento da conexão da teoria social com a psicologia.
          Theodore Abel criticou Parsons por ter admitido reiteradamente essa unidade. Para Abel, Parsons foi um sociólogo apenas, e não um teórico para além desse campo, como poderíamos supor ser um filósofo. Mas o problema não está assim bem colocado. Parsons referencia o gestaltismo em psicologia como o que está em convergência com o seu paradigma em “The structure of social action”. E realmente o paradigma holista do funcionalismo é metodologicamente comum a ambos. A metodologia não foi considerada por Abel. 
          Como muitos viram, a releitura parsoniana de todo o passado da teoria social nesse estudo implicou que depois vários expoentes desse passado se tornaram referenciais de uma espécie de senso comum cuja definição encontraríamos nela. Especialmente se diz isso a propósito de Max Weber.
          Mas o que Parsons pretendeu com uma obra tão monumental foi a liquidação do positivismo, com a integração da teoria social pelo funcionalismo na nova chave da unidade do social que ele mesmo estava criando.
           Como observou Rocher, a reputação de Parsons ficou sendo a de um sociólogo do “estatismo” social, isto é, da unidade e imutabilidade de toda “sociedade”, tradicional ou tecnológica, reconceituada como “sistema social”.
         A meu ver apreendemos o que o próprio Parsons estava referenciando ao informar este paradigma como de todas as "humanities" a seu tempo, se por estatismo entendermos o referencial de uma totalidade: tal que nenhum elemento se compreende por si fora de sua integração no todo.
          Assim não basta sabermos que certa ação se cumpre em certa sociedade, mas precisamos ter claro quais outras ações são possíveis para entendermos o limite do inteligível nos termos da ação. É por isso também que Parsons acreditou, não obstante seu funcionalismo, ter reabilitado o “comparativismo”, conspícuo positivismo,  como base do sócio-evolucionismo em sentido forte, isto é, como julgamento ajetivo do “evoluído” (melhor adaptado).
        Rocher não criticou essa posição de Parsons em relação às humanities, mas a supôs bastante coerente com a teoria social parsoniana – de modo que o problema da gênese da unidade maior, não paradigmático-sociológica mas da epistemologia das "humanites" é que ficou por se entender. Ou Parsons se pensou a partir da nova sociologia integrando o que nas "humanities" estava disperso, ou pelo contrário, aplicando a nova epistemologia da integração em trânsito nas "humanities" naquilo que até então era a dispersão dos conceitos no campo restrito da sociologia.
           Um dilema semelhante se encontra em torno do tema da origem do funcionalismo. Alguns pensam que da sociologia de Durkheim o funcionalismo se alastrou como método para a antropologia social, enquanto há os que sustentam que Durkheim importou na sociologia as inovações antropológico-funcionais pioneiras de Malinowski e Radcliffe-Brown.
         Na história da sociologia funcionalista, vemos que a tipologia da ação havia sido conceituada por  Weber e Simmel para diferenciar a sociedade moderno-ocidental como a única na história humana em que o tipo de ação “racional” era ao mesmo tempo o ideal-típico de toda socialização inerente. O racional neste caso significa apenas a ação ajustada ao objetivo, sem ritual ou outras formas de justificativa “para si” – portanto, não era por si só evolução em sentido adjetivo, e a teoria serviu ao contrário a muitos “tradicionalistas” que viam neste tipo de racionalidade apenas alienação dos valores.
         Em Parsons não subsiste uma tipologia, mas pelo contrário se procede uma distribuição das áreas (contextos ou sub-sistemas) em que ações quaisquer são possíveis. Áreas que já vimos como  do biológico, psíquico, social e cultural.
         Uma vez que estivesse assentado serem as áreas universais de todas as formações de coletividades tal que de sua co-pertinência elas se consubstanciam em sociedades propriamente, as ações que em cada sociedade se observam não são “tipos”, como racional ou ritual, mas integradas como o observável dela.
        Se por um lado há uma associação meramente comportamental (subjetiva) do biológico e do psíquico (personalidade), o agrupamento dos sujeitos se torna "sociedade" a partir da associação propriamente socializante do social e do cultural, mas na medida em que o social concretiza a "institucionalização" do que já está possibilitado como cultural.
           O social parsoniano é um sistema composto pelos elementos seguintes: "papeis sociais" (modos de pertença e participação subjetiva na sociedade), "coletividades" (grupos institucionalizados como família, universidade, fábrica, etc.), "normas" (modelos de ação), e "valores" (orientação do que é desejável em geral). Estes elementos são amparados por funções relacionadas aos sub-sistemas de ação, conforme a correlação: função de estabilidade normativa (valores/ sub-sistema cultural); função de integração (normas/ sub-sistema social); função de perseguição de fins (coletividades/ sub-sistema da personalidade); função de adaptação (papeis/sub-sistema biológico).
         Os elementos do sub-sistema social são canais por onde a cultura (valores, ideais, símbolos) passa. Por exemplo, como destacou Rocher, o valor cultural da justiça se institucionaliza no papel do juiz, no aparelho judiciário e nas leis. Podemos assim deduzir que a institucionalização transforma a cultura em socialização, uma vez que a institucionalização concretiza o valor em práticas reais, normativizantes/ normativizadas.
          A socialização é estrutura, esta definida por Parsons como “modelos institucionalizados da cultura normativa”. Ou seja, o que Parsons define como estrutura é uma totalidade em ato, a institucionalização que não é algo único como um instinto de gregaridade aristotélico por exemplo, ou o instinto de imitação de Gabriel Tarde, mas sim articulação de elementos sociais determinados, concretos, conceituáveis.
           As ações descrevem o mapa mental que orienta cada agente social na sua auto-compreensão atuante com sentido. O mapa pode ser orientador de sentido porque é o mesmo para todos os agentes da mesma sociedade. Ele existe, portanto, mesmo que não haja qualquer sociologia apta a reconstituí-lo.
         Quando alguém executa a ação de ir a uma loja comprar alguma coisa, os atendentes da loja tem em mente a mesma norma da ação que orienta o comprador. Este receberá a mercadoria dos atendentes após efetuar o pagamento requisitado a eles. Todos os envolvidos na ação compartem um mesmo mapa mental da sua composição. É o mesmo para todas as ações que podemos imaginar factíveis numa sociedade, as quais transcendem o aspecto puramente individual porque são ações em que participam várias pessoas.
        Assim, como uma epistemologia, temos o princípio pelo qual o mapa é arranjado de um modo que na mente não há uma ação elementar, mas o todo social em que somente as ações vão posicionar-se como dotadas de sentido. Esse é o mesmo princípio da psicologia gestaltista: tudo é percepção, mas as leis da Gestalt, Forma ou Estrutura,  como do  percebido,  são decorrentes do fato genético da preminência desse Todo  sobre as partes. Se somos capazes de análise, de discernimento das partes, é algo em segunda instância, não o estruturante básico da percepção. A música se torna o referencial exemplar, pois se pensa, como Paul Guillaume esgrimindo contra o atomismo mental, que uma música é um todo, nós não a lembramos por partes como o executado pelos instrumentos particulares.
          Assim, Parsons pode ao mesmo tempo interpretar Weber como já tendo sido uma postulação do mapa mental nessa acepção, ainda que somente a classificação das ações em geral como racionais ou irracionais (rituais, sentimentais, etc.)  não seja o mesmo que o próprio Parsons queria operar.
           A analogia que visei é então entre o mapa mental e a homogeneidade da escala do prestígio ocupacional. Essa escala ilustraria perfeitamente a nova tese funcionalista. Ora, o comparativismo que teria de ser rejeitado para uma teoria não-positivista, pelo contrário é reinjetado justamente porque se trata de totalidade e não de conjunções aleatórias de ações possíveis. Se há um quadro sistemático dos componentes que se ajustam como vimos acima, nele há espaço para uma hierarquia “de controle da ação”.
           Trata-se de uma polaridade parsoniana entre o que é “rico em energia” e o que é “rico em informação”. Ainda que Rocher tenha mantido o conceito do neo-evolucionismo parsoniano na base do mais adaptado definido como o mais satisfatório, mais produtivo, mais conforme ao potencial existente (“état plus satisfaisant, plus productif, ou encore à um état qui correponde mieux aux aptitudes latentes et aux enegies disponibles”), entendo mais do que se trata pelo que à frente ele libera como quadro geral parsoniano da ação.
         Na minha interpretação do quadro de Rocher que sintetiza os componentes da teoria parsoniana da ação, vemos que entre o “rico em energia” e o “rico em informação”, este segundo é o parâmetro do neo-evolucionismo, na medida em que eles são inversos. Numa verticalização sequencial (de cima para baixo) entre valores (socialização), normas (direito), coletividades (política) e papeis (economia), a riqueza em economia, posicionada junto ao quarto elemento, cresce na razão inversa da riqueza em informação, posicionada junto ao primeiro elemento. A série vai portanto como numa linearidade perfeita, da socialização à economia e da economia à socialização, decrescendo a informação da socialização à economia, e inversamente crescendo a energia, mas vice-versa se lermos da economia à socialização.
         Essa é uma correlação bastante aproximável ao que se subentende da oposição de Durkheim entre solidariedade mecânica (primitiva) e orgânica (civilizada/industrial). Ao contrário do que pode parecer, a preensão total do sujeito pelo papel social desempenhado porém em função de sua posição na economia resulta numa sociedade menos integrada do que ocorre na industrialização, onde os papeis sociais não são redutores dos sujeitos, que não são assim identificados por seus cargos, mas sua subjetividade se compreende pela integração das funções que na sociedade estão coordenadas inteligivelmente.
         Não obstante Durkheim ser o marco do funcionalismo na sociologia, esse princípio é basicamente o mesmo que o de Spencer. A evolução é um processo de diferenciação e integração. A estrutura não-desenvolvida é internamente homogênea e suas partes não se juntam, enquanto a desenvolvida é heterogênea e coesa.
           A solidariedade mecânica primitiva  conceituada em Durkheim é uma sociedade "segmentarizada", composta por grupos que convivem lado a lado,  enquanto a solidariedade orgânica civilizada é uma sociedade administrativamente e legislativamente "centralizada". Ou seja, ao contrário do  suposto como tal puro fisiologismo da economia primitiva, a civilização é uma socialização autônoma.
            Rocher amplia o comentário sobre o sócio-evolucionismo parsoniano ao notar que se trata do critério de especialização. Se pudéssemos suspeitar, pelo comentário anterior, que Parsons mais pretendeu que logrou superar nisso ao critério da crescente divisão do trabalho de Durkheim, agora entendemos mais que realmente a especialização evolutiva de funções e papeis não é redutível ao progresso econômico. Mas inversamente ao que pressupõe Durkheim, hoje pensados mais podendo ser integrado ao progresso da intercomunicação cultural que decorre desde as Grandes Navegações, ao contrário do sócio-progressismo onde só há evolução na cultura "ocidental", hoje o Norte geopolítico.
         Assim no percurso parsoniano de crescimento da energia, direito e política estão direcionados da socialização para o econômico, mas ao contrário quando o que cresce é a informação. Com efeito, um exemplo de sociedade menos evoluída que a moderno-ocidental seria a da Idade Média europeia, segundo Rocher, onde  a coletividade religiosa era do mesmo modo a política e a econômica (“la collectivité religieuse y est em même tempos une collectivité politique et économique”), a igreja preenchendo ao mesmo tempo as funções de integração, adaptação e perseguição de fins.
           E inversamente, a cultura na sociedade civilizada, complexa, é diversificada pela multiplicação de estruturas concretas, coletividades e sub-coletividades (“la culture de la société complexe est diversifiée par suite de la multiplication des structures concrètes, des colletivités et sous-colletivités”).
          Se minha interpretação da hierarquia do controle está correta, Parsons acompanha bastante bem o que atualmente é o critério de desenvolvimento: não superioridade de armamentos ou econômico, mas a socialização como “desenvolvimento humano” – ausência de pronunciada desigualdade de qualidade de vida entre porções populacionais e igualitário acesso a bens e serviços dentro da mesma sociedade.
           O que obviamente não quer dizer “nivelamento” por baixo, mas o contrário, desqualificação dos dispositivos de inferiorização social a um nível que impede tratar a questão das minorias tal como vimos ainda em Rocher, posto que essa questão é o fator chave na transformação que tem se designado “pós-moderna” da teoria. Não se tratando de uma prerrogativa de status, mas de anulação dos dispositivos de discriminação. Contudo, Rocher realmente antecipou problemas neste sentido que ainda subsistem, pois nem sempre a política anti-discriminação tem sido apenas isso, como demonstra Sorman ("Os novos bárbaros"), veleidades criticáveis como as de Diopp, que pretendeu reduzir todas as culturas à africana, e outros contextos semelhantes.
          Quanto a Parsons é importante notar, como Rocher enfatizou, que ele pensa a mudança social ou como inovações a serem absorvidas pela estrutura, ou como mudança de estrutura. Ou seja, ele supõe assim estar integrando a mudança social num parâmetro funcionalista estático.
          Haveria assim na análise do equilíbrio do sistema, ou seja, análise de sua resistência às tensões (“strains”) dinâmicas ou pelo contrário, seu movimento para transformar-se estruturalmente, o surgimento de um sub-sistema “paralelo” ao da estabilidade normativa quando este, ao invés de traduzir uma transformação estrutural em curso, investe a resistência às mudanças. Seria o “paralelo” um “sub-sistema de contestação” que pode ser expressamente revolucionário (movimentos guerrilheiros, anarquistas, extremistas, etc.) ou marginal (gangs, delinquência juvenil, associações negras, etc.) - conforme exemplificação de Rocher.
         Na medida que a cibernética ou teoria geral dos sistemas integrou principalmente a formalização matricial da “transformação”, compreendemos que o funcionalismo atingiu com a sistematização parsoniana um ponto alto a partir do que seria a superação do seu maior problema, a impossibilidade de lidar com a mudança social.
          Merton também já o propõe a partir da diferenciação do latente e do manifesto nas funções, com a mudança social podendo acarretar a conservação de funções que só compreendemos se conhecemos o que foi manifestamente superado, e assim algo que é função “estranha” atual na verdade apenas expressa necessidades de conservação latentes.
          Mas a análise parsoniana operando em nível de teoria dos sistemas permitira formalizar e assim repor um critério de decréscimo ou aumento de um elemento de controle normativo.
          É nesse sentido que me parece estar amparada a especialização de funções – na medida que o sistema não mais é frágil em algum ponto principal que por ele responde inteiramente e que portanto poderia subsumi-lo idealmente. A sociedade é mais forte quando a riqueza é informação, mas quando a riqueza se torna energia, a polaridade do “mais” é situada na adaptação em nível biológico, de papeis, ou econômico. A complexidade retem algo da presença da sociedade, que no funcionalismo anterior era negada na simplicidade, e assim Parsons repete de algum modo um critério latente, para o bem ou para o mal, em todo funcionalismo.
           A partir dos anos cinquenta, ao contrário do Funcionalismo, o Estruturalismo se tornou uma voga não negligenciável. Vimos que o funcionalismo também utiliza a noção de estrutura, mas como todo, enquanto o estruturalismo propriamente lida apenas com a articulação das partes. Uma vez que utilizou a cibernética, é compreensível que, como já constatei, alguns autores tenham  considerado o próprio Parsons estruturalista. Assim ele é apresentado por Edward Lopes ("Fundamentos da linguística contemporânea"), que ao tratar o tema do estruturalismo no capítulo sobre “A gramática estrutural” nomeia uma série de importantes pesquisadores que teriam transposto o estruturalismo como “excelente 'hipótese de trabalho'”, da linguística a outros campos das ciências sociais.
         A lista de Lopes é como segue citado: “Levi-Strauss na antropologia, Barthes, Bremond, Greimas, Derrida e Kristeva, na Teoria Literária, T. Parsons na sociologia, Lacan na Psicanálise, Michel Foucault na História da Cultura, Braudel na História, e tantos outros”. É verdade que Lopes ressalva que estes personagens tem “de uma ou outra forma, com maior ou menor grau de evidência, uma grande dívida para com ele” (o estruturalismo), mas muitos de nós concordaríamos que Parsons e Braudel estavam, inversamente, no campo oposto a ele. Pois Parsons pensa sistema como totalidade, do mesmo modo que o gestaltismo, enquanto o estruturalismo o pensa como articulação das partes, com a totalidade sendo apenas "efeito" ilusório - o que figura agora naquilo que antes era considerado "ideológico".
           Em todo caso, não pretendo negar importância ao fator de desenvolvimento que atualmente tem sido mais relevante, posto que é recorrente que haja rupturas e mudanças ao longo do percurso de um pensador.
           Sobre Parsons os comentaristas tem progressivamente se tornado conscientes dessa questão, sobressaindo entre aqueles que o tratam como o papa do estrutural-funcionalismo sociológico. Enquanto ele mesmo, no prefácio da edição de 1968 a “The structure of social action”, décadas após o lançamento da primeira em 1937, tratou do assunto mostrando que sua carreira foi composta de fases, das quais o funcionalismo foi apenas uma.
          Mas ele nunca se apresenta como estruturalista. Na verdade, parece querer afirmar que aquilo com que rompeu foi com os grandes rótulos, de modo que o único que permanece por ele mesmo atribuído é o estrutural-funcionalismo da sua fase inicial. Esta abrange contudo algumas transições importantes posteriores à redação do Structure, como a ênfase na proximidade epistêmica de Durkheim e Freud, além da importância atribuída a G. H. Mead, um dos grandes pragmatistas após Peirce, James e Dewey, linha que atualmente é a de Rorty.
          Ao que parece, Parsons se sentiu recompensado por esses autores, Durkheim e Freud, em sua relevância à personalidade como fator de compreensão das normas de “socialização” a título de “internalização” dos elementos normativos.
        É interessante sublinhar que esse prefácio ressoa com o que Lacan já em 1938 havia consolidado em termos do nexo Durkheim-Freud a partir da noção psicanalítica de “família”. Parsons parece-me contribuir com elementos ao problema do seu conceito epistemológico global em humanities, ao afirmar no prefácio da edição de 1949, portanto típico dessa fase, que para ele Freud tem um peso na teoria analítica, centrado na psicologia, que não possui similar na antropologia. Talvez Boas pudesse ser referenciado nessa posição, mas ele não tem a mesma estatura de Freud.
          A seguir, tornando ao prefácio de 1968, Parsons fala de uma segunda fase, em torno do seu "Economy and Society" em parceria com Neil Smelser (1956), em que se interessou pelo problema da economia, com o intuito de consolidar sua posição de dois subsistemas irredutíveis, econômico e social, ambos dentro do sistema único da Sociedade.
          Assim parece necessário entender que o sub-sistema “social” é um dos quatro, e todos integrando esse único, o da “Sociedade”. O subsistema conceitua apenas o que Parsons agora expressa “sociedade organizada”, enquanto a Sociedade que integra todos os sub-sistemas explica o que é subjacente ao visável como sociedade em nível empírico: “Em primeira instância essa generalização [da economia como sub-sistema independente] gerou uma nova abordagem para a análise teórica da 'sociedade organizada', sugerindo que ela fosse tratada como um sub-subsistema de uma sociedade que fosse analiticamente definido e estritamente paralelo à economia”.
          A meu ver Parsons está amparando uma longa ambição da sociologia, afirmável desde sua origem comteana, de tratar a economia como algo não de todo autônomo do fenômeno social – ou seja, inversamente a toda veleidade de reduzir o social ao econômico. Mas Comte, assim, pretendia infirmar uma ciência da economia separada da sociologia, enquanto Parsons, atribuindo esta pretensão a Pareto, afirma que sua própria posição não é a de um crítico da ciência econômica, mas a de alguém que inovou ao demonstrar “que a economia é um subsistema de uma sociedade clara e precisamente definível e que pode ser sistematicamente relacionada com outros subsistemas”.
            A fase mais tardia de Parsons teria sido centrada em torno dos problemas da mudança social e de uma ênfase em Weber como “o mais importante dos evolucionistas sociais pós-lineares”, isto é, evolucionistas mas pós-positivistas. Também Smelser teria enveredado por esse rumo. Os documentos representativos dessa fase são especialmente “Societies: Evolutionary and Comparative Perspectives” e “The System of Modern Societies”.
             Parsons agora é consideravelmente menos Durkheimniano, e até opõe explicitamente os “interesses weberianos”, como a que ele se consagra, aos que seriam de Durkheim. É interessante que paralelamente, Lacan iria também romper com Durkheim a partir porém de sua adesão a Lévi-Strauss.
          O que pode parecer surpreendente em Parsons, porém, pois Durkheim seria habitualmente muito mais associável a parâmetros explicitamente sócio-evolucionistas do que Weber. Esta perspectiva a propósito de Weber é então mais conveniente a que eu mesma proponho como interpretação dele. Isto é,  um teórico da racionalidade como o telos de uma história pretérita da humanidade em que todos os sistemas sociais eram "dominações" no sentido habitual do termo, não obstante serem ordens sociais instituídas, de modo que só na modernidade-ocidental a instituição da ordem social poderia deixar de ser domínio ilegítimo de privilégio para se tornar racionalidade democrática.
           O que está em jogo na história da ciência social porém é que Weber projetou uma explicação da própria mudança econômica do capitalismo em função de uma mudança social, do padrão religioso, a partir da reforma protestante que teria originado o comportamento subjetivamente orientado. Ao contrário da causalidade por divisão do trabalho, econômica, de Durkheim. Esta é então a chave da proximidade Weber-Parsons.
            Porém como enfatizei, na realidade da surgência da "teoria política", a temática do sujeito individual como justificativa referencial da mudança do pensamento político, desde Locke, não foi oriunda de uma retórica cristã-reformista, e sim da visibilidade do aborígine americano, em relação a que a "teoria política" foi o locus de equacionamento explicativo. Como devemos lembrar, a teoria política da época clássica entre Locke e Rousseau é em que se inaugura o liberalismo político, como se pode constatar pelo teor dos seus textos fundadores, como o segundo tratado do governo (Locke) e as classificações de Rousseau das idades da socialização desde a origem suposta, como em Locke, "natural". Aqui não seria o caso do monarquismo de Locke, cujo intertexto era apenas  tradição europeia, já bastante mistificada para parecer contínua desde a Antiguidade. Entre Locke e Rousseau,  podemos ver como a emergência do liberalismo  político está relacionado intrinsecamente à descoberta das Américas e do aborígene americano, se bem que como se poderia esperar isso seja constantemente abstraído na consideração dos teóricos ocidentalistas que examinam esse referencial.  
            Foi em todo caso a teoria política da época clássica que teve realmente a função epistêmica de relacionar sujeito e sociedade antes das ciências humanas, como se torna muito proeminente em Rousseau, pensador que pessoalmente oscilava entre protestantismo e catolicismo. Poderia se antepor que mesmo assim a preensão econômica da mudança social do Estado contemporâneo não se demonstra e pelo contrário, há um elemento social preponderante. O problema continua porém, pois a própria teoria de Weber é uma explicação não só desta mudança, mas do que a ela é intrínseco, o que ele considerava a racionalidade da empresa capitalista - o fato de não depender da sanção de uma autoridade carismática, e sim somente do funcionamento das instituições burocrático-legais, Weber explicitamente negando que o colonialismo-imperialismo seja fator constitutivo.
            Ora, se o capitalismo não mais se compreende independente do colonialismo/ imperialismo, todo o foco metodológico weberiano se compromete, se o seu eixo é a "racionalidade". Realmente há uma mudança social independente em trânsito desde a"teoria política" à emergência das ciências humanas, mas aquilo que ela estrutura não é um monólito eurocêntrico, designável "sociedade capitalista-tecnológica liberal-constituída moderno-ocidental".
          E na verdade, o volume II do Structure é nada menos que totalmente dedicado a Weber. Re-enfatiza Parsons sua posição inicial, a do Structure, em termos de escolha dos autores que analisou ali (o volume I estudando Marshal, Pareto e Durkheim) na qualidade de verdadeiros formadores da sociologia, deixando de lado Tocqueville e Marx, que na altura em que escrevia o prefácio pareceriam a outros talvez mais interessantes. A posição é claramente uma defesa da sociedade como o enfoque mais abrangente dos fenômenos humanos, e não a economia.
          Assim não é em termos de transformação econômica (Marx) ou de classe (Tocqueville) que Parsons entende a surgência da modernidade, uma pista para apreendermos como ele situa a própria consolidação da sociologia.


        A emergência estruturalista

             A meu ver, há realmente uma contaminação temática entre o funcionalismo tardio e a novidade do estruturalismo, a partir do que tratei em termos de “mapa mental”. Com o estruturalismo a ênfase nesse aspecto vai ser tão grande que a consequência chega a ser a pretensão da eliminação das “ciências humanas” como campos de estudo autônomos, para estabelecer ao invés o que seria uma teoria central, a da estrutura psico-linguística  ("inconsciente"). Assim porém a irredutibilidade do estruturalismo ao funcionalismo é mais notável do que possa parecer comum entre eles – o que já poderíamos notar pelo fato de Parsons não referenciar Levi-Strauss.
         Ou seja, o mapa mental funcionalista é uma estrutura como todo de significados conscientes, ao contrário do estruturalismo, que é estrutura como conjunto de significantes mínimos, fonemas (linguística/Saussure-Jakobson), parentemas (antropologia/Strauss), elementos da produção (economia/Althusser), e os constitutivos do Édipo (psicanálise/Lacan), cuja operatória de articulação é construída no inconsciente, porém facultando performances conscientes como atribuições de significado que portanto não definem o fenômeno real (só a ciência estrutural define os elementos mínimos).
            Piaget poderia nos apresentar uma formulação básica da oposição em tela, ao conceituar sua crítica do gestaltismo. Para Piaget, a psicologia da forma erra ao considerar a análise um fator derivado. Pois a apreensão do todo é a característica principal apenas nas fases formativas da inteligência, deixando de sê-lo quando esta se torna madura, como aptidão operatória “formal” e não mais apenas “concreta”, maturação que se completa na adolescência. Então, pelo contrário, a inteligência se define pela aptidão à apreender a separação das partes.
            Contudo, o estruturalismo é uma rubrica de acesso nada fácil, entre outros fatores porque comporta interpretações muito irredutíveis da “estrutura”. Lacan é um ferrenho opositor de Piaget. Foucault, um crítico acerbo de ambos. Vários autores rotulados “estruturalistas” recusaram o termo por não terem nada em comum com aqueles outros que estavam também assim referenciados.
          Em geral podemos no entanto afirmar que seja quais forem as interpretações de “estrutura” que embasam os estruturalismos, ela é oposta à noção de “estrutura” como todo ou forma determinante das partes, que esteve subjacente ao funcionalismo e/ou estrutural-funcionalismo. Por isso também, por vezes autores recusam ser estruturalistas na medida que pensam “estrutura” como aquilo que tanto já havia sido anteriormente ventilado no próprio funcionalismo.
            Um outro aspecto dessa dificuldade é que o estruturalismo se inicia por uma utilização conspícua da linguística saussuriana, e isso poderia fazer supor que o “estruturalismo” é algo que começa com o próprio Saussure. Mas isso não seria de modo algum exato, e o que ocorre desde Levi-Strauss é uma interpretação da “langue”, pelo que ela se torna aplicável em estudos não propriamente de Linguística, que não estava disponibilizada antes.
           Mesmo que se possa referenciar no campo da Teoria literária e Linguística, por exemplo o Círculo Linguístico de Praga, como “estruturalista”, na verdade ele é apenas precursor, pois nem mesmo uma aplicação fora do campo estrito dos estudos de “letras”. Além disso podemos ver que Jakobson, tantas vezes referenciados como uma ponte entre o círculo de Praga e o estruturalismo propriamente dito, na verdade articula uma teoria de “funções” da linguagem.
           A diferença entre funcionalismo e estruturalismo, é que a “estrutura” funcionalista é sempre comparável a um organismo, então o que se espera da noção de estrutura é que ela comporte partes que seriam suas “funções”. Há uma unidade epistemológica notável na metade inicial do século XX, em torno do que se poderia designar um “organicismo” generalizado.
         Já o estruturalismo pensa a estrutura como algo autônomo, não como um todo integrativo, nem integrada somente por partes além de sua articulação. Esta articulação das partes é que as torna integrativas da estrutura. Estrutura é então a articulação de que se trata. Fora da articulação as partes subsistiriam como outra coisa, indiferentes a ela.
          Assim houve um trânsito notável, na segunda metade do século XX, do “organicismo” para um “maquinismo” generalizado. A articulação é um puro funcionamento, um automatismo gerado pela conveniência disposicional dos elementos.
            Repetindo, a estrutura "estruturalista" é articulação disposicional ou “diferencial” dos seus próprios elementos ou partículas – que exteriormente a ela nada são com relação ao que ela articula.
         Assim vemos que a estrutura “organicista” comporta uma abrangência de reflexividade que era o que maximamente se procurava, na metade inicial do século passado, restituir em termos de “compreensão” do fenômeno humanístico. O que é maximamente rejeitado pelos estruturalistas. Aqui a crença no efeito da estrutura, como o todo, é ao contrário, a alienação por excelência.
             Compreende-se porque o marxismo estrutural althusseriano é uma rejeição total do resgate da cultura que haviam feito os marxistas humanistas como Gramsci ou Sartre, como um novo ambiente de ojeriza à "ideologia". Estava agora, com Althusser et alii, sendo reconceituada em termos de uma alienação automática, gerada pela estrutura, mas também pelo desconhecimento da estrutura como causa.
         Robert Gorman (“A visão dual”), em uma crítica notável do que poderíamos designar a abrangência funcional, especificou bastante bem como na Europa a ambição de restituição humanística funcional esteve escalonada em duas frentes.
           Ora numa teoria fenomenológica inspirada em Husserl e Weber, como a de Alfred Shutz, na qual se trata de restituir o que seriam modelos puros da ação social – assim como Husserl teria conceituado as relações (lógicas) puras da consciência intencional. Vertente cuja limitação é flagrante, posto que a sociedade se reduziria a um esquematismo, e a integração subjetiva a “homúmculos” ideais teoricamente projetáveis.
           Ora numa “ontologia existencial” inspirada em Heidegger, que tentava, como Sartre e outros humanistas, inversamente, apreender como os modelos sociais, sendo históricos e portanto não universais como paradigmas noéticos e/ou cognitivos, se tornavam ideais de sentido real para consciências atuantes na prática, em contextos sociais diferenciados.
         Mas Gorman defende Heidegger como ontologia existencial que realmente apreenderia, como variação espacio-temporalizante, a heterogeneidade das sociedades, sendo útil na teoria social. Inversamente notou com acurácia o quanto Schutz se restringe a uma “visão dual” – ou ambiguidade insuperável, isto é, uma total contradição interna da teoria, pois ao mesmo tempo que se pretende fenomenológica, é estritamente objetiva. Ele chega a chamar Sartre de esquizofrênico pois, ao mesmo tempo que se trata do que tem sentido para mim, o que é refletido por mim como valores existenciais meus, se trata somente do que é disponibilizado socialmente em termos das opções historicamente fenomênicas de um contexto dado. Também critica todos os que pretenderam unir fenomenologia e/ou existencialismo e marxismo. 
         Se Gorman pode não ter ficado muito famoso por essa crítica sociológica a Sartre, Judith Butler, que ficou célebre em sua invectiva contra Simone de Beauvoir, expressou uma objeção que a meu ver é do mesmo teor – o que mostra bem que já não bastava uma crítica da fenomenologia sem uma alternativa real a ela, como foi a de Gorman que se conservou existencialista, esperando por tempos melhores, ao modo apenas de um apelo para que depurassem suas contradições.
         A crítica de Butler expressa-se em que Beauvoir institui a categoria “mulher” como fenômeno cultural, e não fato material, mas se o fenômeno é em devir (“não se nasce mulher, torna-se mulher”), porque justamente sempre o devir seria “mulher”, que é portanto “ser”?
           Beauvoir está apenas aceitando um outro tipo de fato, de dado bruto, que seria nossa redução a priori a uma consciência destinada ao conceito cultural – mas obviamente isso não é um fato e sim apenas uma veleidade da teoria funcional-fenomenológica, na verdade de origem cartesiana, o que se pode notar por isso que a existência da marginalidade/ marginalização do gênero não é apenas algo que se pode entender como desvio em relação a um centro ou Ser necessariamente existente – o que seria uma forma perfeitamente reacionária de lidar com a questão, o que estava longe de ser a intenção de Sartre/Beauvoir.
        A “queer theory” de Butler instaura a pesquisa por esse lado da marginalização de gênero sexual enquanto algo que devemos compreender como é possível a partir da tensão entre categorias culturais – apenas o que é esgrimido contra o marginalizado em termos do que ele não apresenta – e o comportamento humano, real, do próprio marginalizado. Ou seja, a partir da contradição inerente ao próprio discurso de atribuição (ou poder) do gênero.
         Não obstante é preciso salientar que Butler não é redutível a Foucault nem à psicanálise de Lacan, pois a questão para ela ao que parece não é elidir a priori a realidade biológica do sexo como algo que o inconsciente deveria transformar em cultura: eis o que nós precisaríamos continuamente repensar, não o que já compreendemos de alguma forma definitiva. Ela critica assim, ressoando a meu ver com as reservas de Rocher com relação a movimentos de status, tentativas teóricas de homossexuais como Wittig,  reduzirem a sexualidade originária à homossexualidade, como se a heterossexualidade genital fosse apenas derivada ou artificial.
        Se bem que o texto que conheço de Butler a propósito tenha me parecido um pouco afastado em alguns pontos do que conheço do próprio Foucault, creio que ela está mais coerente com o cenário pós-modernista da teoria, que a meu ver é mais fecundo que o seu congênere “pós-estruturalista” justamente porque o pós-modernismo recusa determinismos ao modo de fórmulas do inconsciente.
             Ao contrário do funcionalismo, como vimos, no estruturalismo a estrutura não é algo fenomenologicamente acessível, nem interpretável a partir do que é fenomenologicamente dado. Ou seja, o próprio enunciante de sua atualidade – o falante da língua, o membro de uma sociedade, o juiz de uma sentença conforme as leis de uma formação social determinada - não a “compreende” nem conhece intuitivamente de forma alguma.
          Ela é deduzida ou reconstituída analiticamente a partir de amostragem das variáveis em que está atualizada,  ou seja, num quadro de parentesco de línguas, de sistemas sociais ou de códigos legais que recobriria vários referenciais sócio-étnicos, desconhecidos do sujeito imerso apenas no seu próprio.
            Assim realmente não há uma “estrutura social” no estruturalismo, ao menos não naquela acepção que poderia acompanhar a noção de “englobante” tal como proposta em Jaspers – a partir do pressuposto de que as realidades são totalidades orgânicas e de que a mente só lida com totalizações. Como o Real existe apenas o devir, aquilo que em si mesmo pode integrar qualquer reconstituição possível mas é independente de toda reconstituição sempre parcial-estrutural. Assim o Real também não é uma totalidade – pensável mesmo que renunciássemos a conceituá-la.
          Os capítulos de histórias da sociologia que tratam do estruturalismo, como em Marsal ou Rocher, apenas referenciam Levi-Strauss, ou seja, um profissional da antropologia social. E Michel Foucault, que seria o mais aproximável nesse aspecto, lida apenas com três estruturas autônomas: Saber, Poder e Subjetivação.
           É na sociedade moderno-ocidental que uma dominação integra a todas a partir da politização do Saber, para efeitos governamentais-administrativos, mas a dominação não é o essencial de alguma “sociedade”, nem é reportável de alguma instância a que a sociedade seria redutível. A dominação não é uma totalização, é um conjunto de práticas que percorrem uma coletividade espácio-temporalmente localizada, além de que essa coletividade é apenas devir.
         Deleuze e Guattari propõem uma noção de “socius” em seu “Anti-Édipo”, mas que se reduz a estruturas psíquicas ou “inconsciente”, o que em Mille Plateaux se desenvolve em termos de regimes de signos. Ou seja, são pragmáticas semióticas, e não totalizações de algo como sociedade que abrangeria em si todas as funções ou práticas de uma coletividade.
         No Anti-Édipo se trata de uma teoria de socius diversos, ou da diferenciação social em primitivos (sem Estado) por um lado, impérios e capitalismo por outro lado como respectivamente bárbaros e civilizados (ambos com Estado). Em Mille Plateaux os regimes de signo operam junção sintomática de doenças mentais classificadas e dominações sociais históricas.
          A teoria abrange porém o inconsciente em si como “esquizofrênico” ou seja, nessa designação deles, não doentio, mas independente em relação a todas as possibilidades de sua fixação por algum destes “socius”, independência que seria constatável não só no esquizofrênico tout court (como diagnosticado por outros), mas na arte, na filosofia ou na ciência, enquanto regime de signo que se restringe ao ser do objeto (qualquer).
          Os grupos nesse estatuto do não “fixado” ou não “neurótico” seriam minoridades, não grupos “sociais” como integrantes de uma “sociedade” - conceituável além de semióticas reconstituíveis, dessas formalizações mutantes, que se substituem aleatoriamente umas às outras, portanto sem “história” possível.
      Já Althusser havia traduzido Marx “estruturalmente”, ou seja, mostrado que a teoria marxiana de Modo de Produção é articulação de elementos, tais como força de trabalho, meios de produção, agente organizador da produção (relações de produção), os quais são neutros ou prévios em relação a toda combinatória possível deles. Assim os modos de produção que se podem constatar ter havido historicamente são possibilidades combinatórias do mesmo modo que combinações que não existiram nem provavelmente jamais existirão efetivamente.
          Os elementos não são “empíricos”, como realidades consistentes além da estrutura, mas são “objetivos” dentro de uma teoria que os reconstitui. Ou seja, eles não são visíveis fora da teoria, não são elementos da “sociedade” como do que se poderia cogitar em termos do mero fato de haver coletividade organizada. Como não são reflexivos, não se segue que as pessoas seriam redutíveis mecanicamente a hábitos sem sentido, mas sim que as estruturas presidem a possibilidade de sentido, em vez das pessoas mesmas como criadores, sentido que porém nós só atualizamos em termos de significados ou em todo caso de regimes de atribuição e organização possível das coisas.
            Mas entre Althusser e teorias como de Foucault e Deleuze-Guattari, há uma grande irredutibilidade no plano das intenções. Assim, a não reflexividade das estruturas em Althusser implica a própria objetividade como redução possível do sentido teórico dos elementos. Há uma possibilidade de evolução social - o cientificismo estrutural. Lacan ficou, pelo mesmo motivo, o referencial criticado de Foucault e Deleuze-Guattari, justamente porque nestes ocorre a pretensão de ultrapassagem de todo sócio-evolucionismo, ao menos nesse plano das intenções iniciais. Contudo tanto Foucault como
 Guattari e Deleuze tem critérios para definir o moderno-ocidental.  Foucault conceitua o abrandamento das penalidades e a discursivização do sexo, que engendra a ciência identitária do sujeito. Guattari e Deleuze reutilizam a classificação positivista das sociedades como selvagens ou primitivas, bárbaras e civilizadas. Jà vimos com Willems que esse critério, que coloca o primitivo antes do Estado é criticável, pois todas as sociedades tem leis, e mesmo o imperialismo dos bárbaros já se reporta de sociedades tribais.
        A pretensão de ter ultrapassado o sócio evolucionismo é o que no entanto se poderia atribuir tanto mais a Althusser como um freudo-marxismo que se espraia possivelmente desde as concepções de Levi-Strauss. Em todos os três, as combinatórias que não a da sociedade industrial ocidental, não seriam amostras de uma história do desenvolvimento, mas independentes.
             Porém sem dúvida assim se tornam conceitualmente, porque sempre só na combinatória industrial ocidental a estrutura admite a sua própria enunciação na forma da ciência - assim como a liberação da subjetividade como consciência de si, a objetividade da economia como ciência, e a flexibilização máxima das possibilidades do parentesco.
           Logo, é como se a combinatória moderno-ocidental fosse a forma geral de todas as estruturas históricas possíveis para aquilo que seria uma mente universal. É o telos (objetivo) do mesmo modo que a acké (origem), pois ao realizar-se torna-se repositório de todas as possibilidades que de outro modo estão particularizadas.
          Assim o estruturalismo não se diferencia de todos os sócio-progressismos que criticou tão intensamente. O pós-estruturalismo tornou as combinatórias sem conexão aparente com o que seria uma articulação central, mas conservou parâmetros sócio-progressistas a partir desse mesmo pressuposto do que é requisito da enunciação (ciência) da estrutura.
        Assim convém falar por um lado de “estruturalismo”, com uma estrutura única que se realiza plenamente na modernidade e permite escalonar as idades sociais por comparação a ela; e por outro de “pós-estruturalismo”, que supõe estruturas independentes, porém sempre reconceituando um escalonamento relativo à realização do próprio enunciado pos-estrutural como moderno-ocidental.  E ambos, estruturalismo ou o "pós estrutural" sendo  interpretações de uma mesma premissa “estrutural” ou “diferencial” e não fenomenológico-totalizante. Repetindo, a trajetória dos pós-estruturalistas Deleuze-Guattari, Foucault et. alii, não foi coerente com sua intenção inicial, uma vez que a questão da própria ciência ou teoria da estrutura como relevante para a singularidade de um presente ocidental – resumo da verdadeira liberação possível – se mostrou incontornável.



      As teorias ulteriores

             Algo ulterior a essa oposição interna aos estruturalismos, mas não como reiteração do funcionalismo que já vinha de antes, somente se começa a viabilizar em termos do que em Marsal se referencia a “sociologia do terceiro mundo”. É algo, porém, paralelo ao que alguns autores, inclusive Marsal , tratam na rubrica de uma “dissidência” contrária ao império do funcionalismo nos USA, isto é, do funcionalismo na forma do consenso, porque não implica por outro lado um abandono real do ponto de vista da totalidade social.
            O que se tenta agora é abranger o conflito e a revolução. A isso podemos ajuntar a observação de que ao contrário da sistematização progressiva da totalidade, como na opção parsoniana, manuais de antropologia social à exemplo dos de Wilhems e Beattie mostram um funcionalismo muito mitigado por causa da preponderância da informação empírica, que a essa altura mostrava-se inviabilizar generalizações classificatórias.
      A influência da corrente contestatória referenciada por Marsal, nos USA, ainda que não diretamente no poder universitário, foi grande a partir de Veblen, Myrdal, Moore e Wright Mills, e Marcuse. Podemos notar que por outro lado, a esquerda europeia se renovava  pelo aparato estruturalista, com Althusser. Assim, Marsal concede maior ênfase à "sociologia do terceiro mundo" e correntes contestatórias norte-americanas.
         Rocher, inversamente, de um modo menos historicamente informativo, apõe ao estruturalismo apenas a consolidação da perspectiva do sistema na teoria social – de Parsons e Hommans a Bucley e ao horizonte aberto da sociologia por fazer. Afirma mesmo, à guisa de conclusão do seu livro, que fora da sistematização lógica e dedutiva, como da tradição analítica, não haveria para a sociologia qualquer meio de se auto-atribuir uma ciência.
           Essa concepção obviamente minimiza a importância da observação empírica, que em Bottomore, bem pelo contrário, coroa a sucessão dos capítulos a partir da necessidade sentida de apreender o que teria sido uma espécie de consenso sociológico em torno das questões de operacionalidade e aplicação.
         Ainda que a flutuação terminológica seja considerável entre os núcleos “puros” de teoria racional e prática empírica, basicamente podemos entender  que a "sociologia operacional" é a que lida com os aspectos práticos liberáveis pelo trabalho de campo, a pesquisa empírica, do sociólogo – tais como um referencial de previsão. Enquanto "sociologia aplicada", um tanto ao contrário do que o nome sugere, seria a provisão de um quadro teórico-explicativo completo em função de um determinado objeto escolhido da pesquisa sociológica, de modo que por exemplo em vez de simples previsão se trataria de apresentar verdadeiras causas.
        A mencionada necessidade de apreensão é comprovável em Bottomore a partir da por ele citada realização por parte da Associação Sociológica Internacional, de um exame  a propósito da correlação entre pesquisa e resultados da Sociologia. O resultado foi que a aplicação da  Sociologia revelou-se demasiado pobre, enquanto a pesquisa operacional e reflexão metodológica eram abundantes num meio cujo objeto era predominantemente relativo aos problemas sociais. O curioso é que, contudo, o papel da investigação sociológica tornou-se o mais importante,  ainda que Bottomore  diante disso preferisse relativizar esse resultado.
             Foi natural que sociólogos como Barbara Wootton, refletindo sobre o alcance metodológico da pesquisa e tendo que lidar com o fato de que a explicação causal mostrava-se sempre inviável, deduzissem que a relevância da  Sociologia subsiste sobretudo apoiada na sua utilidade de fornecimento de conhecimento empírico do campo social, uma vez que a investigação pode mostrar que o senso comum a propósito do problema erra grandemente, ou que nem o compreende tal qual é, assim como a composição mesma dos grupos sociais, etc. Realmente um critério da racionalidade do regime político seria que os programas dos governos fossem orientados pelos conhecimentos da sociedade oriundos da sociologia operacional. Porém justamente não sendo "aplicada", esta só pode mostrar as informações, as escolhas políticas em utilizá-las ou como, pertencendo à sociedade. O marxismo é antagônico à sociologia operacional, pois pretende dirigir as pesquisas, e somente o funcionalismo por seu aspecto totalizante teve acolhida na União Soviética. 
       A pesquisa empírica operacional como um tornassol da realidade contra preconcepções ingênuas mostrou por exemplo, no terreno da criminologia, não haver causação demonstrável entre a conduta criminosa e pelo menos 12 fatores habitualmente associados – em 21 trabalhos examinados.
      Não obstante, ligações de constância entre alguns fatores como confusão na vida doméstica, sobretudo instabilidade temperamental ou retardamento mental,  e a conduta criminosa podem ser observáveis, assim como entre alguns fatores e a reincidência após o período de prisão, como experiência anterior de uma escola, ou período de liberdade condicional juntamente com mudança de emprego. Porém não se segue de modo algum como determinado que a supressão de escolas, da liberdade condicional ou a proibição da demissão teria contribuído para melhorar a situação – pois esses fatores não são definidos como causas, apenas foram observáveis como relativos, se ocorrendo conjuntamente, a maior incidência de um mesmo resultado como reincidência do comportamento criminoso.
             Sobretudo o valor dessas ligações é ter ressaltado um campo da investigação sociológica que se revelou brilhante ao mostrar-se apto a destruir supostos a prioris na área de problemas sociais como criminologia e relações trabalhistas na indústria.
          Quanto à criminologia, tornou-se demonstrável a deficiência de generalizações dos doze  fatores, entre eles irreligiosidade, pobreza, proximidade de outros criminosos ou maior duração de exposição à influência deles, comportamento de pais ou fator racial, ao comportamento criminoso. Nenhuma correlação a esses fatores é sustentável.
            Além disso, foi comprovada a predominância estatística “das mais poderosas empresas comerciais americanas”, conforme H. Manheim, do comportamento criminoso – ao invés dos pobres, minorias étnicas ou da juventude. O personagem Coalhouse, do romance Ragtime de Doctorow, contaria aqui um ponto a favor, pois como Manheim também mencionou nessa citação de Bottomore, “não foi na verdade o imigrante, mas o branco nascido na América, o principal responsável pela alta taxa de crime” e “a sociedade americana, e não o negro, tinha a responsabilidade por grande parte do crime dos negros...”. Assim o caráter para-legal ou francamente ilegal do capitalismo, contrariamente ao racional-legal de Weber, nem mesmo precisa interceptar o imperialismo para se evidenciar.
          Assim produziu-se, até reconhecido por Bottomore, uma espécie de  consenso  anti-durkhemminiano que restauraria a visão empírica de um Stuart Mill a propósito da complicação de fatores causais a um ponto que se torna irrelevante procurá-los. O estudo de Durkheim sobre o suicídio, onde causas são predicadas como não pertencer a grupos estáveis, ou ser divorciado quando se trata do homem ao contrário das mulheres,  não é aqui apontado, como  nos manuais funcionalistas apontados por outros como paradigma da maturidade em sociologia, e pelo contrário apenas para acentuar ter-se descoberto que “há algo de arbitrário em sua distinção entre diferentes tipos de suicídio”, o que conforme Bottomore é já conclusão a que “a maioria dos sociólogos de hoje se inclina”.
              Mas Bottomore está mais interessado em salientar, inversamente a Wootton, que a pesquisa operacional é apenas uma parte da Sociologia. Para ele, não é como ela pensa, que são as Ciências Sociais que brilham mais como “criadas da decisão” ao eliminar generalizações precipitadas e pelo fornecimento apenas das correlações observáveis, pois são apenas certas técnicas de investigação que o fazem, e não a Ciência Social como corpo de teoria e descrição.
        Contudo, a veleidade de Bottomore em estabelecer essa objeção na verdade é acompanhada apenas por mais evidências de que não se trata de algo factível  – a não ser talvez por pesquisas futuras, portanto o que deve ser mantido como uma espécie de ideal da razão. É o que revela o desenvolvimento do texto, transitando da criminologia à sociologia da indústria, de onde se irradia a popularização do sociólogo como profissional capaz de aplicar entrevistas e questionários com dados reveladores, figura a qual recorre por exemplo a esfera da pesquisa médica.
              Por um lado, Bottomore mostra a posição de Clémens e Evrard, que não obstante salientarem que a requisição da sociologia pela indústria é apenas na medida em que o sociólogo fornece dados a partir de uma perspectiva neutra a todos os setores interessados, creem que há aí uma área próspera à sociologia aplicada, tanto porque os estudos da estrutura da empresa podem contribuir  para a melhoria dos sistemas internos, como de comunicações ou de relações hierárquicas, como  no status de embasamento aos veículos de treinamento de gerentes e supervisores – por onde sua maior contribuição possível à “mudança social na indústria moderna”.
           Por outro lado, ressalta Bottomore que essa posição “não encontra apoio universal”, e por exemplo William Whyte considera inviável demonstrar que o elevado grau de mudança nas relações industriais seja devido a intervenção sociológica. Entre nada menos que centenas de milhares de programas de treinamento em relações humanas na indústria, segundo Whyte apenas dois deles, dentro da escala do seu conhecimento, foram submetidos a sólida avaliação de pesquisa.
            A meu ver o ponto importante nessa controvérsia sobre a utilidade da sociologia, que porém ignora o mais importante como a inter-relação no sistema educacional das matérias universitárias de ciências humanas,   é justamente a auto-limitação da pesquisa operacional, que encontraria ressonância com a tendência auto-crítica da ciência nos rumos da pós-modernidade, ressoando com o dado negativo da problemática ecológica e com o dado positivo do ex-centramento cultural que constitui limiar pós-ocidentalista da inteligência. Isto é, o que precipita uma real ruptura num campo científico que até aqui temos visto ser delimitável não como “representação” do Homem à Foucault, mas como divisão dualista do primitivo e do civilizado somente capaz de produzir inteligência, por um reducionismo cientificista da imagem desta última.
         A história da sociologia deve, portanto, revelar aspectos importantes dessa ruptura epistemológica, como um dos eixos ortogonais, além do da psicologia, da construção da divisão dual.
            Assim a pesquisa operacional é claramente uma renúncia da teoria em estabelecer diretivas supostas unicamente racionais da conduta humana. Ela pode fornecer a realidade dos fatos, mas não são estes os dados últimos na complementação do fenômeno social – comportamentos e decisões reais. Estes são relativos à composição legislativa, executiva e judiciária da sociedade, não direcionado unilateralmente.  E ela fornece a realidade dos fatos apenas para quem já se propôs agir com base nessa informação – e não numa teoria já formada como o marxismo-leninismo, ou numa pragmática tradicional, ritual, religiosa, etc. Como vimos, a ênfase na perspectiva operacional da Sociologia é um reconhecimento de que não há possibilidade para a ciência social, ao menos como está na atualidade, de definir quais são os dados últimos.
           O importante aqui é que se trata de uma ruptura histórica – e não apenas da continuidade da perspectiva empirista do século XIX. Isso pode ser afirmado uma vez que o empirismo daquele século era apenas um dos itens de apoio ao “positivismo”, cuja ambição era bem ao contrário, o de uma totalização cientificista do fenômeno humano.
            Não me parece que a pesquisa operacional nesse sentido, o da Sociologia que emergiu  depois dos anos cinquenta do século passado, confrontando-se com problemáticas sociais que só se consubstanciaram após as duas guerras,  seja metodologicamente equivalente  ao “operacionalismo” de Bridgeman, retomado por Rapoport, por exemplo – conforme relata Bogomólov (“A filosofia americana no século XX”).
           No “operacionalismo” como um dos ramos do positivismo, ainda que já após a aventura semanticista e portanto na época de Korzibsky e da pragmática de Morris, a pesquisa do dado não precisando ser teoricamente amparada, por outro lado é apenas uma etapa no rumo de uma construção validante de qualquer estatuto de sentido. Operacionalismo nesse sentido é rigorosamente a limitação do conceito a um conjunto de operações – que no limite podem se reduzir às de uma consciência solipsista.
        Em todo caso, no operacionalismo, como em todo neopositivismo naturalista, conceitos ou conteúdos que não podem ser representados pela multiplicidade de suas operações físicas ou mentais constitutivas, não tem sentido. Na perspectiva operacional da sociologia, como vimos, não há mais a sinonímia do que escapa à possibilidade imediata da ciência com o que não tem sentido em si mesmo. 
            O “Métodos de  investigação sociológica”, com copyright de1968, da autoria de Peter Mann, incorre em alguns dos inconvenientes de um tributo demasiado à popularização do assunto científico, não obstante ser ostensivo e útil crítico da redução à mídia do assunto social, mas é proveitoso justamente por isso a uma apreciação de tendência de época relevante em sociologia.
            Aparentemente aceitam-se as perspectivas já de um senso comum sobre o método científico na base das exigências de sistematização do observável, classificação e generalização dos dados, mas na verdade cada um desses tópicos é sutilmente desacreditado uma vez que se tornam avaliáveis do ponto de vista relevante à pesquisa sociológica.
          O exame do observável, aqui, está limitado pela intotalização do observável que implica seletividade do observador e não universalidade do dado. Essa é uma regra do método em ciências humanas, quando são propostas irredutíveis às da natureza. Na perspectiva de Peter Mann, nenhum acontecimento social é redutível a uma descrição que não possa ser incalculavelmente alongada, e duas descrições, por mais simples que sejam, não tem muitas chances de coincidirem em tudo por tudo.
             A classificação é função dessa seletividade – ou seja, mais do sistema de valores do observador, do que da natureza do fenômeno, sendo ainda algo que satisfaz a um sistema de valores apenas enquanto referencial simples, como sexo ou idade, mas a maioria dos referenciais são complexos. E quanto à generalização, retorna o problema que vimos acima com Bottomore.
           Na exemplificação de Peter Mann, Kevin pode ser exemplo de um  menino destinado, por suas complicações familiares, pobreza, pouca inteligência, à delinquência juvenil que o levou ao tribunal, mas isto apenas é uma correlação que contempla a expectativa de explicação racional de alguns, aqueles que não estão nas condições do menino. O que acontece quando, não obstante o caso dele, revela-se o caso de Gilles, que incorreu num delito quase idêntico ao de Kevin, mas sendo “o cuidadosamente criado filho de um profissional liberal, educado em uma escola particular, vivendo em excelente casa num bairro fino e sem 'qualquer problemas de que se pudesse pensar'”?
             Além disso, ocorre haver centenas de meninos que nas mesmas condições deficitárias de Kevin, não se tornaram delinquentes. Assim, se indaga Mann: “Onde Giles cabe em nossa generalização?”
          A expectativa de se acharem antecedentes como os da vida de Kevin quando se trata de delinquência apenas induz a uma generalização que poderia contar para efeitos de Política social – e não de Sociologia. Na sociologia o que se constata é que há muitos antecedentes destes na vida de pessoas que não se tornam delinquentes, não obstante ser talvez boa política procurar tais antecedentes diante de um caso de delinquência.
           O problema sociológico, segundo Mann é o da causação múltipla. A é mais provável estar associado ao fator Y do que ao fator Z, mas é próprio da natureza das situações sociológicas complexas haver provavelmente muito mais fatores atuando do que apenas Y. Somente num nível muito tosco podemos obter respostas simples, mas esse é o nível que justamente não satisfaz a um cientista – como demonstra Mann um trecho mais à frente, nisso exatamente ao contrário do que a um jornalista.                    
        Assim, o futuro da sociologia é aumentar progressivamente as indagações imagináveis pertinentes, desde um início dado como base de pesquisa. Ao contrário, o jornalismo tenderá a apresentar qualquer suposição corrente como resposta cabal a todo problema concebível.
        É essa espécie de intotalização do interrogatório que faz, ao ver de Mann, o novo estatuto do científico, e não a capacidade de apresentar respostas. O cientista é agora “o que sabe cada vez mais a respeito de cada vez menos”, e “o tempo do cientista 'generalista' que sabia-tudo desapareceu de há muito nas ciências” - tanto as físicas, que se tornaram probabilísticas, quanto as sociais.     
          Mann é conduzido a uma consideração que seria esperável a propósito do caráter empírico e do operacional. Quanto a este, de fato apenas o trata como a delimitação de critérios de definição. Assim porém o ótimo do operacional seria a mensuração categorial, a partir de uma escala determinada, o que muitos sociólogos consideram inexpressivo mas a Mann é pelo menos não-subjetivo.
          É altamente subjetivo, por exemplo, afirmar que um certo subúrbio é da classe alta – lembrando aqui que na Europa e USA é usual o princípio da ecologia urbana tal que o processo de ocupação do centro da cidade por empresas implica por um lado a depressão dos bairros próximos, que passam a zonas marginais ocupadas pelo proletariado das empresas a baixo preço, e por outro lado à migração dos antigos moradores, as famílias burguesas, para subúrbios planejados pela especulação imobiliária a fim de se tornarem lugares de concentração dessa alta classe.
        Esse não é um processo imediatamente reconhecível na cidade brasileira, onde os bairros destinados pela especulação imobiliária são, sim, do mesmo modo espacialmente segregados, mas não são chamados “subúrbios” e se opõem ao que assim se designa. Não obstante é claro que há um processo análogo de migração pelos mesmos fatores.
             Ao invés de uma dicotomia de classe alta /baixa, é menos subjetivo, segundo Mann, e conservando o exemplo, usar uma escala de categorias em cinco classes, o que vai proporcionar correlação entre fatores como ocupação e moradia, tal que alguma generalização de vizinhança possa ser feita. Mas como vimos, não é só esse o escopo da pesquisa operacional se ela contem um elemento de crítica a demais possibilidades de generalização teórica. Assim esse aspecto em Mann é contemplado ao examinar-se a questão do empirismo.
            Ele não chega a salientar que sua própria escolha em tratar a sociologia como “investigação” implica uma séria restrição "empírica" do campo científico, o que vimos suficientemente ressaltado em Wootton e Bottomore.
             Ao invés disso por um lado Mann pretende manter-se dentro do que seria uma atualidade da ciência em geral, e assim não liga a “investigação” a uma reserva muito profunda em relação à veleidade de exatidão e objetividade no sentido da sociologia como “uma ciência” que “ será sempre vista buscando estabelecer uma estrutura bem unida na qual se possam relacionar generalizações”, sendo essa estrutura a "teoria" na acepção do método em função de que somente se podem avaliar resultados.
           Mas por outro lado, como salientamos ele está sempre circunscrevendo os limites da exequibilidade dessa mesma posição. A seu ver o sociólogo não pode, de fato, se furtar de todo ao que os Webb chegaram a considerar “uma lei mental que os fatos que parecem confirmar sua própria opinião preconcebida sobre as coisas causarão maior impressão no estudante do que os que parecem apontar no sentido oposto” - e assim é “mais do que qualquer outro cientista”, segundo Mann, que o sociólogo devia precaver-se quanto a isso.
          Quando se trata da relação de empirismo em sociologia, Mann parece estabelecer com algum critério o que é realmente científico quanto à natureza da investigação. O empírico é o prático, a experiência oposta à teoria ou ciência, conforme o dicionário citado, ao invés de como usamos habitualmente na ciência, a pesquisa dos fatos, mas para Mann seria mais correto afirmar que é apenas a base da teoria.
          Uma dona de casa e um mecânico de automóveis, assim como uma operária de fábrica, são empíricos no sentido de que compreendem as ações que executam.  Mas tanto a dona de casa quanto o mecânico em seus respectivos afazeres, a operária que corta pequenas barras magnéticas de pedaços de aço nada sabe do porque o imã assim produzido se comportar como o faz. Se algum dia ela se perguntasse a si mesma “como você faz imãs?”, isto é, se ela se desse conta de que havia mais perguntas a fazer do que apenas quais botões apertar além de quais gestos de cortar eram os necessários,  então teria ultrapassado, dentro do nível empírico, o senso comum no rumo do científico.
         Isto é, teria ultrapassado o bastante para a ação pela finalidade de construir uma teoria. Assim porém para Mann a teoria que seria uma tentativa de resposta, apenas é tanto a soma de “generalizações amplas que levam o pesquisador a novas indagações quanto os enunciados precisos de inter-relações que auxiliam a acertar algumas das pontas soltas da compreensão”, e o que a teoria deve liberar é a formação de hipóteses explicativas tais que delas é que partem os objetivos de uma pesquisa nesse sentido de “investigação” - unicamente investigação dos fatos (dados) a partir de fontes (documentação, pessoas), amostragens,  entrevistas e questionários.
     Uma pesquisa sem hipótese seria como o ajuntamento caótico de notas de observação sem que depois o pesquisador soubesse o que fazer delas. Mas como constatamos, a pesquisa é apenas o levantamento dos fatos sob a orientação de uma hipótese.
           A meu ver o que está sendo relativizado nesse contexto é precisamente a noção de fato assim como Rocher cita em termos de princípio estrutural a partir do que recolheu em Nicolas Ruwet. O estruturalismo seria generalização da perspectiva sincrônica que primeiro foi descoberta somente pela linguística. A sincronia nos dá o fato (imanência) e só a partir de o termos podemos colocar questões de diacronia como origem e evolução.
           Uma pesquisa operacional ou empírica, inversamente, tem isso de irônico. O “fato” que ela levanta não é o princípio de sua teoria como função, nem é o sistema que ele supostamente exemplifica na sincronia. O fato não é “analítico”, mas referente a um uso já em trânsito  na linguagem, que se trata então de verificar quanto às conexões do próprio uso - quando é o caso de se compreender a linguagem, uma vez que em se tratando de sociedades não-ocidentais, o pesquisador ocidental teria que obter algum meio de aproximação linguística ao invés de pressupor que compreende imediatamente o que é dito.
           Como vimos no exemplo da criminologia, primeiro há o problema concreto da “patologia social” - taxas do que é considerado crime ou disfunção, instituições cuja existência histórica é relativa ao problema, etc., mas começar a tratá-lo do ponto de vista científico na base de prover uma definição a priori de "crime", como no viés analítico, se considera agora uma das conexões do problema concreto, assim como quaisquer generalizações irrefletidas na acepção de não suportadas por demonstrações “de fato” (pesquisa dos dados).
            Na verdade quando se estabelece o estruturalismo, após o predomínio analítico do funcionalismo, o que não se encontra registrado pelos historiadores da sociologia que estamos examinando é que como sublinhei houve uma decisão de solvência das ciências humanas. O estruturalismo é tão analítico na acepção de fornecer uma teoria geral em vez de apenas métodos operacionais, quanto o funcionalismo, mas aprofunda o papel da definição a priori a ponto de considerar a própria posição do uso em trânsito como epifenomênica. O mais importante da validação dos dados é censurado como pesquisa pertinente.
            Obviamente como qualquer perspectiva analítica, trata-se apenas de escamotear o fato de que não se pode estar lidando senão com um horizonte de fatos empíricos pressupostos. A falácia aqui é que o estruturalismo realmente pode detectar a ambiguidade funcionalista de lidar com o irredutível da alteridade cultural, ao mesmo tempo que mantendo o horizonte universal de organismo e função, mas ao transpor a estrutura para o fenômeno dessa alteridade, não escapou à mesma ambiguidade na medida em que a sincronia é a mesma veleidade de um outro-universal.
             Na medida que o neopositivismo ignora o problema que ambos tangenciam, realmente a perspectiva empírica poderia ser alvo da crítica de ignorar o problema da linguagem e a alteridade do sentido, mas de fato o leque de opções abrange algo mais que somente estas três perspectivas, funcional, estrutural e neopositivismo,  como estamos constatando.
          A conservação da ciência social se fez somente nesse plano do empírico recontextualizado na conscientização da relatividade do fato à pesquisa, contudo  de uma realidade posta por um uso na linguagem. Aqui o cuidado é justamente com a irredutibilidade do sentido, a intradutibilidade, etc., o que então passou a ser equacionado na pesquisa de campo como por exemplo se nota em John Beattie (“Antropologia social”). A ciência social se tornou, por seu empirismo ou operacionalidade mesma, antagônica do “neopositivismo” universalista cientificista, num lance que ainda está por se conceituar devidamente.
            Ora, nessa altura dos inícios da segunda metade do século vinte,  temos por um lado a tríplice conjunção de alto-funcionalismo (parsoniano),  estruturalismo emergente (straussiano) e persistência do cientismo neopositivista que vai desaguar em nossos dias na preponderância da técnica (analogia informática) e neurociências pretendendo, como no antigo ideal do círculo de Viena ao naturalismo de Nagel, fornecer a universalidade dos fenômenos humanos. Podemos já avaliar como o embate entre a terceira tendência e outras duas é mais aparente que real.
           De fato, o funcionalismo e o estruturalismo não chegaram a uma ruptura para com a universalidade na ciência, mas a estenderam ao que seria a possibilidade de abranger a alteridade radical. Então começa a despontar esse outro nível da ruptura epistemológica que está ainda por ser interpretado à luz dos acontecimentos históricos tais que conduzem a uma ruptura tão profunda quanto se pode apreender pela emergência da terminologia da pós-modernidade.
            Neste outro nível vai sendo sempre mais evidenciada a impossibilidade da tese da universalidade dos fenômenos humanos na acepção de sócio-históricos e político-culturais. Não há uma causalidade profunda que explique porque em algumas sociedades o casamento é poligâmico, e em algumas é monogâmico, tal que pudesse haver decisão sobre qual dos dois tipos é mais coerente à natureza humana.
          Como Wilhems salientou, em mais de duzentas sociedades estudadas, não houve uma generalização possível das formas de interligação de instituições, por exemplo, do casamento e da produção econômica. Isso é o contrário de tudo o que pode caucionar as perspectivas das três correntes apontadas, funcional, estrutural e neopositivista.
          No entremeio, contudo, a surgência da rubrica da “sociologia do terceiro mundo” vimos que não foi bastante para precipitar a viragem terminológica de que se trata. Mas isso não é razão suficiente para descartarmos a hipótese de sua conexão ao que quer que tenha desencadeado tal ruptura histórica.
          Creio que é importante deter-se na demonstração de que o surgimento da noção de “mapa mental” que acima estudamos, no funcionalismo, assinala  no interior deste a viragem anti-tradicionalista – lembrando que pelo contrário, o tradicionalismo foi o carro chefe do funcionalismo pioneiro. A extensão universal de sociedade, que sucedeu dentro do próprio funcionalismo a sua primeira oposição de gemeinshaft e geselshaft, como vimos não significou porém  de modo algum a obsolescência da divisão classificatório-teleológica entre primitivo e civilizado.
           Pelo contrário, anulou o potencial de crítica anti-capitalística, e anti-modernizante nessa acepção imperialista, que portava o conceito de gemeinschaft ainda que com todas as ambiguidades e limitações que lhe foram próprias. Assim o que era a gemeinshaft ou não-moderno-ocidental ou não industrializado-tecnológico se reconceituou por uma nova concepção de sua anterioridade. Como sempre fôra anterior, e não simplesmente independente, agora era porém o destinado às etapas da modernização. 
            As consequências históricas dessa viragem conceitual também ainda estão por serem avaliadas, o que podemos notar como pertinente pelo fato de que elas se revelam muito longe de poderem caucionar a isenção da sociologia em relação à política social que pretendera Peter Mann e a perspectiva operacional limitada a prospecção dos fatos. O que podemos notar a propósito do terceiro mundo, onde o contexto importado das ciências determina políticas sociais dirigistas, e uma verdadeira ciência operacional está ainda por nascer. 
          ...   desde aqui, o texto é acréscimo ao blog em 2019 ... 
    
          É verdade que seria ignorância desconhecer o fato da pesquisa existente, mas o que ocorre é que as políticas dos governos não se referenciam ainda costumeiramente decorrente do conhecimento do que elas localmente revelam. A clivagem de esquerda e direita mantem em comum a dependência econômica e/ou ideológica ocidentalista. Este caráter singular, parcial, da interlocução às ideias ou técnicas se mostra paralogicamente obstáculo ao que concede sentido ao desenvolvimento delas, as decisões articuladas à sua capacidade de fornecer informação efetiva. 
            Mas seria também incoerente que desde a segunda metade do século XX, quando o conflito leste/oeste estava se transmutando na evidência do que o embasava como conflito norte/sul, o terceiro mundo ficasse na abstração total da sociologia. 
           Não que isso não fosse o desejado do marxismo, como se expressa manifestamente Fredric Jameson em seu "mapeando os sixties", onde assevera injustificadamente que após as guerras de descolonização  e após Cuba, já nos anos setenta o terceiro mundo deixava de ter importância na produção de ideias ocidental.  Jameson omitia assim que na África as guerras de descolonização avançaram até os anos oitenta, com os Estados Unidos numa coalização com as nações europeias colonizadoras que se traduzia por exemplo na Unita de Jonas Savimbi,  
denunciada  pelo namíbio  Nujoma

 como criminosa, atuando juntamente com 

neonazistas contra a independência, que   

era financiada por  Reagan e Margareth Tatcher,  

os introdutores  históricos do neoliberalismo 

econômico.
         A estimativa de Nujoma a propósito do andamento da guerra de libertação nacional, estimativa visada no bojo da transição do conflito leste oeste a norte sul, estudei em meu livro recente "Riqueza e Poder, a geoegologia", lançado pela Quártica, que porém a editora ainda não colocou na Internet, onde já estão circulando meus títulos anteriores como na "estante virtual", podendo o novo ser requisitado ao meu email ou ao editor. 
    Como comprovei neste meu livro, em que consta a história do capitalismo midiático americano, das intervenções imperialistas nas nações do terceiro mundo e do caráter predatório da dominação de multinacionais, e onde exponho a meta-teoria 'geoegológica' que à frente examinaremos, formava-se na década de oitenta um período dramático quanto à questão do terceiro mundo. Pois também estava havendo avanço bélico do imperialismo norte-americano na America Central e no Afeganistão, prosseguindo a política intervencionista inaugurada logo após 1945, que Cl. Julien havia desvendado nas suas ramificações para-legais ou golpistas. A intensificação aparente do conflito leste oeste por Reagan na verdade mostrava-se já a realidade do conflito norte sul.
         Nessa época se pode constatar porém que um novo consenso do conflito leste oeste havia se estabelecido em torno do "corporate state" como uma forma de controle social amplamente exitosa. Típica das superpotências, URSS e USA,  anulava-se assim pelo novo consenso, tanto o aspecto competitivo de ambas, como se o mundo houvesse atingido uma coexistência integrada, como também as oposições políticas,  que estavam, inversamente ao que se dizia, crescendo no interior de cada uma. 
         O 'consenso' considerava que o Estado havia se tornado completamente coordenado ao capital imperialista, ou, na União Soviética, ao imperialismo ideológico que abarcava do mesmo modo que no Ocidente as possibilidades de integração social empregatícia e cultural, coibindo somente a crítica da cultura por defasagem calculada de instituições de produção intelectual. 
       Mas como vimos o que realmente acontecia era o incremento do conflito norte e sul, o que a Leste se traduzia pela oposição crescente ao regime sovieticista. Ao longo dos anos oitenta a dessovietização de 1991 era inimaginável, mas ocorre quase concomitantemente à "globalização' que significa recolonização do terceiro mundo pelo caráter inviável da independência do capital e ideologia local a partir da ocupação das multinacionais integradas planetariamente pela dominação info-midiática. Já desde a segunda metade da década de noventa a cartografia planisférica se define pelo conflito norte sul, com uma linha entre os dois hemisférios classificados como respectivamente desenvolvido e subdesenvolvido, com exceção da Austrália que fica alinhada ao norte, e com inflexão da linha asiática para colocar ao sul regiões acima da divisão equatorial.  Assim seria esperável uma sociologia do terceiro mundo, especificamente composta pelos seus problemas e informações correlatas. O que realmente se produziu devemos agora examinar. 

    A Sociologia do Terceiro Mundo e a "geoegologia"
          Entre os anos setenta e a plena conscientização do imperialismo como determinante histórico, o que se poderia designar uma sociologia do terceiro mundo cresceu a partir de temas da realidade local que  gradualmente agregaram-se ao repertório sociológico. Esses temas abrangem a dependência tecnológica e   
demais obstáculos ao desenvolvimento, assim muito relacionada ao objetivo desenvolvimentista. Como exemplo de considerações de obstáculos, já vimos algo a propósito com Lacoste. Há também uma tematização importante do latifúndio,  estudado entre outros por Tourraine. 
          O latifúndio ou plantation não apenas representa a posição agrário exportadora para países que assim tem limitada a industrialização por se reduzirem a importadores do norte, como também perpetuou o escravismo por mecanismo de dívidas que passavam de pai para filho, oriundas das compras de subsistência que os lavradores tinham que fazer porém do próprio patrão. Assim também reportavam-se condições subhumanas de tratamento aos lavradores. Até agora os conflitos do campo no Brasil são traumáticos, com o monopólio da violência exercido pela classe dominante. 
        A mecanização parcial do campo que vem ocorrendo desde a época de inícios desses estudos num status internacional,  nos anos setenta, apenas resultava na migração do lavrador à cidade que se tornou superpovoada por favelas onde o crime organizado tornou-se a regra, hoje havendo assim porções urbanas comandadas por leis próprias, de cunho bárbaro indiferente à constituição. 
    Até aí a literatura sociológica que o público pudera conhecer limitava-se a publicações de artigos de sociólogos europeus ou norte-americanos. Os temas do terceiro mundo, enfeixados sob a rubrica do subdesenvolvimento eram oriundos de investimentos desses pesquisadores estrangeiros. Graças a publicações populares, como a "biblioteca de ciências sociais" da Zahar,  traduzia-se muito da produção internacional e assim sabia-se tudo sobre  a cidade inglesa, ou sobre os resultados de pesquisas sobre o soldado norte-americano e a burocracia norte-americana, porém não havia publicação de informações sobre a cidade brasileira ou sobre os processos de acomodação capitalística, exceto de escritores na oposição á ditadura, que eram porém ou de formação historiadora como Wernek Sodré, ou assim se produziam por haver necessidade de compreender os acontecimentos recentes do golpe ditatorial à invasão da economia pelas multinacionais, como R. Dreyfuss. Há hoje uma "nova biblioteca de ciências sociais" da Zahar, integrando estudos de autores brasileiros, porém continua a ser referencial as produções clássicas internacionais. 
       Seria inverdade não considerar o crescimento de produções de sociólogos brasileiros, como o mais famoso por ter sido presidente, Fernando Henrique Cardoso, porém eles agrupavam temas que não se tornaram populares a partir de publicações destinadas ao grande público. Os que se tornaram referenciais operavam conforme paradigmas já bastante obsoletos, tendenciosamente religiosos ou preconceituosos como o catolicismo pan-americano de Gilberto Freire ou o germanismo de Buarque de Holanda votando de modo racista o subdesenvolvimento ao que seria a preguiça herdada do colonizador português contrariamente ao denodo calvinista, etc. A pesquisa universitária operacional continuou desconhecida do público leitor.
             Quando o pós-modernismo se tornou um referencial em curso, desde os anos noventa, começou-se a empregar a rubrica da "teoria pós-colonial". Relaciona-se especialmente à realidade afro-asiática após a descolonização, que apenas repetiu o que se constatou nas Américas central e latina, ou seja, o imperialismo após o colonialismo. Franz Fannon tornou-se um referencial na cobertura da problemática do imperialismo racista na África. 
           Homi Baba e Eduardo Said podem ser exemplos da teoria pós-colonial, como visões opostas. Enquanto Said em Orientalism mostrou como o saber sobre o oriente se construiu como visão do ocidente coordenada às estratégias colonizadoras, que refletia porém estereótipos do machismo e do racismo,  inversamente a uma interlocução racional, Baba considerou psicanaliticamente o preconceito contra o colonizado. 
           Como nessa época já estava muito corrente a translação especialmente operada pelo estruturalismo lacaniano, do preconceito de gênero sexual, o machismo, como fundamento inconsciente de todas as assimetrias políticas possíveis, assim Bhabha interpretou o preconceito colonizador  e a ambivalência a ele ligada, entre o desprezo e a utilização, como mecanismos inconscientes  metafóricos e metonímicos que inscreviam a cor como "diferença" - o que angustia se descoberto mas causa prazer se encoberto. 
          Creio que  Bhabha criticou de modo oportuno a concepção dualista da cultura como por exemplo no escrito S. Heath, cujo personagem adotava dupla autoreferência, o da lei americano, Mipe, e o do desejo mexicano, Miguel. Inversamente ao dualismo e à miscigenação como alternativa, a  questão para Bhabha seria mais apreender a realidade independente do estereótipo construído pelo conflito imperialista. Porém se isso é válido para o dualismo racial, não creio ser tanto para a questão da mistura cultural, como pode ser pensada historicamente. Também creio que Bhabha não considerou o aspecto sócio evolucionista da própria psicanálise, e que Eduardo Said estava mais correto ao tangenciar a questão do saber,  que é o correlato desse aspecto.  
         Mas a teoria pós-colonial, que a meu ver pode ser considerada uma extensão da sociologia do terceiro mundo, e inclusive se beneficia muito da informação operacional contra as totalizações monolíticas ocidentalistas, exibe uma contradição histórica, por isso que se desenvolveu paralelamente à recusa dos marxistas de integrar o "terceiro mundo" como realidade geopolítica. 
           Assim o próprio Jameson, que não obstante sua "periodização" já reportada, repetiu nos anos oitenta uma constante do subdesenvolvimento do terceiro mundo como mentalidade local pré-ego-lógica, anterioridade do split público-privado que se traduziria numa literatura local ante-modernista e sempiterna realista, foi criticado por Aljaz Ahmad do Paquistão, porém não por ter discriminado o terceiro mundo numa posição sócio progressista já superada. 
           Ao invés, Ahmad se insurge como marxista contra o próprio conceito de terceiro mundo, supondo que só há uma realidade sócio-histórica internacional como conflito de classes. Como podemos redarguir, porém, o conceito de "mundo" é um heteróclito que só se torna inteligível com um complemento que o especifique como por exemplo mundo moderno ou contemporâneo, o que é o caso quando se conceitua terceiro mundo como o conjunto das nações (pós)-coloniais sob regime de dependência econômica no imperialismo. 
        A realidade do planisfério atual norte sul até tornaria desnecessário salientar isso, com o terceiro mundo sendo o sul já mapeado, porém é algo que me parece oportuno, devido a insistência da posição marxista. Assim também como já vimos, o capitalismo sem imperialismo não haveria, pois seria reduzido a uma saudável economia nacional. Se há luta de classes é porque o imperialismo existe como a escala necessária de proventos para possibilitar a dominação de classe numa sociedade localizada. 
          Contudo parece assim restar na mesma posição contrária ao pós-modernismo que a de Jameson, uma vez que o pós-moderno questiona a totalização, e, como vimos, a teoria pós-colonial é um dos seus integrantes. 
          A referência jamesoniana ao realismo no terceiro mundo não seria assim fortuita, uma vez que a sociologia do terceiro mundo emerge paralelamente ao rise da literatura americano-latina inovadora que seria típica do pós-modernismo pelo retorno do texto e tematização histórica. Mas os teóricos iniciais do pós-modernismo, que repetiam o consenso do corporate state, julgavam que ele era um fenômeno de mercado ocidental, mesmo se a sua produção fosse multicultural e a história já se tematizasse apenas nesse sentido situado na margem, o terceiro mundo ou esmo que fosse uma margem situada dentro do Ocidente, como da mulher ou de minorias étnicas. Alguns como Hutcheon integravam a literatura americano latina no pós-modernismo ocidental, outros como Jameson trataram de a reduzir a realismo. 
         Que é um realismo de realidades de consciência e linguagens irredutíveis à do ocidente, críticos latino americanos como Xirau e Jorge Enrique Adoum afirmaram, mas assim sem negar as produções modernistas que inversamente aí estariam integradas numa síntese inovadora porque mais autêntica como expressão da consciência local. Logo, eles estavam raciocinando na antecedência de um vocabulário mais exato como do "pós-modernismo", o cenário em que a dicotomia dualista totalizante do primitivo e civilizado estava superada. Tanto porque não restavam horizontes não cooptados pelo "ocidente" capitalista ou sovieticista, como porque a antropologia já mostrava a impossibilidade de classificações totalizantes devido à heterogeneidade das sociedades e o fato de serem realidades históricas e geopolíticas, inversamente à restrição mítica do primitivo que antes se atribuía.      
         Na verdade como marxista, violentamente contrário ao pós-modernismo devido a essa mesma superação assim como também Terry Eagleton,  Jameson propôs radicalizar o sócio progressismo como dicotomia do primitivo e moderno ocidental, que como vimos já estava criticado pelo fato do marxismo ter tido que se culturalizar, tanto pelo humanismo funcionalista como pela convergência com os movimentos de descolonização. Se como verificamos, as propostas estruturalistas não ultrapassaram de fato a oposição, ao menos elas o pretenderam, inversamente à radicalização jamesoniana.   
           Ele julgou o pós-modernismo ocidental como uma lógica cultural do capitalismo atual que seria sem ideologia, midiática puramente.  Provavelmente sua teoria do terceiro mundo é um modo de resolver a questão cultural supondo-se que para modos de produção que não são as desse capitalismo tardio. 
         A meu ver, que se trata de dominação info-midiática é certo, porém a função é preencher o papel que antes era o da teoria desenvolvimentista, ou seja, erigir ideologicamente o modelo do centro a ser copiado pela margem para uma oposição construída somente pelo mesmo papel. Como já referenciei os estudos de Halberstam e Julien, seria muito inverídico considerar a mídia não ideológica, operando apenas por mecanismos redutores da recepção ao signo inconsciente. Inversamente, não considero que as produções culturais sejam todas redutíveis a mídia, assim o vídeo alienation de Lathan e outros, que Jameson considerou como exemplo, a meu ver exibe influências sim mas do "balé mecânico" do dadá modernista F.  Leger, sem que isso impeça ter tematizado referenciais da época de sua produção, sendo o movimento pop um neodadá inicialmente designado. E já o  pós-moderno provavelmente irredutível ao pop, mas por ter acentuado decisivamente o investimento na história da arte, modo pelo que tematiza a realidade contemporânea. 
        Também não creio que Jameson tenha compreendido o capitalismo tardio pela contradição que ele expressa ao afirmar que é uma economia pós-nacional mas ao mesmo tempo que o terceiro mundo seria ainda nacionalista, quando só pode se globalizada por abarcar o terceiro mundo como desde sempre é a realidade do capitalismo. 
           Em todo caso, vemos que a sociologia do terceiro mundo se imbricou a uma realidade muito ampliada de sua problemática na era do conflito norte sul. Com a revivescência do marxismo no terceiro mundo com exceção das regiões sob dominação islâmica, e o crescimento da dominação capitalista info-midiática, ambos  anti-sociológicos tanto como  anti-"teóricos", há uma tendência da sociologia do terceiro mundo tanto como da teoria pós-colonial de solver-se no questionamento geral da globalização, feito porém pelo ângulo do norte, onde a liberdade da produção acadêmica subsiste junto com o rico fomento orçamentário das instituições e autores. 
        Mas isso pode significar um novo horizonte de crítica que revitalizaria a sociologia "no" e "do" terceiro mundo. Ou a evidência de que a mudança da mentalidade na globalização info-midiática está ensejando novos contextos de produção cultural por vir. Seja como for, creio bem nítido que a generalização completa da superação da dicotomia primitivo-civilizado, não obstante o quanto o mapa do conflito norte sul parece apenas a mesma coisa que ela, é o requisito necessário ao retorno do questionamento político. Uma vez que a dicotomia é a estrutura do imperialismo. 
           Assim vemos que o mapa é uma imagem ambígua, entre vermos um mundo articulado por duas funções complementares, ou dois mundos que se contradizem na lógica do mesmo modo de produção globalizado. Essa ambiguidade indecidível é a mesma do sentido de "modernidade" como racionalidade progressiva da espécie mas ao mesmo tempo agência de um Sujeito da História, o ocidente capitalista-comunista, que só pode se colocar nesse status frente a uma alteridade como oposto anterior a si.  A rememoração da modernidade como referencial da construção opositiva é então uma das tarefas importantes da kritikultur, por onde se deveria apreender as contradições subjacentes ao crescimento mesmo da consciência europeia e ocidentalista em geral na modernidade, a propósito da relação entre apropriação, alienação, capitalismo e imperialismo. Assim temos uma  interlocução construtiva aos referenciais da teoria política como abrangência de temas relevantes, a que a possibilidade de pesquisa operacional e a singularidade da cultura local acrescentaria as mudanças e refutações necessárias. 
     Aqui reporto a minha contribuição à sociologia do terceiro mundo na consecução da meta-crítica da modernidade a que designei "geoegologia", termo composto dos étimos "geopolítica", ego e logos.
          A modernidade como geo-ego-logia é como coloquei ao longo deste escrito, a construção paradigmática da meta-teoria ego-lógica como geopolítica opositiva do "centro" ou ocidente sujeito da história,  e da margem como a cópia futura do trajeto do sujeito assim como também a antecedência ou passado arcaico dele mesmo. A meta-teoria egológica ou modernidade subsume pois todas as teorias constituídas na sua imanência e integra num senso-comum generalizado as ciências humanas. As constantes metateóricas da geoegologia são pois as categorias de análise do "discurso do primitivo", o modo como a oposição do  moderno ocidental ao que supõe ser anterior a si se mostra subjacente a qualquer produção teórica da modernidade ocidental, podendo pois serem usadas por pessoas interessadas na recuperação do sintoma do desejo ocidentalista manifesto numa teoria ou texto que deseje examinar. 
    Alter-egologia podemos considerar o efeito geoegológico na margem, como o discurso do letramento local limitado a cópia das teorias desenvolvimentistas do centro. Na alteregologia ocorre depreciação conspícua de qualquer veleidade de produção local para objetivos de curriculuns institucionais universitárias e política de mercado editorial, assim como projetos políticos efetivos. A análise do discurso alteregológico enfatiza estas invariantes que se imbricam a ingerências calculadas do imperialismo na educação e comunicação em massa. O perfil do alter-ego do centro é bem típico. Conforme a praxe se deprecia perante o criador importado, não admite criação local. Não concebe um processo autônomo da cultura relacionada à démarche da história local, mas supõe que está possibilitando que a cultura venha pela virtude do modelo  a existir, e que está   inaugurando a história como projeto futuro. Mensura seu valor teórico somente como reprodução fiel do modelo, que na verdade porém é seletiva para objetivos de aplicação de receitas supostas desenvolvimentistas porém com oclusão da base imperialista. Em termos histórico-sociais, a alteregologia funciona na base econômica mesma, por ser escalonamento de classe o estatuto do modernizador, versão atual do herói civilizador da lenda. As verbas e organização institucional seguem o modelo alteregológico. Um exemplo conspícuo é a Usp, que inaugurou no século passasdo a faculdade de filosofia local, porém com importação de professores a princípio franceses, com um locus definido para o achincalhe dos produtores de textos filosóficos e teórico sociais brasileiros que vinham produzindo desde a independência e se intensificando nas campanhas do republicanismo e abolicionismo. O achincalhe do produtor local continua, até radicalizando-se não obstante a internet aparentemente ser um meio de circulação livre de publicações. 
         As categorias analítico-discursivas geoegológicas se instituem pelos paradigmas desenvolvimentistas da  modernidade. São estes  construções opositivas do moderno e anterior, desennvolvido e subdesenvolvido, para um conceito de desenvolvimento  que portanto é paralógico na medida que do contrário deveria ter por critério apenas a qualidade de vida, o idh (índice de desenvolvimento humano) que mensura os itens qualificáveis como saúde, longevidade, habitação, alimentação, liberdade política, etc. Os paradigmas desenvolvimentistas opositivos podem ser enunciados como vimos até aqui, pela sucessão do Romantismo, Positivismo, funcionalismos e  estruturalismos.
           Já estamos considerando suficientemente ressignificado o capitalismo como assimetria internacional do capital, colonial imperialismo, monopolismo da exploração colonial imperialista por meios variados desde as concessão do rei no "antigo regime" até as organizações de cartel multinacionais da atualidade empresarial. O próprio conceito de modernidade se relativiza, pois o antigo regime colonial escravista seria apenas a retomada do antigo capitalismo imperial helenista.
         Mas se o construído na oposição centro margem, moderno e primitivo, é um Sujeito (da História), podemos convir que deveria repetir as coordenadas da teoria do sujeito. Se o sujeito pensável é realmente um fator exclusivamente moderno ocidental, ele provém contudo da heterogeneidade cultural oriunda da colonização. O sujeito tornou-se pensável no bojo da explicação da cultura assim descoberta desde o romantismo, na emancipação das colônias.  
          Aqui, em todo caso, a psicanálise se torna útil como referencial geoegológico por ser uma teoria radicalizada da subjetividade a partir da noção de inconsciente. Sendo pois o enunciado de um desejo, aquilo que suporta um correlato outro de saber, do mesmo modo que a teoria ocidental postula cientificamente a alteridade colonial  mas na verdade como o correlato do seu desejo de dominação.
          A teleologia do Édipo pressupõe igualmente uma teoria do objeto que mesmo tendo sido capaz de colocar a questão do relacional - conceitos que como o de gênero feminino e masculino só fazem sentido pela relação de um e outro - na verdade se erige ambiguamente conforme o dogma da ciência, um objeto/signo ideal contraposto a todo outro. 
             A ambiguidade sintomática da psicanálise se espraia assim a uma teoria geral do objeto, uma vez que as fases ou posições do inconsciente seriam possibilidades do que podemos designar  objetualidade, com apenas uma ("genital") sendo porém a que corresponde ao sujeito epistêmico. 
            Podemos então observar como os paradigmas correspondem a objetualidades das fases ou posições.
            O romantismo oral, conveniente à descolonização americana que facultou o imperialismo subsequente,  realmente pensava na pluralidade as nacionalidades, os valores numa polissemia do universal, visto que a problemática do desenvolvimento não dependia da variável abarcar a própria subjetividade e uma retórica do bom selvagem pudera perseverar. 
           O positivismo sádico-anal como discurso do imperialismo operou a redução do ser humano ao meio ambiente, do sujeito ao objeto "produção", unificando o objeto na oposição mais radical da margem à civilização. O primitivo brutal da horda originária justificava o imperialismo biologicamente racista tanto como direito do mais forte ao domínio como empresa civilizacional da espécie. 
            Ao superar-se a biologia racista pela emancipação da cultura funcionalista e pela biologia genética, vemos que uma fase fálica, de dúvida ou dilema de ciência e cultura, auto-consciência e alteridade, como no "círculo hermenêutico" que ao mesmo tempo faculta a ciência social e a restringe como "interpretação" ,  se propaga de um  modo tão característico como podemos ver pelos textos dos autores representativos, eivados geralmente de acalentadas contradições ostensivas. Assim o selvagem tanto conserva a brutalidade infantil que os positivistas  atribuíram como agora é também o criador da arte, e o vemos como sujeito da sensibilidade espiritualizada, etc. 
          A objetividade genital dos estruturalismos deveria ter criticado a oposição mesma, conscientizando-se como fez do estatuto apenas "simbólico"sistêmico do objeto científico. Porém como vimos o limite da teoria do objeto atuou como o sintoma geoegológico do desejo ocidentalista, a oposição relançou-se.
        A dominação info-midiática representa pois, compreensivelmente, uma neoanalidade redutora da consciência ao objeto imperativo da produção, com um discurso ostensivo da anterioridade anulada para objetivos de enunciação do sentido. 
         Como já coloquei, o papel da dominação cultural ou ideologia nesse sentido se faz agora preenchido pela indústria info-midiática, o que também é consequência do pós-modernismo na ciência já recusar construir novo modelo dicotômico do centro e da margem. O imperialismo necessita portanto, de um novo meio da dominação cultural. 
          Agora o objeto imperativo sádico-anal que no positivismo clássico era a produção industrial, é a máquina computacional que personifica o "ocidente" ora designado o norte desenvolvido, assim como restringe o sentido a sujeitos correlatos da sua atuação, novo mito do "jovem", do super-homem neo-nietzschiano, do proletário futuro, etc. 
          Mas do mesmo modo, sob a subsunção deste imperativo, a dominação info-midiática reifica o culturalismo funcionalista, produzindo esterótipos político-midiáticos que reduzem as questões dos grupos sociais heterogêneos a objetivos de arquétipos factícios do "poder", assim capitalizando porém pela demagogia os focos de produção cultural e movimentação política em meras áreas restritas aos investimentos de propaganda e capital, neutralizando o potencial contestatório. O "tipo" visa subsunção completa do sujeito, que precisa agora se repensar. 
        Nas produções teóricas internacionais o recentramento neoanal da globalização tem se manifesto com a frequência esperável da situação considerada, o que torna a crítica geoegológica particularmente aplicável. 
         Examinando algo ligeiramente o recentramento, algumas características notáveis podem ser constatadas. 
          O corredor único mídia/ educação funciona como aparato cerceador da teoria e escrita, uma vez que a máquina internet das marcas multinacionais monopolistas cerceiam os espaços e condiciona escolhas. Nas escolas a praxe docente coordenada pelas políticas de diretorias é de total subsunção à tecnologia importada, sem crítica ou qualquer discussão sobre os programas de escrita projetados pelos interesses unilaterais, exclusivos das logomarcas imperialistas. Aqui há um monopólio da Microsoft, com os computadores vindo das lojas com o seu programa.  Estes interesses são ostensivamente relacionados à diversificação da atenção para objetivos de desviar o interesse pelo pensamento e estudos humanísticos para recepção intoxicante do fascínio de massas. 
          O fascínio de ídolos midiáticos cujo direcionamento ideológico  na atualidade é nitidamente de tipo fascista, bem oposto aos subjetivismos libertários das décadas anteriores. Não se enaltece alguém sem que se produza lateralmente um inferiorizado para contraste a partir de relações mútuas tão fantasiadas quanto fixadas de modo persistente no discurso midiático.  Mostra-se o discurso do ídolo dirigido pelos produtores do business de mídia, inclusive  manifestamente contra pessoas ou costumes democráticos e cultivo dos estudos humanísticos. O fascínio do ídolo, paralelo ao qual só se propagam fanatismos religiosos de índole despótica com penetração de massas nitidamente imperialista que se insurge até mesmo contra a religiosidade pacífica de âmbito privado, funciona como intertexto subliminar dos "bate papos" on line possibilitados pelos programas recentes de páginas coletivas, que assim reoperam o travestimento fonologista da escrita enquanto disseminam-se contra a escrita autônoma a partir dos direcionamentos dos programas da logomarca, como já observamos.  
    O corredor único mídia escola tampouco estimula reflexão sobre o fato mesmo da dependência tecnológica, agora também empresarial uma vez que as operadoras são multinacionais, ou sobre os reflexos reais do "importacionismo" na economia, etc. Tem sido a constante, mesmo se um computador pessoal custe mais do que dois salários mínimos geralmente, salvo ofertas transitórias na propaganda, e o custo com tintas e manutenção seja oneroso, num contexto de predominância estatística da população com renda deficitária. 
           Já o search" de internet é um instrumento de contra-informação ostensiva, ao menos neste país, pois as páginas iniciais veiculam muitas vezes apenas artigos com  dados falsos, principalmente a propósito de temas capitais à atualização do horizonte teórico, ou minimizam a oferta de publicações que poderiam ser gratuitas on line, tanto amostras do pensamento atual como por textos canônicos muito comercializados que já permitem portanto circulação em domínio público. Mesmo quando se trata de informação sobre temas clássicos as distorções ideológicas destes artigos de primeiras páginas ou mesmo dos quadros apostos à página como informação veiculada pelo provedor são nítidas. Porém a exortação de que na internet o search apenas exibe publicações não controláveis quanto à qualidade, assim como qualquer estabelecimento de mercado, não se faz pelo corredor mídia escola, pelo contrário, o search costuma ser indiscriminadamente indicado como fonte de pesquisa escolar. O fato de que a recepção de informação é um ato interlocutivo que supõe capacidades críticas tende a anular-se quando se trata do conteúdo da "internet" conforme os objetivos da política de subsunção mídia escola. 
          Outro modo de intervenção na educação são investimentos que mantem como atuais  teorias já obsoletas, que devemos ao invés conhecer  conjuntamente com as críticas e relacionar com os acontecimentos históricos que as invalidaram. Inversamente, o conhecimento das críticas e refutações históricas é censurado ostensivamente, ou porque se votam ao silêncio publicações que circulam, ou porque se marginalizam as pessoas que o expressam. 
         Como na margem a alteregologia implica a total indiferença à noção de autonomia científica universitária ou autoral, como aliás à autonomia qualquer, não obstante a letra da lei a intervenção direta dos decretos arbitrários são sempre objetivos de "políticos" demagógicos, o radical ou o reacionário, cujo discurso ostensivo é estar importando modelos de outros países ou aplicando fórmulas dos gurus da moda, portanto sem suspeita da utilidade de qualquer pesquisa operacional especializada. A referência a pesquisa é feita pela mídia apenas quando aproveitável para efeitos de exploração do bizarro, restrita a comunicação de resultados como fatos soltos, sempre de proveniência das ciências naturais, únicas conhecidas pela massa desletrada.
               Esses fatores explicam como os textos relacionados ao pós-modernismo tem sido censurados nas universidades desde os passados governos petistas, tendo antes havido  um interregno mais democrático. Assim por um lado o corredor mídia escola atende ao deslocamento da teoria pela mídia na dominação cultural da atualidade, mas o motivo ordenador desse deslocamento, o fato das teorias atuais não proverem dicotomias de primitivo e civilizado não corresponde à realidade local das instituições de letramento, que se mantem atreladas a paradigmas construídos pela pretérita necessidade da dicotomia.
             Porém assim o recentramento em nível internacional, quanto ao aspecto de sua tangência nas produções culturais,  é mais um fator a ser considerado. 
      A princípio devemos equacionar  o marxismo, porque tem se  mantido  impactante localmente devido à proximidade do petismo. Vemos que o pós-modernismo nunca se mostra conceituado por ele como a superação da dicotomia do primitivo e civilizado, mesmo se o mais frequente na definição marxista do pós-modernismo é a ácida crítica ao fato dos "grandes relatos" terem sido neste superados. O que é literalmente a mesma coisa, porém o marxismo nunca o nota, de modo a jamais relacionar pós-modernismo e crítica do imperialismo, o que é contudo o traço conspícuo da pós-modernidade teórica e estética. 
       Mas a persistência do modelo dicotômico no marxismo apenas relaciona-se ao imperativo marxista da modernização  para formação do proletariado. Foi o carro chefe do petismo, tanto que as privatizações dos serviços básicos e a implementação do corredor mídia escola atingiu o auge nos governos passados do pt, tratando-se de política preferencial da direita, entretanto. 
           E não obstante a ostentação oposicionista do petismo sob processo de impeachment ao business de mídia como porta  voz da direita, o pt tem sido defendido pelos ídolos de massa internacional  que a exemplo dos rockeiros clássicos assim pretendem se singularizar da média como politizados, independente de qualquer satisfação a propósito das provas de corrupção. O  ataque desses ídolos, especialmente os roqueiros,  à liberdade eleitoral nossa, orquestrou-se aos interesses do partido democrata estadunidense, que se pronunciou também apoiando os processados por corrupção, mas que não obstante a propaganda não tem muita diferença do imperialismo tout court, assim Kennedy foi o ordenador do golpe militar intervencionista local nos sixties. A documentação sociológico-histórica dos trâmites para-legais e ilegais da intervenção estadunidense está estudada em meu "Riqueza e Poder, a geoegologia", assim como antes no Irã e demais referências, tendo eu tencionado integrar esses acontecimentos a uma história do imperialismo que abrange a globalização e o neonazismo. 
           Quanto aos fatores internacionais do recentramento, deveria ser esperável que tivessem influência aqui. Já observei em estudos voltados ao contexto local, que um dos modos de depreciação alteregológica consiste em demarcar o que seria o atraso sempiterno da nossa recepção às inovações ocidentais, porém examinando com vagar sendo possível detectar ao invés uma atualidade costumeira. Isso também se verifica agora.
      O cenário internacional tem demonstrado indiferença à interligação entre obsolescência da oposição primitivo/civilizado e crítica do imperialismo. Esse nexo vinha sendo mais ostensivo na época inicial da controvérsia em torno do pós-modernismo, mesmo se naquela época, desde os anos oitenta, a teoria em torno do pós-moderno tenha sido muito contraditória, por vezes até inconsistente. Mas tornou-se estável a posição do pós-moderno como, tanto como desconstrução das oposições dicotômicas que substancializam diferenças que porém não são naturais e sim culturais e portanto politicamente constituídas, como  superação dos paradigmas sócio progressistas nessa acepção dicotômica do primitivo e moderno-ocidental. Superação que, contudo, tende a ser negligenciada quando, primeiro, já não pode haver proveito a um status de modelo desenvolvimentista na margem, exceto do marxismo ortodoxo. E, segundo, por isso e por outros fatores, entre os estudos culturais e a teoria social recente, houve uma especificação crescente do objeto da crítica, como visando questões definidas a exemplo do preconceito de gênero, étnico, de status, propriamente cultural, etc. Nestes investimentos tem sido questionados os limites disciplinares das ciências, como especialmente a sociologia, se bem que a sociologia mesma já estava se ramificando em estudos setorizados com grande amplitude até aí. 
             O recentramento incide em todo caso, mesmo de caráter inconsciente - como na verdade atua a geoegologia e alteregologia -  visto que estas questões setorizadas já na abrangência de teorias que se pretendem independentes das disciplinas podem tornar a ser generalizadas, independentes do contexto, se num país desenvolvido ou na realidade recolonizada do terceiro mundo na globalização das "multinacionais" garantida pela geopolítica do capitalismo, e de acordo ou não com as questões culturais nacionais heterogêneas. 
          Houve expresso objetivo de alguns no sentido de substituir a história generalizada pela luta de classes, o que já estava sendo criticado pela indiferença à heterogeneidade cultural,  por uma história generalizada do preconceito considerado, por exemplo no feminismo. A consciência crescente das singularidades contextuais não foi anulada, porém independente da pretensa setorização do objeto crítico, algumas tendências gerais foram se tornando verificáveis, e nelas embutindo-se critérios favoráveis ao recentramento. 
          Antes de referenciar algo sobre tais tendências gerais, seria preciso ver que localmente a interlocução com os estudos já setorizados, estando marcada pela circunstância das décadas do petismo antes do impeachment recente, resultou numa política de estereótipos, como de "tipos", (negro, mulher, etc.),  cujo discurso "político" se limita a franca e ingenuamente exigir "poder" , portanto a partir de uma tipificação de si como substancialmente diferente e diverso do outro igualmente substancial. A ostentação de se estar apoiando a superação do preconceito na mídia é feita apenas como meio de mostrar o "poder" como supremacia do tipo frente ao seu outro - o que internacionalmente tem motivado atitudes de radicalização terrorista do preconceito, para defesa dos meros direitos civis. A religião atuou recentemente, por exemplo, na defesa do direito dos pais informarem aos filhos se são de sexo biológico feminino ou masculino. Pode-se redarguir que os textos ao mesmo tempo cronologicamente pós-modernos e relacionados aos estudos setorizados, em  nível internacional, estavam visando exatamente o contrário disso, pela crítica do signo desconstruindo a diferença reificadora, para mostrar como a construção da oposição dela ao outro se fazia nos termos do preconceito exercendo-se institucionalmente. 
           A retórica onipresente do "poder" a guisa de exigência emancipatória inclui a juventude como nova "raça superior" a partir da fantasia de ter incorporado congenitamente as capacidades computacionais do momento mais recente, dotando-se pois da pretensão de gerir a realidade de alguma mera engenharia social em que o outro são os supostos etariamente incapacitados. 
          Porém, mesmo sendo estas práticas políticas a que o marxismo petista estava limitado na sua necessidade de manter atualizada interlocução com o cenário internacional, tão destoantes da desconstrução,  não seria razoável supor apenas um desconhecimento num meio de disseminação ideológica. Os "tipos" do poder apenas são aqueles que dentro da reificação podem ser incorporados aos aparatos da dominação info-midiática, alijando-se do mesmo modo que antes os que não se coadunam de fato. Mas de fato a teoria internacional como vimos está enunciada na dependência de generalidades que tornam contraditórias suas metas, uma vez que elas operam oclusão da questão histórica estrutural da atualidade, a globalização como conflito norte sul que pre-ordena as políticas institucionais por aquilo que podemos definir como a realidade da dominação info-midiática imperialista. 
          Mas assim, quanto a essas generalidades, podemos examinar com proveito já a proeminência da "teoria crítica" na atualidade, um paradigma que vem do anarquismo da metade inicial do século XX, a partir de Benjamin. Se Rorty operou a convergência ao pragmatismo deweyano, na verdade a teoria crítica tem tido peso desde a new left norte-americana, na setorização dos estudos, como no feminismo de Cornell university, especialmente de S. Benhabib, seguindo Habemas. Aí a redução ao tipo é bem  nítida, com rejeição da democracia legal por um discurso que visa reconhecer apenas "sujeitos concretos", a saber, aqueles que possivelmente já estão identificados numa situação precisa, como especialmente a do gênero: a mulher é mãe, não "desembaraçada" mas tendo responsabilidades familiares, etc.  Nessa vertente da teoria crítica porém, Adorno tem sido muito (re)-considerado, mas por uma postura que reencontramos amiúde mesmo em contextos que não o seguem ostensivamente. É essa a tendência generalizante que pretendo enfatizar aqui. 
          A composição de "A indústria cultural, o Iluminismo como mistificação de massas"" de Max Horkheimer e Theodor Adorno (in "Teoria da cultura de massas", organizado por Luis Costa Lima, Rio de Janeiro, Saga, 1969, p. 157 e segs.), é um extrato da "Dialética do Iluminismo, Fragmentos Filosóficos", publicado em 1947.  Aí se faz a crítica contra todo objetivismo naturalista ignorante do a priori cultural e humanístico, assim como ignorante da base econômica da exploração política. Porém a crítica opera a redução ao século XVIII como época da revolução burguesa ou "iluminismo", daquilo que de fato é um pensamento voltado contra o "positivismo" do século XIX como época da revolução industrial. Uma vez tendo sido o pós-positivismo da época de Heidegger, dos anarquismos de Benjamin ao neomarxismo humanista de Lukacs, Sorel ou Gramsci, do neokantismo ao paradigma funcional totalizante, o referencial pioneiro dessa crítica. 
       Essa tendência de recuo ao século XVIII do que na verdade é o positivismo do XIX, é o que tem se generalizado em muitos contextos teóricos, o que  resulta como vimos na oclusão do que na crítica pioneira era  mais ostensivo, Lenin nessa época tendo que equacionar o imperialismo na tese da luta de classes de Marx. O fato da dominação planetária não ser apenas a multiplicação do capital tecnológico, mas o neocolonialismo e imperialismo, era então o importante a considerar na abrangência mesma da redescoberta da heterogeneidade cultural, do contrário não haveria este algo diverso do fato objetivo da dominação econômica como no marxismo ortodoxo, a saber, a dominação cultural "instrumental" cientificista.  
          A redução ao século XVIII do positivismo como imperialismo econômico e cultural, portanto não apenas a visão ingênua da razão, mas a concepção da razão como evolução social contra um estado outro da humanidade, é o anacronismo  mais criticável do estudo de Adorno e Horkeimer sobre a indústria cultural ou mídia de massas. Assim compreendemos porque a crítica a conteúdos ideológicos desta nem mesmo depende das premissas deles, mas começou ao que eu saiba por um uso da teoria dos aparelhos de Estado, de Althusser. Hoje com efeito, muito mais teria que ser acrescentado à generalização da critica à indústria cultural adorniana, e a teoria de Althusser já foi contestada, como em Apple por exemplo, por forçar muito em relação ao que na prática das instituições como a escola é realmente o espaço da negociação entre alunos e professores. 
            A redução ao século XVIII da nova crítica da razão ingênua serve ao objetivo de mascarar o significado do positivismo e da indústria como dominação cultural do imperialismo econômico contra-revolucionário-industrial na "margem" anexada pela Revolução da Indústria do "Centro". 
           Aqui o estatuto contra-revolucionário da revolução industrial mesma é o mais importante, uma vez que só se conceitua muito gradualmente ao longo do século XX. Permite observar portanto que o imperialismo atuando repressão ostensiva brutal às possibilidades de industrialização autônoma na margem, o que compõe de fato a história desta como até os golpes para desnacionalizar a indústria local já constituída, já não se pode representar como o outro do que seria um estado primitivo incapaz de produzir, de saber, etc. Na atualidade a antropologia já conhece sociedades simples que eram democráticas, e com leis em âmbito público, já o vimos,  ou mesmo a tese da democracia na mais antiga organização da Cidade (Sumer) e em todo caso, a consciência da história própria que as sociedades simples tem paralelamente aos seus referenciais religiosos. O capitalismo antigo no helenismo já ostentava proletariado auto-consciente, ver Rostovtzeff quanto à aplicaçaõ do projeto proletário na Sparta de após o escravismo, a crítica do "saber" como  misticismo identitário do privilégio do poder já estava expresso no taoísmo chinês na mesma época, etc.
          A redução mesma do positivismo ao século XVIII que ignorava a questão cultural - pensava o primitivo como natureza semi animalesca,mas assim mantendo-se como ao progresso na imanência do universal, o que o positivismo dicotômico já não fazia como ideologia do progresso unilateral - deve ter sido possibilitada por que inicialmente  o culturalismo pós-positivista, dentro do qual se articulou a "teoria crítica", acreditava no primitivo como ingenuidade do mito, incapacidade do Saber. Já examinamos a história dos paradigmas até aqui, até o pós-estruturalismo que ainda mantinha o "ocidente" como unidade intocada de um desenvolvimento intrínseco sem notar que o objeto mesmo do auto-conceito resultava da construção opositiva ao primitivo não ocidental. O pós-modernismo multicultural e heterogêneo vem pois da evidenciação do conflito da industrialização na margem, equacionado especialmente nos estudos de "história efetiva", algo similar metodologicamente ao operacional na sociologia. 
                Repetindo, a oposição centro-periferia (centro/margem) foi produzida no positivismo com a abrangência psicossocial evolutiva que define um estado subdesenvolvido não só econômico mas mental, a partir de certas premissas a propósito da cultura como evolução da modernidade ocidental. Compreende-se que não podia ter sido produzida no século XVIII classicista, que desconhecia o evolucionismo material e a história como ciência da cultura. Mas a permanência não criticada da "teoria crítica" na atualidade expressa pois um recentramento neoanal como retorno da articulação da base econômica do positivismo, que era o imperialismo industrial alçado a progresso da espécie, como hoje é a dominação info-midiática. 
            Mas para objetivos da dominação cultural também na sua vertente esquerdista, a redução ao iluminismo de todo aparato de dominação moderna que vemos praticada desde a "teoria crítica" era estratégica. O imperialismo tinha que parecer apenas o epifenômeno a partir do determinante da modernidade como - factual e não paralogicamente - a ciência de si mesma como evolução da objetividade. A revolução científica ao mesmo tempo explicava e era assim explicada, fazendo abstração do que deve ter representado para a emancipação da ciência a descoberta puramente empírica das Américas, assim como do homo americano na consecução do liberalismo político.
          Na "teoria crítica", desse modo, houve motivos que fecundaram o ataque ao imperialismo, especialmente em Marcuse, mas conservando-se a corrente isenta da conscientização da mudança necessária na definição da modernidade, persistindo na crença dela como atribuição adjetiva de um estado de coisas progressivo. Como desde Lenin, o imperialismo era equacionado na definição do capitalismo mas apenas como fase, isto é, epifenômeno, sendo a essência a luta de classes, paralelamente à racionalidade burocrática legal da empresa em Weber. O montante do investimento necessário à dominação de classe, oriundo somente da empresa colonizadora ou imperialista, era ignorado conforme o desejo da incorporação da "modernidade" pelo discurso. 
       Assim o paternalismo do subdesenvolvido-primitivo (especialmente negro)-mulher-criança e consequente nostalgia das - supostas - origens libidinais "primitivas" não foi mesmo na "teoria crítica" jamais questionado como apenas um rótulo aposto ao não-moderno-ocidental, pela ideologia da dominação cultural eurocêntrica "ocidentalista". Na atualidade a política do "tipo", do "concreto", é pois a revivescência da origem primitiva. A ideologia que configura o modo de se performatizar do capitalismo, mas sem que qualquer revolução socialista possa se livrar dos mesmos resultados, operando na mesma base - suposta - científica evolutiva.
           A ausência de objetividade como de suporte natural, na configuração ideal-típica do primitivo ou subdesenvolvido econômico e cultural, nunca foi até agora estudada como um sintoma, o que tenho proposto na  "geo-ego-logia" e "alter-egologia".
            Aqui seria demasiado tangenciar outras tendências e práticas do recentramento na teoria atual, independente da redução ao século XVIII da crítica anti-cientificista, que constatei generalizada. A propósito, a crítica anti-cientificista por si mesma, isto é, anti-positivista,  pode não ser o mesmo que crítica da ciência, mas apenas do preconceito dela como única instância de cultura. Quando se deixa assim reduzir, torna-se apenas uma contradição performativa da ação contra a teoria porém textualizada num grande número de páginas, como creio ser o caso de Hannah Arendt ou de Michel Foucault, cuja apreensão das ciências humanas em As Palavras e as Coisas, falseia completamente a história das teorias e desenvolvimento das matérias. 
           Mesmo na imanência do recentramento  temos uma realidade, assim o que deverá  motivar o pensamento que a dote de sentido. O recentramento neoanal da globalização recolonizadora coexiste com o excentramento pós-moderno como já o visamos. As consequências nas práticas política e teórica  em devir estão por equacionar e continuam por se desenvolver. 
                                            ======



  

       





Nenhum comentário:

Postar um comentário